31 de dezembro de 2017

Dezembro: CTRL+ALT+DEL?


Está a chegar o fim do ano! Altura para fazer um CTRL+ALT+DEL a nós próprios. Vejamos… Bloquear computador? Não vamos usar essa opção para finalizar o ano! Vamos mudar essa tecla para “desbloquear computador”. Sim, isso sim: desbloquear, fluir. É o ideal para encerrar capítulos e para nos sentirmos bem connosco: fluir. Não deixar nada bloqueado, seja a comunicação, a energia ou o movimento.
E a seguir? Terminar sessão. Sim, por vezes é doloroso, mas existem muitas coisas nas nossas vidas que precisam de ser terminadas e guardadas. Podem ser relações, atitudes, formas de olhar para algo. E é sempre mais fácil permanecer no doloroso conforto da segurança e não mandar embora aquilo que já está velho e que já devia de ter seguido o seu rumo para dar lugar ao novo. Então, como deixar de fazer pequenos movimentos que não nos fazem bem, para irmos pouco a pouco?
Encerrar sessão? O processo pessoal de desenvolvimento não tem um fim à vista, é um caminho que se vai trilhando, dia após dia.
Nesta altura também é preciso alterar a palavra passe. Quem tem acesso a nós? E quanto de nós deixamos para o outro ver? Às vezes é necessário perceber se as nossas muralhas estão demasiado elevadas ou se não estamos a respeitar o nosso espaço, os nossos limites.
É também uma altura de pensar no trabalho, temos de clicar no gestor de tarefas. Como estamos na área do “fazer”? Por vezes assumimos mais responsabilidades do que aquelas que podemos suster, e se for demais, é importante ouvir o que o corpo tem para dizer. Têm ouvido as queixas dele? E quando fazemos menos do que aquilo que devemos também podemos trazer grandes complicações. Como em tudo, é preciso encontrar um equilíbrio. E esse equilíbrio não é igual todos os dias e também não é o mesmo para todas as pessoas. Somos únicos, diferentes, e também, diferentes dentro de nós a cada dia que passa.
Cancelar? Sim, podem sempre cancelar a reflexão do final do ano, afinal, é tudo muito simbólico, não é? Por isso, seja quando for, onde for, Bom Ano Novo dentro de vocês!

Texto de Ana Caeiro, Psicoterapeuta Corporal em Biossíntese
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psicorporal.bio@gmail.com

Foto retirada de Unsplash

28 de dezembro de 2017

“Onde quer que haja alguém dançando, há também alegria” (A.Lowen)

Nota Prévia: O texto que se segue foi escrito por mim para ser apresentado num colóquio sobre o Batuque de Cabo-Verde, no Museu de Etnologia em Abril de 2016. Trata-se de uma pequena reflexão sobre os benefícios terapêuticos deste género musical. O Batuque é talvez o mais antigo género musical cabo-verdeano, composto por três ritmos, melodia, ou seja , percussão e canto, acompanhado de uma dança, que se desenvolve,  em crescendo, uma ou duas dançarinas de cada vez,  no interior do círculo de percussão, quase exclusivamente feminino. Antes de ser uma prática performativa é uma prática integrativa, bastante curativa.


“Onde quer que haja alguém dançando, há também alegria” (A.Lowen)

Há uns anos consultei uma médica alemã com a minhas filhas e a prescrição básica que trouxemos foi que uma deveria cantar e que outra seria bom que dançasse. Embora desconhecendo o alcance e fundamentação de tais recomendações, encarámo-las a sério e lá se foram concretizando e revelando mais essenciais do que na altura nos poderia parecer.

Coincidentemente, nesse mesmo ano, 2004, comecei uma pós-graduação em Psicoterapia Somática em Biossíntese; mais tarde deixei o ensino, depois de 34 anos como professora do ensino secundário, e tornei-me, ou estou a tornar-me, psicoterapeuta…

Porque falo deste episódio biográfico e familiar? Porque só depois de estudar autores como Wilhem Reich, Alexander Lowen, David Boadella, Stephen Porges, António Damásio, Dan  Siegel  e de conhecer um  pouco do que a epigenética e as neurociências descobrem actualmente,  pude perceber um pouco melhor a justeza e seriedade dos conselhos  da Drª Erika.

Só a título de ilustração deixo aqui uma definição relativamente recente do que será a mente: “ The mind can be defined as an embodied process that regulates the flow of energy and information. Regulation is at the heart of mental life, and helping others with this regulatory balance is central to understanding how the mind can change. The brain has self-regulatory circuits that may directly contribute to enhancing how the mind regulates the flow of its two elements, energy and information. (Daniel Siegel).

Compreende-se, pois, que se trata de um sistema complexo, não linear, em que áreas distintas do cérebro, e do corpo, se especializam em várias e diferentes funções que, depois, são chamadas à sua integração.

