5 de novembro de 2015

O chão que me suporta*


A Sofia tinha quinze meses quando pela primeira vez se levantou, deu um passo, depois outro e ainda um terceiro, sem a ajuda de ninguém. Quando voltou a cair com o rabo almofadado no chão, já o mistério estava desvendado. Voltou a levantar-se, a andar e depois a correr. Quando o irmão e os primos, todos mais velhos que ela, se foram deitar, a Sofia tentava fazer curvas. Estava desperta, excitada com aquele chão debaixo dos seus pés que a impulsionava para o mundo. A insegurança de cair que a acompanhara durante aqueles últimos meses tinha sido superada pela excitação descoberta no andar. Nessa noite dormiu mal. Talvez tivesse vontade de não voltar a tirar os pés do chão. Talvez tivesse medo de se esquecer que já sabia andar. Quem sabe?

Estar de pé. Caminhar. Correr. Saltar. Dançar. Todos estes movimentos são possibilidades que, felizmente, ainda tenho na minha vida. São tão básicos, tão antigos que não me lembro da excitação que também eu terei sentido quando, pela primeira vez, venci a gravidade e me ergui pé ante pé. Talvez tu também não te lembres. Nos últimos anos tenho explorado esta experiência de estar em pé com o olhar curioso da criança que ainda me habita. Essa curiosidade levou-me a redescobrir os vários chãos que sustentaram e sustentam a minha vida. Tem sido uma viagem incrível, que sinto que ainda está a começar. Quero muito partilhar contigo sobre os lugares que tenho conhecido e os sábios com quem tenho conversado. Se tudo correr bem teremos tempo para esta longa conversa. Mas hoje … hoje quero começar pelo princípio.

 

O princípio

Lembras-te dos bonecos sempre em pé? Para eles era tão fácil balouçarem-se e manterem-se de pé. Estavam desenhados para que o seu centro de gravidade estivesse mesmo em cima da sua base. Nós não temos tanta sorte. Quando estamos de pé, o nosso centro de gravidade está mais ou menos a um palmo abaixo do umbigo, distante da nossa base, que é super estreita – os nossos pés. Manter o equilíbrio do corpo enquanto nos movemos implica jogar um jogo praticamente inconsciente de contrações e relaxamento de vários elementos ao mesmo tempo. Só no pé temos mais de cem músculos, tendões e ligamentos.

Uma das formas de compreendermos o nível de complexidade do nosso movimento, é tentarmos reproduzi-lo construindo um robot. Foi exatamente esse o desafio que a Agência de Projetos de Pesquisa Avançada de Defesa dos EUA lançou às organizações de investigação robótica mais avançadas do mundo. A competição aconteceu no início de junho deste ano (2015)1. Vale a pena ver as máquinas mais avançadas do mundo a esforçarem-se brutalmente para fazer aquilo que a Sofia fazia facilmente com dois anos.

Se andar envolve um complicado e maioritariamente desconhecido mecanismo neuromuscular, imagina dançar.

O nosso movimento é um paradoxo. É ao mesmo tempo complexo e simples. Tão complexo que as pessoas mais inteligentes do século XXI não o compreendem completamente. E tão simples que uma criança homo erectus há 2 milhões de anos já o fazia naturalmente. Este hiato entre o nosso conhecimento e a sabedoria do nosso corpo fascina-me. A ti não?

Esta relação que temos com o chão é tão natural e antiga que tem uma íntima relação com a nossa sensação de segurança. Isto é muito concreto e presente, mas para mim era como o oceano para um peixe. Só quando me tiraram de dentro de água e eu me senti sufocar é que percebi que existia água.

 

O que uma hérnia faz a uma pessoa

Durante algum tempo, sempre que eu fazia longas viagens de carro, surgia-me uma dor ao longo da perna direita. Eu não ligava muito à dor. Até porque acabava sempre por passar depois de sair do carro. Até que a mesma dor começou a aparecer sempre que corria. Decidi descobrir o que se passava e foi-me diagnosticada uma pequena hérnia discal entre as vértebras L5 e S1, na zona lombar. Nessa altura eu descobri que a dor que eu sentia a conduzir era dor no nervo ciático. Eu tinha trinta anos e já tinha a famosa ciática!

