8 de junho de 2016

Regresso a Casa

Bem lá no fundo de cada um de nós chora um órfão desamparado. Chora por ter tocado o divino e o ter perdido, ou pior ainda, por o ter esquecido. Nadámos no oceano das nossas Mães e sentimos emoções puras. Fomos Deuses a viver um amor cósmico sem fronteiras de espaço ou tempo. Viemos de um mundo de sonho e sensação, até nos precipitarmos da graça para a gravidade. Foi a nossa primeira morte. O trauma da experiencia vive ainda hoje nas nossas células como eco do nosso Big Bang. Literalmente, parir, vem do latim parere, que significa: dar à luz.

A forma como cuidamos deste trauma dita em grande medida a qualidade da nossa existência. Na nossa cultura, varremos para debaixo do tapete aquela cujo nome não ousamos pronunciar na esperança que ela se esqueça de nós. Depositámos numa figura maléfica todas as qualidades que consideramos contrárias à vida, como se a morte fosse exterior ao plano da vida.

No entanto, quando passamos algum tempo na Natureza e a contemplamos com o olhar certo, vimos todo o espectro da existência: o espetáculo da renovação, degradação, morte e renascimento. Numa palavra: impermanência. Um ciclo que existe em todas as coisas, incluindo no nosso corpo. A cada sete a dez anos a quase totalidade dos átomos do nosso corpo são trocados por átomos “novos”. A cada mês temos uma nova pele e a cada três dias um novo revestimento gástrico. Portanto, mais coisa menos coisa, a cada década passamos literalmente por uma reencarnação. Por todo o nosso corpo, a cada instante, há morte e renascimento. Somos um microcosmos de um macrocosmos.

Não será que o acolher e honrar o nosso fim, possa ser algo diferente dessa separação entre vida e morte; homem e natureza?

Os grandes mestres da Humanidade intuíram essa possibilidade de pacificar a morte em nós, através de uma vida integra, alinhada com os nossos valores nucleares, com intenções responsáveis e compassivas, deixando a marca não em pedra, mas nos corações de quem tocámos e inspirámos. O que criarmos apenas para nós próprios morre connosco, o que fizermos ao serviço da Vida perdura.

A senda de encontrarmos a nossa essência e de estarmos ao serviço da Vida pode ser uma história linda de amor, se assim o quisermos, mas só através da coragem e da sabedoria conseguiremos dizer não aos atalhos. Nunca é demais relembrar, que somos seres que se engrandecem e nutrem na qualidade e não na quantidade, na verdade e não no logro.

Como propõem várias tradições espirituais, há que morrer antes de morrer. Este paradoxo desafia-nos a uma entrega voluntária, um acto de abrir mão de expectativas e certezas acerca da realidade, acerca do que somos, acerca do que achamos que temos que ser. É uma rendição incondicional ao facto de que não existe terreno firme, nem guião para a vida, só o coração como bússola. Não é uma atitude passiva e derrotista, mas um olhar confiante sobre o desenrolar do caminho, não soprando contra o vento, antes bebendo cada momento pelo milagre que é. Um olhar que compreende a transitoriedade desta passagem sem se lhe opor, estando preparado para morrer a cada instante e assim vivendo cada instante com uma intensidade serena. Ser o bambu cujas raízes se agarram com força, mas erguer os braços e vergá-los aos ventos mais fortes, mediando terra e céu. Saborear o doce, e o amargo, e todos os sabores do cardápio da vida, com curiosidade, com abertura. Compreender que o amargo pode ser o doce provado com palato ainda não refinado. E se o amargo nos fizer revirar o estômago e contorcer de dor, talvez daí venha o espaço que faltava para podermos apreciar novas iguarias.

Na medida em que aceitamos a “sombra” da vida, assim também a experiência de estar vivo se aprofunda, não havendo nada a excluir. Daí, ocorre um realinhamento natural entre desejos fugazes e propósitos existenciais. Tudo o que é acessório à nossa trajectória ou dela nos desvia, mais facilmente será posto de parte.

Quando estivermos perto do momento da morte, a paz no coração é a medida para aferir a nobreza de uma vida. Esta trégua conquista-se numa intimidade amorosa com tudo o que vivemos, fazendo sentido da nossa história de alegrias e misérias, perdas e conquistas. Esta existência nunca foi uma corrida, não há prémios por chegar primeiro ou acumular mais. Vamos todos cruzar a meta que é um buraco de agulha, e nesse buraco, só o fio do Amor passa.