Esta integração caracteriza-se por um estado que busca o equilíbrio e o bem-estar e que pode ser descrito pelo acróstico, segundo mesmo autor, de FACES (flexível, adaptativo, coerente, energético e stable (estável), considerando um espectro em que, numa das extremidades temos o caos, na outra a rigidez, em ambas a dificuldade de viver e os estados patológicos.

Frequentemente, em situações de stress, retraímo-nos, afastamo-nos, limitamos a nossa participação no mundo e, para evitar o grande sofrimento, entramos num estado de quase “anestesia”; neste movimento buscamos proteção e segurança, mas, paradoxalmente, a médio ou longo prazo, temos o efeito contrário

As situações de stress excluem-nos, expulsam-nos das relações interpessoais em vez de nos levar a refugiarmo-nos nelas, como seria natural e desejável, já que os seres humanos precisam de outros para regular os seus próprios estados mentais e emocionais.

Diz Siegel ainda: “a mente emerge a partir da actividade do cérebro, cuja estrutura e função são directamente moldadas pela experiência interpessoal” ; dito por outras palavras "eu crio o meu cérebro com os meus pensamentos, emoções e sentimentos “embodied” (corporificados) , mas  tu também crias  o meu cérebro, e eu o teu", ou seja, “eu sou porque tu és” (Dolto) , requisito da humanização, sabendo que, quando estamos em sofrimento, estamos muitas vezes confinados ao  não dito, ao silêncio, ao isolamento.

Stephen Porges que desenvolveu um importante trabalho para a compreensão do trauma, sugere estratégias para o encarar e “resolver”, ao alcance de todos, e que tradicionalmente eram  praticadas, como no caso do Batuque, que podem ir desde bater num tambor, tocar um instrumento, especialmente de sopro, uma flauta de pastor (o sopro é activador do nervo vago, responsável pelos estados do  parassimpático de calma e relaxamento), cantar, falar em voz baixa, recitar poesia, recitar mantras, rezar, ouvir música...

A Psicoterapia Corporal procura entender a pessoa no seu todo, observando o corpo, a mente, o espirito, sem dicotomias, como um processo único, indissociável, em que as várias dimensões interagem, comunicam, regulam o tempo todo. O seu principal objetivo é ajudar a capacidade que temos, pois, de nos regularmos, de nos autorregularmos, seja energética, física, racional ou emocionalmente. É sempre equilíbrio, desequilíbrio, auto-consciência, autorregulação e co-regulação.

Uma das vias para atingir esse objetivo será através da consciência corporal. Essa consciência de si é algo que só pode ser adquirido por etapas, num processo de construção de uma identidade, feito de escuta do corpo, observando como este se encontra, respira, pulsa, se contrai, se distende, se emociona, se exprime etc... A dança constitui-se neste contexto, como um meio privilegiado, entre outros, para ir ganhando tal consciência, passando talvez por um processo gradual, como as partes do corpo: pernas, braços, ancas, ombros, cabeça, tronco, articulações, consciência da dinâmica do movimento. 

Assim, percebendo como a nossa vitalidade está e como flui através dos movimentos da dança, podemos detetar pontos de tensão e, consequentemente, buscar, permitir, de novo, uma “certa homeostase”, para que, realizando movimentos livres, fluídos e criativos, seja possível restabelecer a livre circulação energética, a pulsação saudável. A dança e a sua vivência proporcionam um espaço de experimentação de vários ritmos, e, através de movimentos diferentes, a pessoa vai encontrando a sua forma de fazer e de estar criativamente.

A força das psicoterapias corporais reside no facto de juntar à palavra, o movimento, a respiração consciente, a memória celular e corporal, favorecendo um profundo entendimento e integração do vivido, pensado, sentido, agido, possibilitando a alteração dos mesmos quando necessário.

Esta breve introdução serve para enquadrar a qualidade terapêutica de uma prática integrativa que mobiliza a pessoa de múltiplas formas como é caso do Batuque, um círculo de mulheres que se juntam para tocar, cantar, dançar, transmitir, aprender, desabafar, libertar, divertir.

Um dos principais conceitos das psicoterapias corporais é o conceito de grounding, que significa "enraizamento", ter os pés na terra, por isso o nome “Finka-pé” do grupo de batucadeiras da Cova da Moura, me interpelou assim que o conheci. Nesta expressão encontramos sintetizados aspectos importantes do nosso bem-estar físico, emocional, social, afectivo: possibilidade de “incorporar”, de estar no aqui e agora, ocupar o seu lugar/território, de se equilibrar, de estar em si, consigo, de ter os pés bem assentes no chão, "cair na real”.

