23 de janeiro de 2018

Sobre o luto e as perdas

Para os que ficam,
Há um tempo para seguir e chegar a um novo lugar
[Quando for o momento.]


Quando perdemos alguém que amamos entramos numa das fases mais difíceis da vida. E como se não fosse suficiente a perda, cria-se um silêncio tabu, deixando-nos sozinhos a lidar com essa dor.

“A vida continua”, “vais dar a volta por cima”. Sim, continua! Sim, damos a volta! Mas há um vazio que fica, uma ausência de sentidos: o cheiro, o toque, o sabor, o olhar, o ouvir. É difícil colocar por palavras. E talvez, também por isso, haja silêncio sobre o tema.

Quem está à volta não sabe lidar com a dor do outro. Talvez até na sua vivência alguma vez passou por isso… E aos poucos vão-se afastando por ser demais, por não saber lidar, porque já não se volta a ser o que se era.

Há um período de um ano em que se revive tudo. Os aniversários, os dias especiais. E a ausência fica ainda mais visível. É marcante a falta dos sentidos. E é precisamente pelos sentidos que vamos dando uma nova direção, muitas vezes com novos objetivos em mente.

Tipos de Perda
Quando falamos de perda não estamos só a falar de morte, podem ser pequenas perdas que não deixam de ser dolorosas e que passam despercebidas por amigos e família e às vezes por nós mesmos: uma doença, uma perda de emprego, a mudança de cidade ou país, a passagem para a idade adulta.

As pessoas podem mudar gradualmente. Ainda estão na nossa vida — mas não da forma que nos lembramos ou como as conhecemos. Deixa de ser possível aceder aos laços que nos ligam, às memórias partilhadas e até mesmo à personalidade. Por exemplo, com os entes queridos que desenvolvem demência, como Alzheimer, acontece não nos reconhecerem mais e aquele que era antes o seu companheiro passa a olhar para si como uma estranha.

Quando há uma doença terminal, há também uma dor antecipada da perda, de uma possível perda. A perda da saúde — mesmo a perspetiva de perdê-la — contida num diagnóstico pode ser fonte de tristeza, não apenas para a pessoa diagnosticada, mas também para os seus entes queridos. Perdemos nosso mundo hipotético. Todos os nossos planos, pensamentos, a nossa perceção de futuro e de segurança são desafiados. O futuro que conhecemos não é o que imaginámos.

Cada transição na nossa vida — não importa o quão positivas ou esperadas — implica um sentimento de mudança mais ou menos profunda. Por exemplo, o nascimento de um filho: pode ter esperado por este momento durante anos e ter ficado muito feliz, mas também sabe que a vida é diferente agora, a sua liberdade ficará limitada e de uma forma mais direta, também o seu sono.

Luto não tem sempre a ver com a morte, mas tem a ver com apego e separação.

As Fases do Luto
Consensualmente fala-se em 5 fases do luto, mas nem todas acontecem e nem sempre nessa ordem. O processo do luto depende de muitas circunstâncias: um acontecimento inesperado sem qualquer aviso prévio ou uma situação prolongada no tempo terá contornos diferentes, mas a sensação de perda está sempre presente. Desde a perda de emprego, à perda do companheiro de vida, de um filho ou até mesmo de mudança de país, há sempre uma sensação de pairar entre o que era e o que será. E por isso é fundamental dar tempo a que o processo de luto aconteça, sem forçar, sem empurrar ou apressar.

Para J. W. Worden (2002), este processo é composto de quatro tarefas:

Aceitar a realidade da perda: Quando alguém morre, ou há uma separação, há sempre a sensação de que isso não aconteceu. Ficar ciente de que esse ente querido, ou essa pessoa não volta mais faz parte do processo. O oposto seria entrar em negação: dos próprios factos da perda, do significado da própria perda, ou da irreversibilidade da perda. No caso do fim de um relacionamento temos fantasias de retorno ou de que as coisas irão funcionar apesar de todos os indicativos concretos de que a relação terminou. Para esta tarefa ser concretizada é necessário falar da perda e de todas as circunstâncias associadas à mesma: contar e recontar o que aconteceu.

Cuidar da dor da perda: é importante reconhecer e cuidar da dor da perda pois caso contrário poderá manifestar-se por alguns sintomas ou comportamentos atípicos. A intensidade com que cada um experiencia a dor e a vivencia é diferente de pessoa para pessoa, mas há sempre um grau de dor associada à perda de alguém com quem se tem um vínculo. A negação desta segunda tarefa é não sentir: parando estrategicamente os pensamentos sobre a perda ou evitar tudo o que torne essa perda presente. Emoções como choque, raiva, culpa e depressão podem surgir e a sua expressão deverá ser permitida para que o próprio sinta e saiba que um dia também essa dor vai passar. Podemos começar a dirigir a nossa raiva a todos à nossa volta: o médico não diagnosticou a doença a tempo ou raiva de si mesmo por não ter feito as coisas de forma diferente… No caso do fim de um relacionamento, raiva do ex e de elementos associados à separação (a outra mulher ou homem, ao trabalho porque foi aí que o ex “começou a mudar”). A raiva pode se dirigir a si mesmo e transformar-se em culpa. Ou apesar de sabermos racionalmente que não faz sentido, podemos dar por nós a culpar um ente querido que morreu por nos deixar. Expressar emoções de perda com pessoas próximas ou com outros que passaram pelo mesmo tipo de perda pode facilitar o processo e inclusive ser um alívio poder admitir a raiva ou qualquer outra emoção ou sentimento que surjam.

