11 de outubro de 2017

A música em contexto terapêutico

A música é uma linguagem universal. Em todas as épocas e culturas teve e continua a ter um papel importante. De acordo com vários autores, a espécie humana é, por natureza, produtora e recetora de sons. No desenvolvimento psico evolutivo os estímulos sonoro musicais influenciam e contribuem para a consolidação da personalidade e na definição da identidade (Sabbatella, 2002).

Fazem parte dessa Identidade Sonoro Musical as seguintes componentes (Sabbatella, 2002):
  • Sons corporais internos: ritmo cardíaco, ruídos dos intestinos, fricção das articulações...
  • Sons corporais externos: caminhar, respiração, sons involuntários...
  • Características da voz falada e cantada: registo, intensidade, timbre...
  • Musicalidade da linguagem (elementos sonoro-musicais da linguagem verbal): inflexões e variações da forma rítmica e melódica da fala, velocidade e expressividade verbal, expressões onomatopeicas utilizadas para acompanhar a expressão verbal, forma particular de gritar, rir, chorar...
  • Ambiente sonoro-musical cultural: músicas tradicionais, música popular, contaminação sonora...
  • Ambiente sonoro-musical familiar: formação musical dos pais, ambiente de estímulo sonoros e de atividades musicais...
  • Gostos e preferências sonoro-musicais individuais: sons agradáveis/ desagradáveis, estilo musical preferido...
  • Aptidão e capacidade musical individual

As características sonoro-musicais que definem o indivíduo e formam a sua identidade desenvolvem-se desde o ventre materno e organizam-se a partir de uma série de elementos que evoluem no tempo dentro de um determinado ambiente socio-cultural e familiar.

A música converte-se assim numa ferramenta que permite à criança (e posteriormente ao adolescente e adulto), adquirir a noção de gosto e preferência musical e diferenciar-se dos pais e dos pares através desta identidade sonora individual. Nesse sentido, a experiência musical contribui para o reconhecimento, diferenciação e identificação pessoal e para a definição de identidade.

Participar em atividades musicais e desenvolver habilidades musicais específicas pode proporcionar um ambiente propício para participar em experiências de êxito, obtendo benefícios físicos, emocionais, cognitivos e sociais.


Resposta a estímulos sonoros

A literatura reconhece que, apesar de haver características comuns, as respostas à música são individuais; as condições socioculturais e a história pessoal modificam a perceção e as respostas à música: perante um mesmo estímulo musical os sujeitos podem responder de forma diferente devido às influências de fatores como a formação musical, os gostos e as preferências musicais, a predisposição do indivíduo em receber o estímulo sonoro, a situação (se espera ou não o estímulo), a presença ou não de uma patologia neurológica ou psiquiátrica (Sabbatella, 2002).

A música, como uma das Belas Artes, possui qualidades psicológicas e terapêuticas inerentes à própria arte (Poch Blasco, 2002):
1. Poder de sugestão e fantasia.
2. Poder de projeção.
3. Relação arte-sonho.
4. Realização imaginária de desejos inconscientes.
5. Tentativa de síntese ou de condensação.
6. Tentativa de solução.
7. Função catártica.
8. Capacidade libertadora.
9. Função de comunicação.
10. Tipo de linguagem.
11. Processo de exploração.
12. Fenómeno social de pergunta e resposta.
13. Medicina preventiva.

A música tem vários efeitos e qualidades: efeitos bioquímicos, efeitos fisiológicos, respostas musculares e motoras, respostas cerebrais, efeitos psicológicos, efeitos sociais e efeitos espirituais. De acordo com as características musicais específicas, as respostas dos indivíduos à música que mais se analisam são:
  • Respostas fisiológicas: frequência do ritmo cardíaco, frequência respiratória, respostas galvânicas da pele, sudoração, tensão muscular, secreção hormonal, secreção gástrica, etc.
  • Respostas neurológicas: excitação das diferentes áreas do córtex cerebral, do sistema límbico, cerebelo, sistema nervoso autónomo, etc.
  • Respostas psico-emocionais: atenção, motivação, memória, participação em atividades, grau de comunicação, etc.

A música em terapia

A música é o meio ideal para descobrir quem é o cliente e como se expressa no mundo, no que se refere à criação e à própria manutenção da identidade, uma vez se torna não só um meio de diagnosticar os problemas do cliente, mas também uma forma a partir da qual o cliente expressa as suas necessidades e a sua problemática convertendo-se num meio de expressão psicopatológica.

Um som, uma música, uma canção podem produzir, tanto respostas motoras, como emotivas, como orgânicas, como de comportamento que comunicam (Sakai et al., 2004).

Para Bruscia (2000) através da música transformamos “as nossas sensações corporais internas, os nossos movimentos, sentimentos e ideias em formas sonoras que podem ser ouvidas”. A música “permite expressar os nossos corpos através do som – vibrar e fazer soar as suas várias partes de forma a poderem ser ouvidas. Quando cantamos ou tocamos instrumentos, libertamos a nossa energia interna para o mundo externo fazendo o nosso corpo soar, dando forma a nossos impulsos, vocalizando o não dizível”.


 “A possibilidade de comunicar sem usar a palavra,
abre todo um campo que permite estabelecer novos vínculos.”
Rolando Benenzon

Texto de Catarina Lourenço de Carvalho
Site: http://musicterapiacorporal.wixsite.com/musicoterapia

Referências
Ansdell, G. (2000). Music for Life. Aspects of Creative Music Therapy with Adult Clients. London: Jessica Kingsley Publishers.

Benenzon , R. (1991). Teoría de la musicoterapia. Bilbao: Mandala.

Bruscia, K. (2000). Definindo Musicoterapia. Rio de Janeiro: Enelivros (2ª ed.).

Bruscia, K. (2006). Case studies in Music Therapy. Gilsum: Barcelona Publishers.

Poch Blasco, S. (2002). Introducción a la Musicoterapia. In Musicoterapia 2002. Programa de Formación para Mediadores en Musicoterapia. Libro de Ponencias. Madrid: Confederación ASPACE, FEISD y Confederación Autismo España.

Sabbatella, P. (2002). Musicoterapia y Parálisis Cerebral. En Musicoterapia 2002. Programa de Formación para Mediadores en Musicoterapia. Libro de Ponencias. Madrid: Confederación ASPACE, FEISD y Confederación Autismo España.

Sakai, F. A., Lorenzzetti, C & Zanchetta, C. (2004) Musicoterapia corporal. In: Convenção Brasil Latino América, Congresso Brasileiro e Encontro Paranaense de Psicoterapia Corporais. Foz do Iguaçu. Centro Reichiano, 2004. CD-ROM. [ISBN - 85-87691-12-0]