Cada uma das mulheres tem o seu momento, quer seja no canto, quer seja na dança, sentindo a força do grupo, das outras mulheres, numa identificação que cria poder interno e de grupo.

finaçon de cada batucadeira, cujas palavras irão ser repetidas pelo grupo vai permitir-lhe sentir o acolhimento das suas preocupações, dores, alegrias, dúvidas, anseios etc. O facto de ouvir repetidas e amplificadas as suas palavras, sem julgamentos nem inibições, cria certamente um campo seguro, ou melhor, um espelhamento, feito de atenção dos seus pares, compreensão da sua condição, validação do que exprime, num ambiente sustentável e sustentado, profundamente  curativo.

A voz humana, mesmo sem palavras, pode dar-nos confiança, , acalmar-nos, pode ferir-nos irritar-nos; quando a ela se juntam as palavras, os sentidos, os sentimentos, estamos plenamente no humano.

Como diz Stephen Porges:

First, the area of the brainstem that regulates the heart (i.e., via the new vagus) also regulates the muscles of the head including those of the face, middle ear, mouth, larynx, and pharynx. When we studied the general function of these muscles, we realized that collectively these muscles provide an integrated Social Engagement System that controls looking, listening, vocalizing, and facial gesturing.

O batuque propõe às mulheres que o praticam uma libertação da região pélvica, que começa com o contorno (o pano que atam nos quadris), contendo a região para melhor a sentir e poder libertar. Toda a preparação preanuncia e ensaia a coreografia que depois se intensifica e expande. O movimento começa devagar e suavemente, e, num crescendo vai percorrendo e refazendo o percurso natural e saudável da curva de carga e descarga de orgone, como Reich chamou à energia vital. A essa curva Reich chamou curva orgástica, facilmente se visualiza a acumulação de carga libidinal até atingir um ponto máximo, seguido de descarga e repouso. Esta curva existe e está presente muito para lá da actividade sexual.

Entendia Reich, tal como Freud, que a neurose era construída em grande parte pela repressão da vitalidade, da líbido, do eros. Portanto, a sua expressão e libertação favorecem claramente a saúde,o bem-estar e a alegria.

Cada um destes conceitos (grounding,sounding) está vinculado ao sistema muscular e esquelético, ao sistema nervoso autônomo e visceral e ao sistema nervoso central e ao cérebro.

Sabe-se que a percussão é um excelente exercício, treino, para o cérebro, torna-nos mais vivos, em contraponto com a anestesia a que nos levam muitas vezes as situações traumatizantes, porque quando tocamos/rufamos acedemos ao nosso cérebro por inteiro, a transmissão física energética do ritmo ao cérebro sincroniza os dois hemisférios.
Assim, quando o hemisfério esquerdo (racional) e o direito (mais ligado à intuição e criatividade) “pulsam” em uníssono, ficamos mais inteligentes, mais despertos, mais intuitivos.

Rufar também ajuda a sincronizar as partes mais primitivas, arcaicas do cérebro, reptiliano (auto-preservação e defesa) ,  límbico ( emoções ) com o córtex pré- frontal  (linguagem , planeamento , reflexão, tomada de decisão, modulação de comportamento) . A integração das três camadas produz insight, clareza, confiança.

Por estas razões a percussão tem vindo a ser usada em várias doenças como TDA, recuperação pós-enfarte, doenças neurológicas como o Parkinson, entre outras.

A percussão/ Batuque também leva a um profundo relaxamento, num estudo em que se analisaram amostras de sangue dos participantes de uma roda de percussão, verificou-se que, depois de uma sessão de uma hora, tinha havido uma redução das hormonas do stress.

Participar numa sessão de percussão, sobretudo coletiva, em círculo, como no batuque, torna-nos, pois, mais felizes através da libertação de endorfinas, encefalinas (opióides naturais) e pelo facto das ondas do cérebro se alterarem passando às Alfa, estas geram chamado "estado em Alfa”, em que lançados na circulação sanguínea os neurotransmissores responsáveis pela sensação de bem-estar e regeneração. O aumento da produção das encefalinas, opioídes naturais, dá uma espécie de “moca” natural, que pode ser muito benéfica nalgumas doenças do foro psicológico como sejam a depressão e a ansiedade, ajuda ainda a controlar a dor, uma vez que estas hormonas também são anestesiantes naturais.

A percussão/ batuque impulsiona o nosso sistema imunitário. O neurologista, Barry Bittman, provou que os membros de um grupo de percussão, de facto, tinham tido um aumento de células T, as que ajudam o corpo a combater doenças, os vírus, as doenças. Felizmente, para nós que não rufamos, ouvir tem efeito semelhante. O som da percussão / batuque gera novas conecções neuronais em todas as partes do cérebro, e quantas mais houver, melhor será a integração das nossas experiências e vivências.

