24 de fevereiro de 2016

Os Movimentos do Coração*

Era uma vez uma menina muito pequenina com uns olhos muito grandes.

Quase tão grandes como o seu coração.
Ele palpitava tão vibrante que ameaçava saltar-lhe pelo peito.

Os batimentos amplificavam-se pelo corpo aumentando a sua energia que se traduzia numa sede de aprender, de dar e de receber.

Procurava amor em todos os lados. Mas ele não chegava na medida das suas necessidades.
E o coração começou a ficar frio, a deprimir.

O corpo encolheu-se zangado e os olhos apequenaram-se turvados pelas lágrimas.

O mundo tinha que saber que estava triste. Mas por mais que gritasse a sua voz não era ouvida.

Quando a garganta já doía demasiado, os olhos estavam inchados e o corpo encolhido a pequena criança começou a engolir em seco.

Não adiantava comunicar com um mundo que não a escutava.

O choro começou a ficar encarcerado nas suas entranhas, as lágrimas escorregaram dos olhos para o coração, e este tão frio fez a água solidificar.

Os anos foram adensando as camadas de gelo que ocultavam o coração.

Às vezes, uma alegria, uma palavra terna ou um carinho, até conseguiam derreter uma ponta do iceberg.

Mas era necessário um degelo!

Este não acontecia e a menina também tinha medo das consequências dessa turbulência. A água poderia inundar o corpo e este podia afogar-se em mágoas, solidão e tristeza.

A menina cresceu. Tornou-se uma adulta que sentia, mas que nunca chorava, que amava com a cabeça mas não com o coração.

E aquela mulher sentia-se tão triste quando via histórias de amor. Amor entre pais, amor entre filhos, amor entre casais, amor entre desconhecidos.

Também ela queria sentir amores arrebatadores, alegrias dívidas e até tristezas sentidas. Mas o seu coração continuava congelado.

Usou aquecedores, mantas, sacos de água quente, pôs-se ao sol horas a fio. Mas o coração permanecia enfermo, preso num frio impenetrável.

Um dia aquela mulher com coração de menina sofreu um grande choque.

Tão grande que o seu corpo abanou de uma extremidade à outra.

E o coração engessado sentiu um estrondo enorme. Soltaram-se as amarras.

A pedra de gelo que o envolvia quebrou-se em mil estilhaços. Foi uma revolução.

Saiu tudo do lugar, e quase tudo deixou de fazer sentido.

Agora havia urgência de encontrar novas verdades, novos caminhos.

Então o coração foi apresentado à Esperança. E ela incentivou aquele músculo a tornar-se mais forte, mais atlético.

O coração experimentou a Confiança e começou a bater com mais vigor, a ficar mais quente.

Os resquícios de gelo colados à pele começaram a derreter. Já não havia espaço para eles habitarem ali.

A mulher voltou a ser menina, com um coração descompassado e palpitante a tal ponto que  não sabia o que fazer com ele.

Voltou a sorrir, voltou a chorar e voltou a sentir.

Era intenso, imprevisível, avassalador.

Não era fácil ir da alegria à tristeza numa montanha russa que turvava a visão, confundia a cabeça e fazia crescer mais e mais a onda de calor.

A menina assustou-se, percebeu que de repente tinha ficado com o coração muito exposto, quase como uma ferida aberta.

Resolveu embalá-lo, afagá-lo com suavidade, cantar até que se aquietasse.

Aos poucos as feridas começaram a cicatrizar. Apareceram as crostas. Ardiam, doíam e dava vontade de arrancá-las quando ficaram mais grossas.

Então a pequena mulher foi apresentada à Paciência.

Ela fê-la aceitar as crostas, e quando elas começaram a tornar-se insuportáveis, caíram!

Por baixo nasceu uma pele virgem, sensível e pura.

Era o inicio da cura.

A cura que vem da ferida, que vem do coração, que vem do amor, que nasce de dentro para fora.

A menina voltou a passar o testemunho à mulher adulta. Esta encarou o bom e o mau, o alegre e o triste, a companhia e a solidão sobre a batuta do um corpo que sente na plenitude.

O coração é a matriz da vida, o amor a receita para a cura.


Susana Gaião Mota
*Aluna da pós-graduação em Psicoterapia no CPSB
Jornalista e autora.
Blogger sobre comportamento, universo feminino e amor no blog  www.osnossospecados.com
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