A vida não é um escoadouro onde há que esbracejar teimosamente numa luta heróica, carregando em frente sem saber para onde. A haver luta - que haverá certamente se seguirmos a sabedoria do coração - não é com a morte, nem com a vida, mas com tudo o que se lhes oponha. Ou como dizia o Rumi, poeta Persa do séc. XIII: “A nossa tarefa não é buscar o Amor, mas apenas procurar e desfazer todas as barreiras que fomos erguendo no nosso coração para o deter.

Do mesmo modo que viemos ao mundo num movimento de agarrar a vida, assim devemos aceitar a ideia de a ir largando gradualmente. Há uma grande diferença entre renunciar a algo de forma pacífica, e, agarrar cegamente até sufocar o que estamos a agarrar. A diferença mede-se no sofrimento da nossa existência.

Perante a angústia do desconhecido, cabe-nos confiar numa sabedoria por trás de tudo o que existe. O Universo já anda nisto há uns tempos e continuará muito depois de termos cumprido o nosso papel individual. Desconfio que o que realmente somos, esteja algo para lá da nossa compreensão, no entanto, existe em nós a possibilidade de vivenciar um silêncio e uma paz onde intuir a verdade.

A vida não é uma resposta, é antes uma eterna pergunta, e, é no silêncio de nós mesmos, ali onde o coração serena, que a pergunta perde o sentido de interrogação.

Ensinaram-me desde pequeno que a esperança média de vida é de cerca de 80 anos, portanto, há uns anos atrás, quando o meu Pai morreu aos 59, senti-me enganado e injustiçado. Quando se perde um Pai ou uma Mãe, é inevitável sentirmos que estamos na linha da frente para a próxima leva.

Depois da perda do meu Pai comecei a olhar mais para o meu sentido de vida. Passei a focar-me mais, no quanto me sinto grato porque o melhor dele vive ainda em mim. Abriu-se o caminho largo do abrir mão de ressentimentos, e, do perdoar, a ele e acima de tudo a mim. É o caminho que continuo ainda a percorrer. Na verdade, o perdoar, não é outra coisa senão o acolher a vida tal como é neste instante, fruto de todos os instantes que o antecederam, e, abrir mão da esperança de um passado melhor. O que nos define como pessoas não são as escolhas dos nossos pais, nem os momentos em que eles ficaram aquém do que precisávamos. Tenho vindo a descobrir com serenidade e paz como tanto do meu Pai perdura ainda em mim. Nas palavras, no jeito de falar, no jeito de olhar, na curiosidade e em tantas outras coisas. Um dia vinha no elevador e ao ver no espelho o meu sorriso devolvido, pareceu-me reconhecer uma expressão familiar. Reparei como o meu olho esquerdo se fecha um nadinha mais do que o direito quando sorrio. Fui a correr para confirmar em fotos de família o que o coração já sabia. Era de facto o olhar do meu Pai. Ele tinha levado uma pedrada no olho esquerdo quando era criança e ficou quase sem visão desse lado. Por algum motivo assumi inconscientemente a mesma expressão no olhar. Talvez para me sentir mais próximo dele.

Li algures, que o destino de um homem só se cumpre por completo, quando toda a memória da sua passagem pela existência se tiver apagado. Quando todas as pessoas que nos conheceram ou ouviram falar de nós tiverem morrido, quando todos os objectos, registos e fotos tiverem sumido, como pegadas deixadas na areia ao vento, aí sim, o nosso propósito terá sido cumprido de verdade. Atrevo-me a acrescentar, que talvez o último reduto de oposição a esta impermanência seja o Amor que pusermos no mundo. Quando o vento apagar o nosso rasto, a magia da vida que arde de coração em coração como chamas a passar de velas para velas, essa continuará, ainda que sem o nosso nome ou o nosso rosto.

A minha história e a do meu Pai estarão para sempre entrelaçadas até cumprirmos o nosso destino, e, depois, quem sabe? Algo me diz que nos reencontraremos no caminho de regresso a Casa.

Texto de Filipe Raposo - Alma 13
Aluno do Curso de Pós-Graduação em Biossíntese

Fotografia de Will van Wingerden (https://unsplash.com/photos/cZVthlrnlnQ)