A roda de percussão cria uma forte sensação de ligação e pertença, promovendo a sincronização e sincronicidade o que ajuda bastante a conectar consigo e com os outros que, como nós, tocam o mesmo ritmo. Era, e é, muito usada em ritos xamânicos, na convicção de que se trata de uma ferramenta que permite aceder a “um poder superior”. Os curandeiros focam a sua atenção no corpo no seu todo, possibilitando a cura quer a nível físico, quer a nível mental, espiritual. Crêem que através da percussão se conecta, simultaneamente, com as forças telúricas (da terra) e as forças sobrenaturais. 
Ajuda no alinhamento do corpo/mente/ espírito com o mundo natural.

Ritmo vem do grego Rhythmos e designa aquilo que o flui, que se move, movimento regulado. O ritmo está inserido em tudo na nossa vida.Tocar/rufar permite-nos pois fluir com os ritmos da vida ou simplesmente sentir a batida.  

Gostava de terminar lendo um poema de Luiz Tatit, que sintetiza de forma económica e bela, como os poetas sabem fazer, aquilo que procurei dizer:

Baião De Quatro Toques

Quando bater no coração
Quatro pancadas e depois um bis
Pode escrever não falha não
É a tentação de ser muito feliz

Por isso é bom esse baião de quatro toques
Carregadinho de premonição
Ele não deixa que a batida se desloque
E que se afaste do seu coração

Pra quem compôs, pra quem tocou
e pra quem ouve
É o destino que sempre se quis
É uma quinta sinfonia de Beethoven
Que decantou e só ficou a raiz

Dá pra sentir
A exatidão
No tiquetaque do seu coração
Dá pra entender
Que esse baião
De quatro toques
Tanto tentou
Tanto tentou
Que se tornou
A tentação desse país
De ser assim feliz

Texto de Joana Quintino, Psicoterapeuta Somática em Biossíntese

Bibliografia
Lowen, Alexander- O corpo em Terapia- a abordagem bioenergética-Editora Summus, janeiro de 1977  
Siegel, Daniel, The Mindful Therapist: A Clinician's Guide to Mindsight and Neural Integration -Hardcover edition -W. W. Norton & Company (2010)

18 de dezembro de 2017

O ébrio espírito de Natal

Nesta época Natalícia, é comum o nosso apelo interior, à paz, à amizade, à compreensão, ao amor pelo próximo, etc.

Mas tão comum como isto, é também o confundir prendas, com dádivas ou oferendas.

O Natal é uma data profunda e unicamente cristã, e surge da necessidade da Igreja Católica em uma vez por ano lembrar os seus fieis da importância da fé, relembrando o seu primeiro (e quiçá o mais importante) mistério de fé.

As oferendas (atualmente prendas) formalizavam, a homenagem e o respeito.

De uma forma mais ou menos pagã, o simbolismo deste ato cristão espalhou-se e terá sido mesmo absorvido por outras fés e religiões, tornando-se numa celebração à família, à união, e ao amor.

É uma quadra fundamentalmente BONITA!

É a altura em que procuramos apagar as tristezas, e encontrar aquele momento, que nos faltou durante o resto do ano, por todas as razões e mais alguma, mas fundamentalmente porque formatámos a nossa cabeça, com uma reserva específica de amor para essa quadra.

E tendemos naturalmente a afastar do nosso circulo, tudo e que é menos bonito ou mesmo feio, numa atitude protetora da nossa, pseudo felicidade harmoniosa.

Pois foi exatamente o contrário que nos deixou a mensagem daquele cujo nascimento aqui celebramos; inclusão, tolerância, carinho e amor pelo próximo.

Nesta quadra, aqueles que pela amargura da vida e contrariedades impostas pela sociedade moderna, ou mesmo “selfimposed”, tanta s vezes esquecidos e desencantados, são aqueles que mais precisam deste espírito.

Alguém disse bem a propósito que, “Natal é quando o Homem quiser”, e tão a propósito é a altura de incluir todos os que por qualquer razão acham que não vale a pena a celebração.


Pode ser apenas um dia em que levamos a TODOS esta mensagem, mas apesar de muito pouco vale a pena, porque como dizia o filosofo; Um momento é o princípio da eternidade!

Texto de Ana Rita Carmo
Psicóloga e Psicoterapeuta Somática em Biossíntese

15 de novembro de 2017

O Tetris e os assuntos pendentes

Resumo:
Analogia entre o jogo eletrónico Tetris e as estratégias de vida. Convite a um olhar com mais amplitude sobre os desafios da vida e uma forma criativa que proporcione mais autonomia e liberdade.

Palavras-chave: assuntos pendentes, emoções, traumas, psicoterapia, desenvolvimento pessoal

Abstract:
Analogy between the electronic game Tetris and the strategies of life. Call for a broader look at the challenges of life and a creative way that can provide more autonomy and freedom.
Keywords: outstanding issues, emotions, traumas, psychotherapy, personal development.

