26 de fevereiro de 2018

Estilos de Vinculação e Relações Íntimas



A forma como nós adultos entramos em relação íntima reflete a forma como em crianças estabelecemos o vínculo com os nossos cuidadores. A Teoria da Vinculação, desenvolvida por John Bowlby, demonstra-nos que a interação entre pais e filhos define o terreno a partir do qual posteriormente estes desenvolvem as suas relações. Bowlby concluiu que a necessidade humana de partilhar a vida com alguém faz parte da nossa constituição genética e não tem nada a ver com o quanto nos amamos ou o quanto estamos bem connosco próprios. Estar bem consigo próprio não implica não querer um parceiro amoroso, apenas interfere na qualidade das relações interpessoais.


Em adulto, existem 3 estilos principais de vinculação: o Seguro, o Ansioso e o Evitante. Há inúmeros fatores que influenciam esta classificação, mas, generalizando, podemos dizer que se as figuras parentais foram disponíveis e presentes, o vínculo desenvolvido corresponde ao Seguro; se foram inconstantes e instáveis, o vínculo é o Ansioso; se foram distantes e rígidas, o vínculo é o Evitante. Em termos práticos, esta dinâmica reflete-se na visão subjetiva que hoje temos da intimidade, na forma como lidamos com os conflitos, no comportamento sexual, na capacidade de expressar desejos e necessidades e nas expectativas perante o parceiro e a relação.

As pessoas com um estilo de vinculação Seguro sentem-se confortáveis com a intimidade e tendem a ser calorosas e afetivas; as pessoas com um estilo Ansioso anseiam pela intimidade, preocupam-se bastante com as relações e tendem a ficar inquietas com a capacidade do seu parceiro as amar; as pessoas com um estilo Evitante veem a intimidade como uma perda de independência e tentam constantemente minimizar a aproximação. Cada estilo, ao ter sido adquirido em criança, torna-se a modalidade conhecida e familiar de estar em relação, o que não significa que seja a que nos faz sentir bem. Enquanto a mesma for inconsciente, os nossos mecanismos de interação são automatizados e cristalizados nos padrões de comportamento aprendidos. O primeiro passo para a libertação é ganhar consciência do que nos condiciona e nos protege de viver situações que enquanto adultos já não representam um perigo, mas a nossa perceção a partir do Self Infantil ainda o são.

Perceber os estilos de vinculação é uma chave para a compreensão do comportamento de cada um em contexto de intimidade e, consequentemente, para a identificação das dificuldades inerentes ao (des)encaixe entre as pessoas durante uma relação. A maioria encontra-se no Estilo Ansioso ou no Estilo Evitante e nenhum deles nos proporciona um terreno que permita o florescimento de uma relação saudável e nutridora. Pode ser assustador saber que estamos ‘programados’ para agir de determinada maneira, mas a boa notícia é que também temos a capacidade de alterar, ou pelo menos melhorar, o nosso estilo de vinculação rumo a relações que nos complementem e nos ajudem a viver a melhor versão de nós próprios, sem dependências.

Todos nós temos a necessidade básica de criar vínculos, a forma como os criamos é que varia. Ainda que nos insiramos numa das classificações mencionadas, nada é estanque ou fixo. Não se trata de as definir como boas ou más, mas sim de compreendê-las e sentir o que verdadeiramente queremos e precisamos de viver através de uma relação. Ao contrário do que alguns poderão pensar, vínculo não é sinónimo de dependência e ter relações íntimas não implica inevitavelmente perder a liberdade. Tudo depende da forma como cada um vive, na sua realidade interior e exterior, esse mesmo vínculo.

Cada estilo encara a vinculação segundo determinadas crenças, as quais se refletem nos níveis de (des)conforto com a intimidade, na necessidade de atenção por parte do parceiro e na preocupação pela relação. Essas mesmas crenças são as responsáveis por detetar e monitorizar a sensação de segurança e disponibilidade das nossas figuras de referência. Precisamos de nos sentir seguros – já Maslow o indicava como segunda necessidade básica do ser humano, após a fisiológica! Independentemente do estilo desenvolvido, cada vez que sentimos algo ‘errado’ na sequência de uma atitude do parceiro, o nosso sistema ativa o alerta e sentimo-nos impotentes de o acalmar até o parceiro nos dar sinais claros de que está presente na relação, novamente pronto para nos ajudar a sentir que ainda nos mantemos em terreno seguro.

