7 de setembro de 2016

"Como ajudar os pais a ajudar os filhos na escola"

Entrevista no Suplemento de Educação do Jornal i de 29 de Julho de 2015



Por Patrícia Querido, Psicóloga Especialista em Educação e Psicoterapeuta, atende crianças e jovens em consultório privado há mais de 10 anos. Diretora do Departamento Biossíntese Crianças e Jovens do Centro Psicoterapia Somática em Biossíntese em Lisboa.

Para crianças dos 7 aos 12 anos
1. O meu filho nunca estuda por vontade própria? Como ajudá-lo a sentir que aprender não é uma obrigação?
O estudo requer motivação (conjunto de forças que impelem um individuo a agir) e muita força de vontade por parte da criança. A motivação é o motor da autonomia. Não se impõe, mas pode ser alimentada e cultivada em casa. Mas aprender já é um movimento natural do ser humano. Se a criança não sente que aprende ou que não se “diverte” de uma forma séria, o estudo só serve como obrigação. Tentar perceber se o que está a estudar lhe faz sentido, tentar perceber o que o desmotiva de aprender. Falar calmamente com a criança, sem culpabilizar ou repreender. Perceber o que está a ser difícil de gostar. Conversar com o seu filho é uma das formas mais certeiras de perceber isso.

2. As notas do meu filho não melhoraram apesar das várias conversas. Devo ser mais autoritária? Os castigos são eficazes ou contraproducentes?
Isso depende da criança em si, do seu lado emocional e se inclusive a criança tem ou não dificuldades na aprendizagem que prejudiquem na compreensão das matérias dadas. Os limites dados às crianças têm muita relação com as regras de cada família e com os limites individuais de cada pai. Existem crianças que necessitam de regras ou limites muito bem colocados ao nível do estudo e há outras que não precisam tanto dessas regras, pois com um pouco de reforço e motivação conseguem organizar-se. Os castigos ou melhor as consequências têm de ser muito bem aplicados, pois o tempo para as crianças é diferente do tempo dos adultos. O que foi feito de muito mal na semana passada, para a criança já passou e o adulto continua a “ferver”. Emocionalmente as crianças são mais “instantâneas”.

3. A matemática é o único problema dele. O que fazer?
Existem crianças que têm pouca aptidão para a Matemática, mas podem ter aptidão para as línguas, para a geografia e história, para o desenho, para o desporto, entre outras. É certo e sabido que a Matemática no currículo escolar acompanha a criança até ao 9º no mínimo e por isso é bom ter bons hábitos de estudo, de treino e não deixar passar o “comboio da matemática”, pois fica mais difícil correr atrás para o apanhar. Deve-se exigir que cumpram a disciplina o mais positiva possível, pois a matemática serve também para organizar o pensamento e não só para fazer contas.

4. Como saber que estou a ser demasiado controladora?
Depende da idade, do temperamento e personalidade das crianças e claro da personalidade dos pais. Existem pais extremamente controladores, que sufocam os filhos com responsabilidades, atividades e exigências, quase que se esquecem que os outros são crianças, mais pequenas, mais frágeis emocionalmente e simplesmente capazes de responder segundo a sua idade cronológica e também a sua idade emocional. Existem pais que não são de todo controladores, pais que deixam os seus filhos fazerem tudo o que querem, que deixam os filhos “meterem-se” em assuntos de adultos, quase anulando a necessidade de colocação de limites que a criança precisa.
Aqui coloca-se um dos dilemas dos pais: Devo ou não agir assim? Controlo ou deixo que aconteça?
O bom senso deve prevalecer sempre, mas devemos também olhar para as crianças que temos connosco. Existem crianças que necessitam de muitos limites, pois são “destravadas” naturalmente, existem crianças que não necessitam de tantos limites, tanto controlo, pois são crianças “responsáveis” e confiáveis para os adultos, às vezes até crescidas demais para a sua idade cronológica.
Controladores ou não, os pais devem olhar pelo direito da criança estar em segurança e pelo direito da criança explorar o que a rodeia sem a limitar ao ponto da criança ter medo. E isso é estar atento à sua criança e às suas dificuldades enquanto pais e adultos em lidar com os limites.

5. Quais os comportamentos e atitudes a evitar quando estou a ajudá-lo nos TPC?
Os trabalhos de casa existem para que se exercitem as competências adquiridas durante o dia ou semana que passou, quanto as aulas servem para memorizar e consolidar novos conhecimentos. Existe no desenvolvimento da criança o princípio fundamental: toda a nova aquisição deve ser exercitada de forma concreta para poder ser conservada. E não se deve confundir exercício com aprendizagem. Os pais devem apoiar e orientar a criança no exercício das suas novas competências e não ensinar-lhas. A criança só precisa de um professor. Quando os pais se colocam no papel de professor, a criança pode ficar um pouco confusa, pois os pais não usam as mesmas estratégias que o professor usa. Podem desencadear stress na criança e levar ao aparecimento de expectativas (externas e internas) que a criança não sabe lidar.
Evitar que os pais se responsabilizem totalmente pelos trabalhos de casa dos seus filhos, evitar dar exemplos contrários ao que dizem ser importante (pai que diz ao filho que ler é importante, mas o filho nunca viu o pai a ler um livro e muito menos a gostar de ler), evitar deixar de fazer as suas tarefas em casa para estar constantemente ao lado do seu filho até os trabalhos de casa estarem feitos (deve promover a autonomia no estudo, e isso acontece aos poucos tendo em conta a idade da criança), evitar “negociar” horários ou privilégios em função dos trabalhos de casa (os trabalhos de casa fazem parte das tarefas da criança, tal e qual como o adulto tem tarefas quando chega a casa depois do trabalho) por isso, os pais têm a responsabilidade de assegurar à criança tempo e espaço suficientes para os seus tpc. Evitar desrespeitar o ritmo de aprendizagem da criança (cada criança tem o seu próprio ritmo, e nos dias de hoje o ritmo de aprendizagem da própria escola é bem rápido).