Conteúdo:

o    “No jogo clássico Tetris, as peças geométricas caem de forma lenta e aleatória no topo do ecrã, os jogadores devem encaixá-las do melhor modo possível para obter sucesso no quebra-cabeça. O objectivo é simples: permanecer o máximo de tempo no jogo.” (citação em https://pt.wikihow.com/Jogar-Tetris)

As peças distintas caem aleatoriamente, tal como os eventos que sucedem na vida. Uma peça que não é totalmente encaixada corresponde a um aumento de dificuldade para tratar as peças que se seguem. Da mesma maneira, um assunto que não ficou resolvido da melhor forma vai estar presente conscientemente, ou inconscientemente, e, por isso, condicionar o presente (Perls, 2004). Tratar cada peça e encaixá-la correctamente será como tratar de um assunto e seguir para outro. Fechar um assunto será o equivalente no jogo a várias linhas fechadas e ao aumento na pontuação.
Quais são as melhores estratégias?
Alinhar as peças num dos lados do ecrã, rodar as peças conforme vão descendo, ter em conta a forma da próxima peça, entre outros princípios. O jogo ensina a desenvolver a atenção global, flexibilidade (rotação das peças), organização, paciência e fé que a próxima peça seja a que mais convêm.
E na vida como acontece?
Por vezes damo-nos conta que aparamos demasiadas solicitações. Acumulamos situações que nos desgastam, através de negações ou hesitações, ou complicamos, ainda mais, com soluções em cima do joelho ou precipitações. Estes comportamentos equivalem a peças mal encaixadas e a espaços vazios. As situações inacabadas são enredos de vida que não desaparecem até serem fechados e insistem em aparecer de todas as formas: insónias, sonhos agitados, angústia ao acordar, humores alterados. E também, ou sempre, acompanhados por outros incómodos: dor de cabeça, enxaqueca, torcicolo, distúrbios gástricos/intestinais, palpitações, ataques de pânico, etc.
O que pode ajudar?
Tal como no jogo, a peça que está em queda, é o que está acontecer, é a experiência que tem de ser vivida.
Tal como no jogo, o que ajuda é, por um momento, distanciarmo-nos e ter uma visão global do que está a acontecer, entender o momento da vida que estamos a viver, o aqui e o agora. Reconhecer os recursos disponíveis, internos e externos. Aceitar que não é possível alterar, quer o passado, quer a sequência de eventos. Contudo, segundo Boadella (1992) é possível flexibilizar a rigidez instalada e recuperar a graciosidade e harmonia que se foi perdendo desde a concepção, ao longo da vida. Os desenvolvimentos científicos da Epigenética e os estudos neurológicos por diversos cientistas vêm confirmar e apoiar que mudanças de comportamentos e atitudes são testemunhadas e provam que é possível um novo estado. Olhar o presente com esta perspetiva é, já por si, criar uma nova posição face ao que está a acontecer, com mais possibilidades.
Tal como o jogo, a melhor solução surge da análise global do momento presente em vez do impulso automático de luta-fuga ou congelamento (Levine, 2012). É importante valorizar o que se economiza em energia, ao identificar as emoções e ao não cristalizar em estados de negação, resistência, culpa, raiva, etc.
Procurar ajuda na relação terapêutica e olhar para dentro de si, com a compaixão e empreender o viver com a responsabilidade do seu desenvolvimento. Cuidar com o olhar amoroso e permitir-se incluir as defesas e as feridas e integrar para alcançar um novo estado (Boadella, 1992). Proporcionar que o corpo conte a sua história e ao elaborar os movimentos interrompidos seja possível libertar a memória contida nos músculos, ossos, fáscia e tecidos fisiológicos (Levine, 2012). Educar e aprender habilidades que criam mais espaço e permitam afrouxar os laços apertados das reacções e padrões conhecidos. Renegociar os eventos traumáticos fixados no sistema nervoso, na fisionomia e na forma de pensar para que os assuntos pendentes sejam dissolvidos e haja maior espaço para um viver com autonomia e liberdade.
Mais do que alcançar um estado nirvana, o que parece importar é dar valor ao processo de experienciar a vida a partir de um novo lugar com mais conexão e consciência que leva à acção e à sua evolução.

Referências
o    Boadella, D. (1992). Correntes da Vida. Editorial Summus.
o    Levine, P. (2012). Uma voz sem palavras. Editorial Summus.
o    Perls, P. (2004). Gestalt Terapia. Editorial Summus.
o    https://pt.wikihow.com/Jogar-Tetris

Escrito por: 
Teresa Paula Madeira 
Psicóloga Social e das Organizações pelo ISPA
Psicoterapeuta Somática em Biossíntese 
SEP Somatic Experience - tratamento do trauma
Professora Assistente CPSB
Formadora Técnicas Terapêuticas -Toque e Massagem

Contato: 938457500 teresapmadeira@sapo.pt

11 de novembro de 2017

Momentos escolhidos

Há momentos cujo impacto é de uma intensidade tal que muda o rumo da nossa existência. Podem ser eventos dramáticos, como por exemplo um acidente ou uma doença, mas também uma simples frase ouvida, um olhar trocado, um gesto sentido. Há momentos que mudam a nossa vida para sempre, desviam-nos da direção prevista. Momentos destes estão sempre a acontecer, mas há alturas em que decidimos prestar-lhes atenção e colocarmos em questão o caminho que estávamos a percorrer.  

