16 de novembro de 2015

Por detrás da máscara*

Num período de quatro anos estive quatro vezes em tribunal para dar o mesmo testemunho sobre o mesmo caso. A primeira vez que entrei na sala de audiência senti-me intimidado. Não fazia a mínima ideia do que ia acontecer. Ninguém me explicou o que era suposto fazer e todos os que interagiram comigo foram formais e sem qualquer empatia. Senti-me como se estivesse a ser chamado ao gabinete do Diretor no colégio. A segunda e terceira vez, ao contrário do que eu esperava, não foram muito melhores. Conhecer o ambiente, neste caso, não era muito melhor do que não o conhecer. Até que me deparei com a TED Talk da Amy Cuddy: “Your body language shapes who you are”. Quando fui chamado pela quarta vez decidi seguir o seu conselho.

A quarta vez que fui a tribunal decidi experimentar usar a linguagem corporal a meu favor. Fui até à casa-de-banho e imaginei-me um urso. Levantei bem os braços e coloquei um ar feroz. Enquanto esperava no corredor mantive a pose de poder. Quando entrei na sala de audiências não me sentia tão intimidado, sentia-me forte e cheio de coragem para enfrentar aquele espaço hostil. De alguma forma, fui capaz de recuperar a confiança e não me deixar apagar pelo contexto que me rodeava. A forma do meu corpo tinha influenciado o meu conteúdo emocional. Uau!

À medida que crescemos, vamos criando máscaras que utilizamos como se fossem a nossa pele. Estas máscaras compõem a nossa personalidade, sendo formas de nos relacionarmos com o que é exterior a nós. Elas escondem a nossa essência e são não só mentais, como também corporais. Um dos grandes objetivos da terapia é ganhar consciência sobre a máscara, não para a destruir, pois ela teve e tem um propósito funcional, mas para que a possamos tirar e pôr, como máscara que é.

A Amy sugere que finjamos até que nos tornemos (fake it until you become it). Isto é verdadeiramente poderoso, mas fez-me questionar se nesse movimento não estarei a pôr outra máscara e a usá-la até me esquecer dela. Até que ponto é que a minha espontaneidade não está a ser, mais uma vez, condicionada? Provavelmente está.

Assim, gostava de hoje partilhar contigo a experiência que tenho tido na busca do movimento espontâneo do meu corpo. Será possível resgatar esse pulsar autêntico do corpo? Um dos caminhos que me é mais querido e que pretende exatamente criar essa possibilidade de autenticidade, aposta numa pequena máscara vermelha.

A magia do nariz vermelho

Um dia quando tinha treze anos e estava a passar o fim-de-semana em casa de um amigo, fui perseguido por crianças a chamarem-me saloio. Era uma brincadeira inofensiva, mas senti-me tão ridículo que, dessas férias, é a única memória que permanece. O medo do ridículo sempre teve o poder de me restringir o movimento. Era ele que me forçava a estar sempre alerta, garantindo que eu nunca cometia nenhum erro social que me pudesse tornar um alvo a abater. O ridículo garantia que eu nunca largava a máscara de menino perfeito.

Às vezes é necessário vestir uma máscara para poder despir outra. Tive essa oportunidade na forma de um simples nariz vermelho durante uma oficina de clown. Ao longo de várias subidas ao palco, protegido apenas por uma bola vermelha, fui permitindo que o meu palhaço emergisse. O desafio era simples: “Sobe ao palco e não interpretes. Não cries uma personagem, sê simplesmente tu. Exprime o que estiveres a sentir, de uma forma exagerada, tão exagerada que se torne ridículo”.

Eu arrisquei e as pessoas riram-se. Mas não era um riso ameaçador, era um riso genuíno de gosto pela vida. Aos poucos fui sentindo que as minhas crenças, os meus tabus, os meus dramas não eram assim tão pesados e que era possível eu próprio rir-me deles. Aos poucos fui descongelando. A rigidez que me caracterizara ao longo de uma grande parte da vida, desaparecia naquele palco. Ao mesmo tempo, emergia uma sensualidade tímida, um pouco pateta e desajeitada. Emergia o meu lado feminino. E era um lado muito divertido.