6. Já não me lembro nada da matéria que o meu filho está agora a estudar? Devo dizer que não sei? Voltar a estudar para ajudá-lo? Ou isso é competência do professor?
Como referi na resposta anterior, ensinar é tarefa do professor, aos pais cabe a responsabilidade de apoiar e encorajar a criança em assumir as suas responsabilidades na escola, para que ela tenha consciência das suas decisões ao longo do tempo de estudante, que é bem longo.
Sem dúvida que existem matérias atuais muito diferentes das matérias que os pais tiveram no seu tempo. São diferentes na forma como são lecionadas, ensinadas, são diferentes pois são mais complexas e até há matérias que são aprendidas hoje antes do tempo de aprendizagem dos pais (existe matéria dada hoje no 3º ano que foi dada no 5º ou 6º dos pais). Acompanhar o estudo não é ensinar e muito menos ir aprender para ensinar, é simplesmente estar presente e perceber as reais dificuldades emocionais e também de aprendizagem, e quando os pais veem que “areia demais para o seu camião” devem pedir ajuda ao professor, a professores explicadores e até a psicólogos da educação que façam apoio psicopedagógico.

7. Qual o segredo para não errar pelo excesso de zelo nem pela falta de atenção?
Este é um dos grandes dilemas da educação, “estou a invadir ou estou a privar?” É difícil lidar com estas polaridades, mas está relacionado com o tipo de criança que temos e o tipo de adulto que somos. O segredo está na relação com a criança, no diálogo com a criança e principalmente ouvir o que ela tem para dizer, ouvir com os ouvidos e com todos os outros sentidos, pois as crianças dialogam também com o corpo. As crianças quando são invadidas ou privadas de algo ou de alguém, seja pontualmente ou continuadamente, falam, choram, gritam, ficam em silêncio, adoecem… Esteja atento à sua criança.

8. Até que ponto devem os pais dar importância às queixas que os filhos fazem do professor?
A relação entre o professor e a criança é extremamente importante e complexa no desempenho da aprendizagem da criança. Quase todas as pessoas se lembram da sua professora “primária” e isso acontece porque traz à memória também algo emocional. O professor é um dos adultos, se não o adulto, de maior referência depois dos pais. As crianças aprendem por imitação de modelos e aprendem quando a relação emocional funciona.
Se a criança traz queixas, algo pode ter-se passado. Nada de grave, muitas vezes, mas para o “pequeno” mundo da criança pode ser muito. Os pais, ou um dos pais deve ouvir a criança na sua “queixa” e tentar perceber a gravidade da situação. E se realmente for necessário falar com o professor (mas isto se realmente for necessário). Isto porque no tempo de aula, que são muitas horas, acontece muita coisa, relação com a professora, relação com os colegas e amigos, estar atento na sala de aula, os intervalos e saber gerir o que brincar, com quem brincar, as tarefas… é bastante para uma criança gerir. É o mundo dela, os pais devem “treinar” as suas crianças para que “sobrevivam” no seu mundo. Isso com muito diálogo, paciência e dedicação.
Observe o seu filho, se houver alguma alteração de humor ou comportamento, como tristeza, agressividade, queixa de dores de barriga e se esses comportamentos acontecem também ao fim de semana. Não tire conclusões precipitadas e prematuras, ajude a criança a indicar as suas dificuldades e a evitar juízos precipitados (os conflitos fazem parte da vida), ajude a criança a encontrar os meios para serenar o conflito. Os pais devem confiar nos filhos. Se o conflito persistir aí sim devem contactar o professor, numa conversa de adultos sem a criança e perceber o que se passa na escola que influência a família e o ambiente da casa.

9. No caso de o aluno ter irmãos, é saudável comparar os desempenhos escolares entre eles?
Cada filho é único e o tempo de escola e de aprendizagem de cada um também, logo os resultados escolares vão ser diferentes, mesmo que sejam muito parecidos. A competição escolar entre os irmãos deve ser feita com muito cuidado pois pode afetar emocionalmente algum deles. A competição é inevitável e pode não ser prejudicial desde que não seja sempre contra a mesma criança. Se a competição for estimulada pelas comparações dos adultos, as expectativas da criança podem levar a profecias que se cumprem a si próprias e a padrões de comportamento destrutivos. Como são diferentes, de certeza que haverá áreas onde um é melhor que outros e vice-versa e até pode haver áreas em que sejam todos bons e áreas em sejam todos menos bons. Na família deve ser cultivada a cooperação, para que se possa colher o melhor de cada um e respeitar as diferenças.

10. Há uma idade certa para se ter um telemóvel? E, nesta fase, essa idade já chegou?
Há uns anos ter um telemóvel era algo dos adultos, nos dias de hoje um telemóvel é um “brinquedo” sofisticado que todos usamos e as crianças especialmente. Isso depende da criança, da família e das regras que se colocam no uso desse telemóvel. Já se sabe hoje através de alguns estudos, que o uso de telemóveis ou outros “gadgets” eletrónicos por crianças influencia a sua atenção, a sua aprendizagem e que quanto mais cedo as crianças os usarem mais “alienadas” do mundo real ficam. É preciso ter bom senso no uso. Quanto mais tarde o seu uso, melhor.


Sugestões de Leitura:
“Orientar o meu filho na sua vida escolar” de Germain Duclos da Climepsi Editores.
“No regresso das aulas… O lugar dos pais na aprendizagem escolar de Marie-Claude Béliveau da Climepsi Editores.