Qualquer que seja o momento, bom ou mau, alegre ou triste, é uma porta que, quando conscientemente aberta, nos permite aprofundar quem somos. São momentos que nos levam a elaborar perguntas sobre as nossas opções e se essas têm sido um reflexo do que desejamos, livres de condicionamentos e medos. Tudo o que nos acontece são oportunidades para pormos em causa os nossos pensamentos, sentimentos e atitudes. Será que são serenos, coerentes com a nossa essência mais íntima, ou será que são fruto de padrões de comportamento e defesas que carregamos às costas? E será que estaremos conscientemente presentes para reconhecer essa porta a abrir-se ou estará a nossa mente tão cheia de distrações que nem os vemos?

Para vermos essa abertura precisamos de escutar. E para escutar precisamos de parar, de entrar em silêncio, de contactar o nosso sentir e distinguir o que é nosso e o que nos foi colado de fora. Uma vida autêntica implica sentirmos a nossa essência para a conseguirmos exprimir no mundo, num movimento de exploração interior, de descoberta do que andamos aqui a fazer, para onde queremos ir, do que queremos aprender, conquistar e expressar. Pessoas para quem a vida é apenas uma sucessão de momentos do nascimento até à morte, cujo propósito não lhes toca, são pessoas que passam pela superfície das águas sem mergulhar. Não ficam molhadas, mas também não conhecem a beleza que se esconde nas profundezas do mar, não conhecem a sensação de sentirem o corpo em contacto com a água…

Pessoas atentas deparam-se constantemente com momentos de abertura à mudança. A atenção é o contrário de distração. É o contacto consigo próprias. É reconhecer o que sentimos perante os estímulos exteriores. E quando andamos distraídos não sentimos. Distraímo-nos para nos abstrairmos, porque é cansativo estar atento à vida. É cansativo olharmos para nós, ficarmos no sentir, questionarmos as escolhas que fazemos, assumirmos a liberdade de alterar tudo a qualquer momento. Preferimos não pensar, não sentir, não sofrer, não nos molhar… e vamos vivendo, ou melhor, sobrevivendo, sempre sequinhos! Aceitar entrar no desconhecido assusta, mete medo, cria-nos insegurança. É melhor não... É melhor optarmos pelo seguro, pelo que nos é familiar e já conhecemos, pois assim sabemos com o que contamos. Como se a vida fosse uma escolha entre certezas e incertezas… como se a vida pudesse ficar imutável se escolhermos o conhecido. Resistimos. Resistimos. Resistimos. Quem não resiste entrega-se à batalha. Só os grandes guerreiros se disponibilizam às grandes batalhas. Batalhas que transformam a vida. Batalhas onde nada se perde, a não ser o que já não nos serve e não é útil ao nosso propósito de vida.

Entrar numa batalha para ganhar traduz-se em perder logo à partida. O objetivo deste tipo de batalhas, ou desafios, não são a vitória sobre um inimigo, mas sim um enriquecimento, uma transformação, no contacto com os outros, que não são nossos inimigos, mas sim ferramentas para conseguirmos concretizar as nossas aprendizagens, sendo que aprender e crescer implica superar obstáculos que tendemos a ver como externos, mas que, na verdade, são apenas internos. Já só reconhecê-los é difícil, implica atenção e perseverança num trabalho de olhar para si próprio, o que nem todos estão dispostos a fazer.

 A condição sine qua non para que os desafios nos enriqueçam – sejam eles arriscar investir no que se gosta de fazer, ir numa viagem, entrar numa nova relação, o que for! –, é estarmos disponíveis a sermos afetados. Ser afetado no sentido de estar interiormente aberto para que determinado momento nos possa provocar uma mudança. Ser afetado na sequência de um fluxo de movimentos pautados pelo afeto, pelo sentimento. Entregar-se ao momento, deixar que ele nos afete, acolher sem resistências a entrada das águas em cada poro da nossa pele para que sintamos a intensidade da vida, no que ela tem de transformador, é só para quem tem a grande vontade de valorizar e honrar a própria existência. Quando nos abrimos aos momentos e nos deixamos afetar – com afeto – é sempre uma oportunidade para que o desconhecido passe a conhecido. Mas até que ponto nos queremos conhecer? Na mesma exata medida em que nos permitimos ser afetados pelos momentos que passam por nós. Ou os apanhamos e corremos o risco de uma caminhada cada vez mais feliz, ou os deixamos ir, na ilusória certeza de que a nossa vida continuará a mesma de sempre.

