25 de setembro de 2017

O desafio da viagem

Um dia, em conversa com uma amiga, falávamos das voltas que a vida dá, dos desejos não realizados e das concretizações inesperadas. Falávamos de mudanças e de estabilidade e, às tantas, ela disse-me: «Não quero mudar absolutamente nada na minha vida. Estou bem assim. Estou confortável como estou, considero-me uma pessoa feliz». Esta afirmação teve em mim um impacto tão duvidoso quanto assustador. Porquê? Simplesmente porque se a vida é um processo em constante evolução, como é possível não querer mudar absolutamente nada? A mudança faz parte do processo natural do desenvolvimento humano, pelo que, seguindo esta perspetiva, há sempre algo a mudar: contactar outras realidades, conhecer pessoas novas, ter uma experiência diferente, ir a sítios nunca vistos… Tudo o que não pertence à esfera do que nos é habitual introduz mudanças na nossa vida. Mas ela não sente essa necessidade, quer a vida exatamente como está. Uma pessoa que não tem vontade de mudar nada recusa-se a crescer, a evoluir, a expandir a sua consciência. Life begins at the end of your confort zone (a vida começa quando saímos da nossa zona de conforto) e quem se acomoda fica condenado a murchar, é só uma questão de tempo.

Pensei em qual seria um dos maiores desafios para sair da zona de conforto: viajar sozinha! «Para mim, seria o cúmulo da tristeza e da agonia. Onde fica o prazer da partilha, das experiências com os amigos, ou melhor ainda, com o namorado?», comentou ela. São questões pertinentes. Viajar em grupo fortalece os laços de amizade. Na partilha de atividades de interesse comum e na vivência de emoções positivas, as pessoas gravam recordações que jamais esquecerão. Porém, quem viaja em grupo está sempre num ambiente seguro e protegido, onde a existência individual nunca é posta em causa. Viajar a dois, por outro lado, consolida a intimidade. Novas experiências vividas em contexto romântico enriquecem a história do casal e marcam o seu percurso. Ainda neste caso estamos em ambiente seguro, pois a existência de um é sempre validada pela presença do outro.

E viajar sozinho? Passamos a anónimos, perdemos a segurança do ambiente social conhecido, deixamos de ter o conforto da companhia familiar, abandonamos referências e certezas para sentirmos uma liberdade tão grande que nos invade as entranhas. Cada momento é uma escolha única e exclusivamente nossa, e cada pormenor é valorizado como nunca: alguém que nos sorri, que nos vê, que nos dirige a palavra… Quanto sentimos na pele o que verdadeiramente é a solidão, a não pertença, a desadequação, ficamos mais recetivos, olhamos para os outros com a comoção de quem não vê ninguém há muito tempo, apreciamos paisagens como se nunca tivéssemos visto nada de semelhante, aceitamos os imprevistos como parte do percurso, abrimo-nos ao desconhecido como fonte de aprendizagem, tornamo-nos mais amáveis, sensíveis, gratos, flexíveis, exploradores, autónomos, prestáveis, comunicadores com essência. Descobrimo-nos capazes de coisas impensáveis, olhamos para o mundo com a inocência e a curiosidade de uma criança ávida por descobrir mais e crescer, aprender, desenvolver-se e sentir-se parte daquela gente. E nesta viagem reconhecemos as nossas potencialidades, assumimos a responsabilidade pelas escolhas que fazemos, escolhas essas fruto de uma autonomia e de um desprendimento de deveres ou obrigações, provenientes apenas do sentir. Ficamos mais abertos ao próximo porque não há nada que nos condiciona; aceitamos a sua dança enquanto nos apetecer. E depois seguimos caminho e ninguém se magoa. Os encontros são momentos que vão marcando a nossa viagem, pois é na solidão que nos sentimos mais ligados aos outros. E quando chegamos ao fim seremos pessoas certamente mais ricas. Recordaremos o sorriso que iluminou o nosso caminho, o encontro que abraçou a nossa alma. Fôssemos nós capazes de levar a vida como uma viagem sozinhos, onde nada é garantido, nada é certo nem seguro, mas onde cada encontro faz a diferença e nos muda. Sozinhos, lá fora, não somos ninguém, mas, quem sabe, somos mais nós próprios. Essa é a mudança mais feliz a que podemos aspirar e só na morte é que a viagem chega ao fim.


Rossana Appolloni
www.rossana-appolloni.pt