20 de novembro de 2015

Workshop aberto - 9 de Dezembro - Generosidade e Construção de Vínculo

Ao falar de generosidade, não estamos a referir-nos à bondade ou espiritualidade mas sim ao estabelecimento de vínculos. Generosidade é uma virtude, é dividir algo com o outro sem querer nada em troca.
Ela é a despertadora do real valor do eu. Desejo, liberdade, ética, amor e religião são assuntos da generosidade.Ela é formadora das relações entre as pessoas. O mundo neste momento esquece estas virtudes.

Vamos refletir?

Investimento: 5€ Associados/ 10€ Não Associados
Data:  09 de Dezembro das 19h às 21h
Local: CPSB -  Av. 5 de Outubro nº 122, 5º Esq.
            Campo Pequeno - Lisboa
Confirmação obrigatória para: geral@cfpsb.com ou 21 793 53 26


Maria del Mar Cervantes 
Psicóloga Clínica, Psicoterapeuta Somática em Biossintese, Professora Sénior pelo International Institute for Biosynthesis, Directora do CPSB (Centro de Psicoterapia Somática em Biossíntese) e Vice-Presidente da Asociación de Somatoterapia Española.

16 de novembro de 2015

Por detrás da máscara*

Num período de quatro anos estive quatro vezes em tribunal para dar o mesmo testemunho sobre o mesmo caso. A primeira vez que entrei na sala de audiência senti-me intimidado. Não fazia a mínima ideia do que ia acontecer. Ninguém me explicou o que era suposto fazer e todos os que interagiram comigo foram formais e sem qualquer empatia. Senti-me como se estivesse a ser chamado ao gabinete do Diretor no colégio. A segunda e terceira vez, ao contrário do que eu esperava, não foram muito melhores. Conhecer o ambiente, neste caso, não era muito melhor do que não o conhecer. Até que me deparei com a TED Talk da Amy Cuddy: “Your body language shapes who you are”. Quando fui chamado pela quarta vez decidi seguir o seu conselho.

A quarta vez que fui a tribunal decidi experimentar usar a linguagem corporal a meu favor. Fui até à casa-de-banho e imaginei-me um urso. Levantei bem os braços e coloquei um ar feroz. Enquanto esperava no corredor mantive a pose de poder. Quando entrei na sala de audiências não me sentia tão intimidado, sentia-me forte e cheio de coragem para enfrentar aquele espaço hostil. De alguma forma, fui capaz de recuperar a confiança e não me deixar apagar pelo contexto que me rodeava. A forma do meu corpo tinha influenciado o meu conteúdo emocional. Uau!

À medida que crescemos, vamos criando máscaras que utilizamos como se fossem a nossa pele. Estas máscaras compõem a nossa personalidade, sendo formas de nos relacionarmos com o que é exterior a nós. Elas escondem a nossa essência e são não só mentais, como também corporais. Um dos grandes objetivos da terapia é ganhar consciência sobre a máscara, não para a destruir, pois ela teve e tem um propósito funcional, mas para que a possamos tirar e pôr, como máscara que é.

A Amy sugere que finjamos até que nos tornemos (fake it until you become it). Isto é verdadeiramente poderoso, mas fez-me questionar se nesse movimento não estarei a pôr outra máscara e a usá-la até me esquecer dela. Até que ponto é que a minha espontaneidade não está a ser, mais uma vez, condicionada? Provavelmente está.

Assim, gostava de hoje partilhar contigo a experiência que tenho tido na busca do movimento espontâneo do meu corpo. Será possível resgatar esse pulsar autêntico do corpo? Um dos caminhos que me é mais querido e que pretende exatamente criar essa possibilidade de autenticidade, aposta numa pequena máscara vermelha.

A magia do nariz vermelho

Um dia quando tinha treze anos e estava a passar o fim-de-semana em casa de um amigo, fui perseguido por crianças a chamarem-me saloio. Era uma brincadeira inofensiva, mas senti-me tão ridículo que, dessas férias, é a única memória que permanece. O medo do ridículo sempre teve o poder de me restringir o movimento. Era ele que me forçava a estar sempre alerta, garantindo que eu nunca cometia nenhum erro social que me pudesse tornar um alvo a abater. O ridículo garantia que eu nunca largava a máscara de menino perfeito.