Ter a disponibilidade para nos entregarmos a momentos que nos fazem pôr em causa a nossa visão do mundo abre-nos para uma vida mais estimulante e significativa. Momentos que questionam o nosso sentir. Momentos que alteram a nossa caminhada no trilho da vida. Momentos que se tornam marcos no nosso percurso. Momentos escolhidos.

Rossana Appolloni
www.rossana-appolloni.pt

Foto: Bernardo Conde

www.bernardoconde.com

17 de outubro de 2017

A melhor fase da nossa vida!

A melhor fase da nossa vida tem de ser aquela onde nos encontramos. O desafio é precisamente esse. Pensei neste tema enquanto olhava para o meu filho e pensava: é a melhor fase da vida dele. Ponderei vários motivos, entre eles a despreocupação de um menino de 3 anos, com a vida pela frente. Mas depois pensei: ainda assim, tem tantos desafios… Sim, se calhar a melhor fase é depois da adolescência, quando entramos na vida adulta, começamos a trabalhar e sentimos que vamos na direção de algo, que somos capazes! Depois pensei em mim: a imaturidade emocional era grande. Havia um grande sentido de responsabilidade, de ética e de funcionamento, mas a nível emocional ainda existia um mar para navegar.

Fiquei então na bruma. E ao refletir um pouco concluí algo que pode ser um cliché, mas que é algo que podemos desejar e procurar encontrar: a melhor fase da nossa vida tem de ser aquela onde nos encontramos. O desprendimento temporal a tempos antigos da nossa vida, leva-nos a acreditar, de uma forma algo ingénua, que lá para trás fomos muito felizes, apesar dos percalços. O negativo fica esbaforido na contagem do tempo ou, deturpadamente, fica numa forma ilusória como algo “que não foi tão mau assim”. A par disto, as coisas boas crescem, valorizam-se e, quais portugueses saudosos, olhamos para os eventos do nosso passado como os “melhores”, os mais “preenchidos”, os mais “felizes”.
Mas podem ser apenas ilusões. O desafio maior que temos nas nossas vidas não é sermos felizes, é estarmos na melhor fase das nossas vidas, precisamente no momento em que nos encontramos, com tudo o que isso traz. Sejam encontros ou desencontros. Pode parecer ilógico de algum ponto de vista, pois o ser humano não quer sofrer, mas na realidade, o passado não existe e o futuro ainda não se fez. Residem dentro de nós e podem ter um poder abissal e descontrolado. A grande aprendizagem é estar presente no momento em que nos situamos, conectados, aceitando o que surge. Essa aprendizagem é a vida!
Texto de Ana Caeiro, Psicoterapeuta Corporal em Biossíntese
psicorporal.bio@gmail.com
http://psicoterapiacorporal.pt/
Foto de Ruslan Zh em Unsplash

11 de outubro de 2017

A música em contexto terapêutico

A música é uma linguagem universal. Em todas as épocas e culturas teve e continua a ter um papel importante. De acordo com vários autores, a espécie humana é, por natureza, produtora e recetora de sons. No desenvolvimento psico evolutivo os estímulos sonoro musicais influenciam e contribuem para a consolidação da personalidade e na definição da identidade (Sabbatella, 2002).

Fazem parte dessa Identidade Sonoro Musical as seguintes componentes (Sabbatella, 2002):
  • Sons corporais internos: ritmo cardíaco, ruídos dos intestinos, fricção das articulações...
  • Sons corporais externos: caminhar, respiração, sons involuntários...
  • Características da voz falada e cantada: registo, intensidade, timbre...
  • Musicalidade da linguagem (elementos sonoro-musicais da linguagem verbal): inflexões e variações da forma rítmica e melódica da fala, velocidade e expressividade verbal, expressões onomatopeicas utilizadas para acompanhar a expressão verbal, forma particular de gritar, rir, chorar...
  • Ambiente sonoro-musical cultural: músicas tradicionais, música popular, contaminação sonora...
  • Ambiente sonoro-musical familiar: formação musical dos pais, ambiente de estímulo sonoros e de atividades musicais...
  • Gostos e preferências sonoro-musicais individuais: sons agradáveis/ desagradáveis, estilo musical preferido...
  • Aptidão e capacidade musical individual

As características sonoro-musicais que definem o indivíduo e formam a sua identidade desenvolvem-se desde o ventre materno e organizam-se a partir de uma série de elementos que evoluem no tempo dentro de um determinado ambiente socio-cultural e familiar.

A música converte-se assim numa ferramenta que permite à criança (e posteriormente ao adolescente e adulto), adquirir a noção de gosto e preferência musical e diferenciar-se dos pais e dos pares através desta identidade sonora individual. Nesse sentido, a experiência musical contribui para o reconhecimento, diferenciação e identificação pessoal e para a definição de identidade.