A expressão de emoções é uma forma de experienciar a minha essência, aquilo que tenho de autêntico. Outra forma de conectar com essa essência é explorar outra camada, a do movimento corporal.

Quando o corpo faz o que quer

Há um exercício muito interessante que podes experimentar esta noite em casa. Põe a tocar uma música, coloca-te no meio da sala, fecha os olhos e deixa que o teu corpo guie o movimento. O desafio é não decidires como é que te vais mexer. Deixa que sejam os movimentos involuntários da cabeça, dos braços, do tronco, das pernas a iniciar e a continuar o movimento. Podes mesmo imaginar que és uma marioneta e que existem fios invisíveis que te movem. E depois deixa-te fluir. Sem saberes, estarás a meditar.

Eu já fiz este exercício várias vezes com durações de cerca de uma hora. No início estou parado, quase estático, a balançar-me. Então, levado pela música, pequenos movimentos começam a surgir e eu deixo-os crescer. Resisto à tentação de os controlar e coloco-me na posição de observador. O movimento amplia e a expressão do meu corpo torna-se total. Surge então a possibilidade de experienciar emoções que reprimi algures no tempo. Posso, por exemplo, movimentar-me para uma posição fetal, num desejo de me retirar para um espaço de segurança. Posso então reviver um medo que tenho, que não me permito sentir no dia-a-dia. Por detrás desse medo pode estar uma grande tristeza e eu que nunca choro, desfaço-me em lágrimas. Até que a música muda e o meu corpo vai atrás. É sempre uma viagem dentro de mim próprio!

Tal como já tinha referido em “O chão que me suporta” acredito que existe um hiato grande entre o meu conhecimento e a sabedoria do meu corpo. Eu posso não saber que estou triste, mas o corpo sabe. Permitir que seja o corpo a conduzir o movimento, é uma forma de permitir que o inconsciente se revele. Há muita informação emocional que surge e há movimentos interrompidos que se desbloqueiam. Essa experiência de movimento autêntico em vez de criar uma nova máscara, permite-me experimentar o que é não ter máscara.

Se te faz confusão este conceito de deixar o corpo guiar o movimento, repara que isso já acontece. O teu corpo respira sozinho. Tu podes controlar esse movimento, mas também podes simplesmente ser um observador da tua respiração. É igual quando estás a conduzir ou quando estás a correr ou a andar.

Experiências à parte

Tive há pouco tempo uma experiência, durante a qual senti um vislumbre muito claro deste jogo entre a vontade da mente e o movimento involuntário do corpo. Estava a meditar sentado na posição de lótus e comecei a sentir uma forte comichão num tornozelo. Pensei, lá está o sistema simpático a desligar e a fazer das suas. Resiste Rodrigo! A comichão foi aumentando e eu fui fazendo um esforço cada vez maior para me controlar e não me mexer. Os graves da música faziam vibrar o meu corpo e o epicentro era a comichão. No meio desse esforço que se tornou brutal apercebi-me de que a minha mão estava a escapar ao controlo e se estava a deslocar no sentido da comichão. Resiste Rodrigo, pensava eu. Durante uns minutos eu fui capaz de me controlar, até que a mão ganhou e foi coçar a comichão. Nesse momento, descobri que tinha sido picado por um mosquito e por isso é que estava cheio de comichão.

E se voltar ao tribunal

Tanto os exercícios de clown, como os de movimento autêntico, são experiências que me trazem novas referências. Nenhum deles parte da compreensão mental. Um parte da expressão emocional e o outro parte do movimento corporal. Nós temos estas três camadas: pensar, sentir, agir. Para mim dar a mesma importância ao sentir e ao agir é um grande desafio. Esse é o caminho que quero seguir. Integrar as três camadas, não num movimento forçado, mas permitindo que elas fluam de forma natural sem tensão.

Se voltar a tribunal para depor, voltarei certamente a esconder-me na casa de banho a fingir que sou um urso. Talvez depois consiga pensar no que vou dizer e dizê-lo sem me deixar congelar pelo que estou a sentir.

*Texto e fotografia de Rodrigo Dias
http://apulsar.pt