Às vezes é necessário vestir uma máscara para poder despir outra. Tive essa oportunidade na forma de um simples nariz vermelho durante uma oficina de clown. Ao longo de várias subidas ao palco, protegido apenas por uma bola vermelha, fui permitindo que o meu palhaço emergisse. O desafio era simples: “Sobe ao palco e não interpretes. Não cries uma personagem, sê simplesmente tu. Exprime o que estiveres a sentir, de uma forma exagerada, tão exagerada que se torne ridículo”.

Eu arrisquei e as pessoas riram-se. Mas não era um riso ameaçador, era um riso genuíno de gosto pela vida. Aos poucos fui sentindo que as minhas crenças, os meus tabus, os meus dramas não eram assim tão pesados e que era possível eu próprio rir-me deles. Aos poucos fui descongelando. A rigidez que me caracterizara ao longo de uma grande parte da vida, desaparecia naquele palco. Ao mesmo tempo, emergia uma sensualidade tímida, um pouco pateta e desajeitada. Emergia o meu lado feminino. E era um lado muito divertido.

A expressão de emoções é uma forma de experienciar a minha essência, aquilo que tenho de autêntico. Outra forma de conectar com essa essência é explorar outra camada, a do movimento corporal.

Quando o corpo faz o que quer

Há um exercício muito interessante que podes experimentar esta noite em casa. Põe a tocar uma música, coloca-te no meio da sala, fecha os olhos e deixa que o teu corpo guie o movimento. O desafio é não decidires como é que te vais mexer. Deixa que sejam os movimentos involuntários da cabeça, dos braços, do tronco, das pernas a iniciar e a continuar o movimento. Podes mesmo imaginar que és uma marioneta e que existem fios invisíveis que te movem. E depois deixa-te fluir. Sem saberes, estarás a meditar.

Eu já fiz este exercício várias vezes com durações de cerca de uma hora. No início estou parado, quase estático, a balançar-me. Então, levado pela música, pequenos movimentos começam a surgir e eu deixo-os crescer. Resisto à tentação de os controlar e coloco-me na posição de observador. O movimento amplia e a expressão do meu corpo torna-se total. Surge então a possibilidade de experienciar emoções que reprimi algures no tempo. Posso, por exemplo, movimentar-me para uma posição fetal, num desejo de me retirar para um espaço de segurança. Posso então reviver um medo que tenho, que não me permito sentir no dia-a-dia. Por detrás desse medo pode estar uma grande tristeza e eu que nunca choro, desfaço-me em lágrimas. Até que a música muda e o meu corpo vai atrás. É sempre uma viagem dentro de mim próprio!

Tal como já tinha referido em “O chão que me suporta” acredito que existe um hiato grande entre o meu conhecimento e a sabedoria do meu corpo. Eu posso não saber que estou triste, mas o corpo sabe. Permitir que seja o corpo a conduzir o movimento, é uma forma de permitir que o inconsciente se revele. Há muita informação emocional que surge e há movimentos interrompidos que se desbloqueiam. Essa experiência de movimento autêntico em vez de criar uma nova máscara, permite-me experimentar o que é não ter máscara.

Se te faz confusão este conceito de deixar o corpo guiar o movimento, repara que isso já acontece. O teu corpo respira sozinho. Tu podes controlar esse movimento, mas também podes simplesmente ser um observador da tua respiração. É igual quando estás a conduzir ou quando estás a correr ou a andar.

Experiências à parte

Tive há pouco tempo uma experiência, durante a qual senti um vislumbre muito claro deste jogo entre a vontade da mente e o movimento involuntário do corpo. Estava a meditar sentado na posição de lótus e comecei a sentir uma forte comichão num tornozelo. Pensei, lá está o sistema simpático a desligar e a fazer das suas. Resiste Rodrigo! A comichão foi aumentando e eu fui fazendo um esforço cada vez maior para me controlar e não me mexer. Os graves da música faziam vibrar o meu corpo e o epicentro era a comichão. No meio desse esforço que se tornou brutal apercebi-me de que a minha mão estava a escapar ao controlo e se estava a deslocar no sentido da comichão. Resiste Rodrigo, pensava eu. Durante uns minutos eu fui capaz de me controlar, até que a mão ganhou e foi coçar a comichão. Nesse momento, descobri que tinha sido picado por um mosquito e por isso é que estava cheio de comichão.