Participar em atividades musicais e desenvolver habilidades musicais específicas pode proporcionar um ambiente propício para participar em experiências de êxito, obtendo benefícios físicos, emocionais, cognitivos e sociais.


Resposta a estímulos sonoros

A literatura reconhece que, apesar de haver características comuns, as respostas à música são individuais; as condições socioculturais e a história pessoal modificam a perceção e as respostas à música: perante um mesmo estímulo musical os sujeitos podem responder de forma diferente devido às influências de fatores como a formação musical, os gostos e as preferências musicais, a predisposição do indivíduo em receber o estímulo sonoro, a situação (se espera ou não o estímulo), a presença ou não de uma patologia neurológica ou psiquiátrica (Sabbatella, 2002).

A música, como uma das Belas Artes, possui qualidades psicológicas e terapêuticas inerentes à própria arte (Poch Blasco, 2002):
1. Poder de sugestão e fantasia.
2. Poder de projeção.
3. Relação arte-sonho.
4. Realização imaginária de desejos inconscientes.
5. Tentativa de síntese ou de condensação.
6. Tentativa de solução.
7. Função catártica.
8. Capacidade libertadora.
9. Função de comunicação.
10. Tipo de linguagem.
11. Processo de exploração.
12. Fenómeno social de pergunta e resposta.
13. Medicina preventiva.

A música tem vários efeitos e qualidades: efeitos bioquímicos, efeitos fisiológicos, respostas musculares e motoras, respostas cerebrais, efeitos psicológicos, efeitos sociais e efeitos espirituais. De acordo com as características musicais específicas, as respostas dos indivíduos à música que mais se analisam são:
  • Respostas fisiológicas: frequência do ritmo cardíaco, frequência respiratória, respostas galvânicas da pele, sudoração, tensão muscular, secreção hormonal, secreção gástrica, etc.
  • Respostas neurológicas: excitação das diferentes áreas do córtex cerebral, do sistema límbico, cerebelo, sistema nervoso autónomo, etc.
  • Respostas psico-emocionais: atenção, motivação, memória, participação em atividades, grau de comunicação, etc.

A música em terapia

A música é o meio ideal para descobrir quem é o cliente e como se expressa no mundo, no que se refere à criação e à própria manutenção da identidade, uma vez se torna não só um meio de diagnosticar os problemas do cliente, mas também uma forma a partir da qual o cliente expressa as suas necessidades e a sua problemática convertendo-se num meio de expressão psicopatológica.

Um som, uma música, uma canção podem produzir, tanto respostas motoras, como emotivas, como orgânicas, como de comportamento que comunicam (Sakai et al., 2004).

Para Bruscia (2000) através da música transformamos “as nossas sensações corporais internas, os nossos movimentos, sentimentos e ideias em formas sonoras que podem ser ouvidas”. A música “permite expressar os nossos corpos através do som – vibrar e fazer soar as suas várias partes de forma a poderem ser ouvidas. Quando cantamos ou tocamos instrumentos, libertamos a nossa energia interna para o mundo externo fazendo o nosso corpo soar, dando forma a nossos impulsos, vocalizando o não dizível”.


 “A possibilidade de comunicar sem usar a palavra,
abre todo um campo que permite estabelecer novos vínculos.”
Rolando Benenzon

Texto de Catarina Lourenço de Carvalho
Site: http://musicterapiacorporal.wixsite.com/musicoterapia

Referências
Ansdell, G. (2000). Music for Life. Aspects of Creative Music Therapy with Adult Clients. London: Jessica Kingsley Publishers.

Benenzon , R. (1991). Teoría de la musicoterapia. Bilbao: Mandala.

Bruscia, K. (2000). Definindo Musicoterapia. Rio de Janeiro: Enelivros (2ª ed.).

Bruscia, K. (2006). Case studies in Music Therapy. Gilsum: Barcelona Publishers.

Poch Blasco, S. (2002). Introducción a la Musicoterapia. In Musicoterapia 2002. Programa de Formación para Mediadores en Musicoterapia. Libro de Ponencias. Madrid: Confederación ASPACE, FEISD y Confederación Autismo España.

Sabbatella, P. (2002). Musicoterapia y Parálisis Cerebral. En Musicoterapia 2002. Programa de Formación para Mediadores en Musicoterapia. Libro de Ponencias. Madrid: Confederación ASPACE, FEISD y Confederación Autismo España.

Sakai, F. A., Lorenzzetti, C & Zanchetta, C. (2004) Musicoterapia corporal. In: Convenção Brasil Latino América, Congresso Brasileiro e Encontro Paranaense de Psicoterapia Corporais. Foz do Iguaçu. Centro Reichiano, 2004. CD-ROM. [ISBN - 85-87691-12-0]