Mas como é que cada estilo sente essa insegurança e o que faz para a colmatar? O estilo Seguro procura a aproximação, mas sem a interferência do medo da rejeição, do abandono ou da asfixia. Identifica bem as suas próprias necessidades e expressa-as de forma tranquila. As relações não são negociações nem campos de batalha, antes pelo contrário. Em geral, são bons ouvintes e esforçam-se para que os desentendimentos se transformem em situações funcionais para ambas as partes.

O estilo Ansioso procura intensamente a intimidade, mas é extremamente sensível à forma como a aproximação é feita. Tem uma necessidade extrema de carinho e segurança e é muito perspicaz em detetar as necessidades do parceiro, dedicando-se ao outro com bastante espontaneidade. Sendo o foco principal o reforço do sentimento correspondido, mais facilmente se preocupa com o outro do que consigo próprio, podendo ser difícil identificar e exprimir as próprias necessidades com receio que choque com as do parceiro. Tende a anular-se em prol do bem-estar da relação, ou em satisfazer o outro em troca das chamadas migalhas de atenção. Vive na ânsia constante de se sentir amado e no receio de perder o outro, procurando assim a sensação de correspondência do sentimento em todo e qualquer gesto do parceiro.

O estilo Evitante procura fugir do compromisso porque o identifica como perda de autonomia, pelo que a proximidade e a intimidade são vistas com alguma hostilidade. Ainda que mantenha a necessidade básica de vínculo e de amor – comum a todos os seres humanos – tem tendência para se sentir sufocado quando há demasiada aproximação. No entanto, precisamente porque tem as mesmas necessidades que todos, movimenta-se numa dança de aproximação-distanciamento dependendo dos passos do outro. Quando sentem o parceiro ‘desistir’ vão atrás, mas quando se aproxima ‘dão com os pés’. Há uma tendência geral para mensagens ambíguas como reflexo do conflito entre a ideia de compromisso e o forte desejo de vínculo.

Parece paradoxal, mas o encaixe mais comum é precisamente o de um estilo Ansioso com um estilo Evitante, pois ambos reforçam no outro o sistema de crenças desenvolvido em criança: o Evitante sente que o ansioso o pressiona para uma proximidade maior do que aquela que toleram, o que ativa a sua autoperceção de defesa de que são fortes e independentes; o Ansioso vive a confirmação de que será abandonado ou rejeitado pela autoperceção de que quer mais intimidade do que a que o parceiro consegue dar. Neste sentido, as lacunas vividas na infância perpetuam-se na tentativa ilusória e infindável de as colmatar.

Como sair desta pescadinha de rabo na boca? Ganhar coragem para reconhecer o seu próprio estilo e ter a vontade de abandonar o padrão familiar, o qual nos leva a um desgaste sem frutos. Quanto mais procuramos suprir carências através do outro, mais nos encontramos num poço sem fundo. Quanto mais procuramos a sensação de autonomia afastando o outro, mais nos sentimos desconectados. O outro nunca será suficiente para colmatar as nossas necessidades de infância, até pelo simples facto de que o outro não encarna – ou não deverá encarnar – o papel de cuidador. Numa relação saudável, o parceiro é um companheiro de viagem, inclusivamente na nossa viagem de cuidarmos de nós próprios.

A relação ideal é aquela entre duas pessoas autossuficientes que se encontram num espaço maduro e responsável, pautado pela confiança, respeito e aceitação das diferenças, mantendo as necessidades e os limites do Self Adulto bem claros. Com trabalho interior de introspeção, de tomada de consciência e vontade para a mudança, qualquer pessoa consegue encaminhar- se para um estilo mais Seguro, sendo que tal só é possível vivendo e experienciando a relação. É na relação que a mudança acontece, não em isolamento. Quando dois seres se amam e decidem crescer juntos, largando velhos padrões para dar espaço a um encontro nutridor, a dedicação à mudança é a abertura para um novo modo de viver a dois. Do murchar em relação passamos a florescer, encontrando terreno para explorar o nosso potencial com uma companhia através da qual sentimos que cuidar um do outro vem na sequência da liberdade de sermos nós próprios.

Rossana Appolloni
www.rossana-appolloni.pt

Bibliografia:
Amir Levine & Rachel Heller (2011). Attached. London: Peguin.