E se voltar ao tribunal

Tanto os exercícios de clown, como os de movimento autêntico, são experiências que me trazem novas referências. Nenhum deles parte da compreensão mental. Um parte da expressão emocional e o outro parte do movimento corporal. Nós temos estas três camadas: pensar, sentir, agir. Para mim dar a mesma importância ao sentir e ao agir é um grande desafio. Esse é o caminho que quero seguir. Integrar as três camadas, não num movimento forçado, mas permitindo que elas fluam de forma natural sem tensão.

Se voltar a tribunal para depor, voltarei certamente a esconder-me na casa de banho a fingir que sou um urso. Talvez depois consiga pensar no que vou dizer e dizê-lo sem me deixar congelar pelo que estou a sentir.

*Texto e fotografia de Rodrigo Dias
http://apulsar.pt

5 de novembro de 2015

O chão que me suporta*


A Sofia tinha quinze meses quando pela primeira vez se levantou, deu um passo, depois outro e ainda um terceiro, sem a ajuda de ninguém. Quando voltou a cair com o rabo almofadado no chão, já o mistério estava desvendado. Voltou a levantar-se, a andar e depois a correr. Quando o irmão e os primos, todos mais velhos que ela, se foram deitar, a Sofia tentava fazer curvas. Estava desperta, excitada com aquele chão debaixo dos seus pés que a impulsionava para o mundo. A insegurança de cair que a acompanhara durante aqueles últimos meses tinha sido superada pela excitação descoberta no andar. Nessa noite dormiu mal. Talvez tivesse vontade de não voltar a tirar os pés do chão. Talvez tivesse medo de se esquecer que já sabia andar. Quem sabe?

Estar de pé. Caminhar. Correr. Saltar. Dançar. Todos estes movimentos são possibilidades que, felizmente, ainda tenho na minha vida. São tão básicos, tão antigos que não me lembro da excitação que também eu terei sentido quando, pela primeira vez, venci a gravidade e me ergui pé ante pé. Talvez tu também não te lembres. Nos últimos anos tenho explorado esta experiência de estar em pé com o olhar curioso da criança que ainda me habita. Essa curiosidade levou-me a redescobrir os vários chãos que sustentaram e sustentam a minha vida. Tem sido uma viagem incrível, que sinto que ainda está a começar. Quero muito partilhar contigo sobre os lugares que tenho conhecido e os sábios com quem tenho conversado. Se tudo correr bem teremos tempo para esta longa conversa. Mas hoje … hoje quero começar pelo princípio.

 

O princípio

Lembras-te dos bonecos sempre em pé? Para eles era tão fácil balouçarem-se e manterem-se de pé. Estavam desenhados para que o seu centro de gravidade estivesse mesmo em cima da sua base. Nós não temos tanta sorte. Quando estamos de pé, o nosso centro de gravidade está mais ou menos a um palmo abaixo do umbigo, distante da nossa base, que é super estreita – os nossos pés. Manter o equilíbrio do corpo enquanto nos movemos implica jogar um jogo praticamente inconsciente de contrações e relaxamento de vários elementos ao mesmo tempo. Só no pé temos mais de cem músculos, tendões e ligamentos.

Uma das formas de compreendermos o nível de complexidade do nosso movimento, é tentarmos reproduzi-lo construindo um robot. Foi exatamente esse o desafio que a Agência de Projetos de Pesquisa Avançada de Defesa dos EUA lançou às organizações de investigação robótica mais avançadas do mundo. A competição aconteceu no início de junho deste ano (2015)1. Vale a pena ver as máquinas mais avançadas do mundo a esforçarem-se brutalmente para fazer aquilo que a Sofia fazia facilmente com dois anos.

Se andar envolve um complicado e maioritariamente desconhecido mecanismo neuromuscular, imagina dançar.

O nosso movimento é um paradoxo. É ao mesmo tempo complexo e simples. Tão complexo que as pessoas mais inteligentes do século XXI não o compreendem completamente. E tão simples que uma criança homo erectus há 2 milhões de anos já o fazia naturalmente. Este hiato entre o nosso conhecimento e a sabedoria do nosso corpo fascina-me. A ti não?

Esta relação que temos com o chão é tão natural e antiga que tem uma íntima relação com a nossa sensação de segurança. Isto é muito concreto e presente, mas para mim era como o oceano para um peixe. Só quando me tiraram de dentro de água e eu me senti sufocar é que percebi que existia água.