Adaptar-se à falta do outro: quando a perda envolve um filho ou alguém a quem os cuidados eram permanentes, ou mesmo a perda de um trabalho onde se coloca muito tempo e energia, significa que de repente há uma inactividade forçada. Onde havia responsabilidade, agora há vazio.  É muito provável que em algum momento, passemos a nos sentir cansados e um pouco desconectados das outras pessoas. Ficamos mais silenciosos e podemos ter alterações no apetite ou no sono. É uma fase mais profunda do luto, na qual experimentamos muita tristeza ou, caso não estivermos abertos para os nossos sentimentos, uma certa dormência emocional. Essa “depressão” não é como a depressão de um diagnóstico clínico, é uma reacção natural à perda. Por exemplo, quando um homem ou mulher se aproximam da idade da reforma, ou até mesmo na pré-reforma, podem sentir que vão deixar de ser quem eram, quando o trabalho era onde colocavam toda a sua energia. Nesta adaptação à perda é importante ir criando novos horários e responsabilidades, mas também criar rituais significativos como um passeio a um local que dá prazer, manter um diário ou escrever poesia, marcar sessões de relaxamento ou massagem. Esses momentos podem ajudar a viver as emoções difíceis e deixar o processo do luto acontecer com mais suavidade.

Transformação emocional e seguir com a vida: Para quem perde alguém, retirar o vínculo emocional pode ser sentido como se estivesse a desonrar a memória dessa perda. Voltar a ter um filho ou um novo companheiro após a sua morte pode ser assustador e muitas vezes projecta-se a ideia de uma nova perda. Para muitos esta é a tarefa mais difícil do processo do luto. É frequente em terapia percebermos que o cliente ficou parado no momento da perda mantendo, por exemplo, quartos intactos, ainda que tenham passado vários anos desde a morte do seu ente querido. Adaptar-se à perda e voltar a uma vida funcional é importante, mas é também necessário transformar o vínculo para algo saudável que permita aceder a memórias e a manter um contacto simbólico ou espiritual com quem já partiu.


Apoio Profissional
O momento de voltar a viver é muitas vezes assustador, mesmo quando começamos aos poucos a fazer actividades com amigos e a conhecer novas pessoas que nem sabem o que aconteceu. Decidir o que dizer e partilhar depende de cada um. Podem desenvolver-se novas relações que ajudam a retomar a vida. Mas pode haver momentos em que se lamenta a perda, seja de que tipo for e para lidar com a dor e o sofrimento, é preciso encontrar pessoas a quem se possa confidenciar o sentir, bem como profissionais (psicólogos ou psicoterapeutas) e/ou grupos de apoio que possam ajudar a passar os vários momentos do luto.

O mais importante é que as decisões sejam tomadas de acordo com o que é melhor para cada um de nós e para as pessoas que nos rodeiam e que nos são queridas.

Lidar com a perda é uma experiência humana, mas em que cada um lida de forma única. Cada um sabe o que se passa consigo, mas poder contar com o apoio dos outros faz com que esse tempo seja um tempo de colo, uma espécie de útero para poder (re)nascer, onde se vai completando as tarefas associadas ao processo de luto. É por isso fundamental o apoio psicológico ou psicoterapêutico para que os momentos difíceis possam ser vividos de forma plena e sem medo de desabar.

No final desse processo alcançamos finalmente alguma paz com a perda que tivemos e não há mais aquela sensação de querer voltar ao que era antes. Ainda podemos sentir tristeza ou saudades, mas voltamos a pensar no futuro e passamos a sentir que algo novo irá aparecer nas nossas vidas. Esse momento não chega de uma hora para outra e nem é um mar de rosas, mas pouco a pouco, quase sem perceber, chega e fica. Quando esse momento fica suficientemente sólido é quando, por exemplo, passamos a comemorar o aniversário de um ente querido que morreu fazendo algo que nos faz bem. É quando a lembrança de quem não está mais connosco dá mais alegria do que vontade de chorar. É o momento em que ficamos realmente em paz e entendemos de coração porque aquela relação não resultou. Ou quando olhamos a nossa própria doença e a aceitamos por aquilo que nos permitiu transformar em nós e nas dinâmicas com os que estão à nossa volta.


Texto de Catarina Lourenço de Carvalho
http://musicterapiacorporal.wixsite.com/musicoterapia


Referências / Bibliografia

Doka, K. J. (2016). Grief Is a Journey: Finding Your Path Through Loss. New York: Atria Books.

 

National Kidney Foundation (2001). The Grief Journey: The Death of a Spouse or Lifetime Companion. New York: National Kidney Foundation, Inc. 

National SIDS/Infant Death Resource Center (2005). The Death of a Child - The Grief of the Parents: A Lifetime Journey. Virginia: U.S. Department of Health and Human Services, Health Resources and Services Administration.

Worden J. W. (2002). Grief Counseling and Grief Therapy: A Handbook for the Mental Health Practitioner (Third Edition). New York: Springer Publishing Company.