 

O que uma hérnia faz a uma pessoa

Durante algum tempo, sempre que eu fazia longas viagens de carro, surgia-me uma dor ao longo da perna direita. Eu não ligava muito à dor. Até porque acabava sempre por passar depois de sair do carro. Até que a mesma dor começou a aparecer sempre que corria. Decidi descobrir o que se passava e foi-me diagnosticada uma pequena hérnia discal entre as vértebras L5 e S1, na zona lombar. Nessa altura eu descobri que a dor que eu sentia a conduzir era dor no nervo ciático. Eu tinha trinta anos e já tinha a famosa ciática!

Ainda hoje não percebo a origem da hérnia. Falam-me de má postura e esforços mal adequados. Só que essa resposta soa mais a uma cortina que esconde a verdadeira origem. Na verdade, mais importante do que descobrir a origem, é descobrir o que fazer com a hérnia. Eu decidi não me submeter a uma cirurgia e essa decisão levou-me a um regresso ao corpo. Reaprendi a estar de pé. Joelhos ligeiramente dobrados, bacia ligeiramente para trás, core ativado. Descobri que tinha um músculo chamado psoas2, responsável por me manter de pé. O tempo que eu demorei a perceber que o músculo não se chamava pessoas, mas sim pssoas! A dor que eu sentia e ainda sinto, funciona como uma âncora a lembrar-me que tenho um corpo para redescobrir e cuidar.

Nesta altura comecei a fazer terapia postural, psicoterapia corporal e fui pela primeira vez a um osteopata. À medida que fui passando mais tempo conectado com o meu corpo e menos tempo refugiado na minha mente, fui ganhando maior confiança em mim. Comecei a ter mais consciência das minhas sensações. Comecei a ser capaz de compreender o que estava a sentir quando certas coisas aconteciam. Foi como se resgatasse uma nova dimensão do meu contacto com a realidade. Foi como se um novo chão se estivesse a criar. Um chão sobre o qual eu podia caminhar com maior consciência.

 

Grounding

Experimentem pesquisar no google por “danças clássicas”3 e depois por “danças africanas”4. Há uma diferença notória. Nas danças clássicas há um movimento para longe do chão, como se nos elevássemos da nossa condição humana. Nas danças africanas há um movimento na direção do chão, um movimento de humildade. Os tambores e o bater dos pés no chão trazem uma experiência muito primária, muito crua. Quando danço ao sabor destes sons sou inundado por uma sensação muito velha em que as minhas emoções perdem toda a sua sofisticação e tornam-se muito brutas, muito presentes. O contacto com o solo torna-se numa fonte de carga energética. As vibrações que nascem dos pés provocam uma excitação geral do meu corpo. Estou a criar uma ligação com o solo e essa ligação permite-me sentir o meu pulsar.

A expressão grounding utilizada pela psicoterapia corporal fala-nos desta relação com os solos da nossa vida. Não é só o chão debaixo dos nossos pés que nos suporta. É a ligação pelo cordão umbilical durante a gestação. É o seio da nossa mãe que nos nutre. É a mão do nosso pai que nos apoia as costas. É a amizade dos nossos amigos. É o olhar dos desconhecidos. Cada um destes solos pode ou não acolher-nos. Cada um destes solos pode ser rico ou pobre em nutrientes. Mas todos eles influenciam a nossa segurança interna – a nossa capacidade de pulsar.

Experiências à parte

Esta experiência do pulsar da vida em mim não acontece apenas quando estou grounded pela música. Uma vez, numa conferência com mais de 100 pessoas, foi-nos pedido que todos juntos construíssemos uma figura humana e que cada um se colocasse na zona do corpo com a qual mais se identificava. Eu inicialmente coloquei-me nas vísceras, mas não me senti adequado. Depois de uns segundos de indecisão, mudei-me para o cérebro. Estranhamente, quando lá cheguei a minha cabeça começou a pulsar. Ela literalmente começou a latejar e eu percebi que estava no sítio certo. Esse pulsar só desapareceu quando desfizemos a figura humana. De alguma forma, o grupo acolheu-me e serviu de suporte para que fosse possível eu entrar em contacto com a sabedoria do pulsar do meu corpo.
Como pai da Sofia, sei que também eu sou um dos solos onde ela está a construir essa capacidade de pulsar que lhe permitirá dançar com a vida. Espero estar à altura do solo onde ela teve a segurança para dar os seus primeiros passos.

1) Robots at the DARPA Robotic Challenge
2) O músculo psoas
3) Pesquisa no google images por danças clássicas
4) Pesquisa no google images por danças africanas


Texto e fotografia de Rodrigo Dias
http://apulsar.pt