Ainda hoje não percebo a origem da hérnia. Falam-me de má postura e esforços mal adequados. Só que essa resposta soa mais a uma cortina que esconde a verdadeira origem. Na verdade, mais importante do que descobrir a origem, é descobrir o que fazer com a hérnia. Eu decidi não me submeter a uma cirurgia e essa decisão levou-me a um regresso ao corpo. Reaprendi a estar de pé. Joelhos ligeiramente dobrados, bacia ligeiramente para trás, core ativado. Descobri que tinha um músculo chamado psoas2, responsável por me manter de pé. O tempo que eu demorei a perceber que o músculo não se chamava pessoas, mas sim pssoas! A dor que eu sentia e ainda sinto, funciona como uma âncora a lembrar-me que tenho um corpo para redescobrir e cuidar.

Nesta altura comecei a fazer terapia postural, psicoterapia corporal e fui pela primeira vez a um osteopata. À medida que fui passando mais tempo conectado com o meu corpo e menos tempo refugiado na minha mente, fui ganhando maior confiança em mim. Comecei a ter mais consciência das minhas sensações. Comecei a ser capaz de compreender o que estava a sentir quando certas coisas aconteciam. Foi como se resgatasse uma nova dimensão do meu contacto com a realidade. Foi como se um novo chão se estivesse a criar. Um chão sobre o qual eu podia caminhar com maior consciência.

 

Grounding

Experimentem pesquisar no google por “danças clássicas”3 e depois por “danças africanas”4. Há uma diferença notória. Nas danças clássicas há um movimento para longe do chão, como se nos elevássemos da nossa condição humana. Nas danças africanas há um movimento na direção do chão, um movimento de humildade. Os tambores e o bater dos pés no chão trazem uma experiência muito primária, muito crua. Quando danço ao sabor destes sons sou inundado por uma sensação muito velha em que as minhas emoções perdem toda a sua sofisticação e tornam-se muito brutas, muito presentes. O contacto com o solo torna-se numa fonte de carga energética. As vibrações que nascem dos pés provocam uma excitação geral do meu corpo. Estou a criar uma ligação com o solo e essa ligação permite-me sentir o meu pulsar.

A expressão grounding utilizada pela psicoterapia corporal fala-nos desta relação com os solos da nossa vida. Não é só o chão debaixo dos nossos pés que nos suporta. É a ligação pelo cordão umbilical durante a gestação. É o seio da nossa mãe que nos nutre. É a mão do nosso pai que nos apoia as costas. É a amizade dos nossos amigos. É o olhar dos desconhecidos. Cada um destes solos pode ou não acolher-nos. Cada um destes solos pode ser rico ou pobre em nutrientes. Mas todos eles influenciam a nossa segurança interna – a nossa capacidade de pulsar.

Experiências à parte

Esta experiência do pulsar da vida em mim não acontece apenas quando estou grounded pela música. Uma vez, numa conferência com mais de 100 pessoas, foi-nos pedido que todos juntos construíssemos uma figura humana e que cada um se colocasse na zona do corpo com a qual mais se identificava. Eu inicialmente coloquei-me nas vísceras, mas não me senti adequado. Depois de uns segundos de indecisão, mudei-me para o cérebro. Estranhamente, quando lá cheguei a minha cabeça começou a pulsar. Ela literalmente começou a latejar e eu percebi que estava no sítio certo. Esse pulsar só desapareceu quando desfizemos a figura humana. De alguma forma, o grupo acolheu-me e serviu de suporte para que fosse possível eu entrar em contacto com a sabedoria do pulsar do meu corpo.
Como pai da Sofia, sei que também eu sou um dos solos onde ela está a construir essa capacidade de pulsar que lhe permitirá dançar com a vida. Espero estar à altura do solo onde ela teve a segurança para dar os seus primeiros passos.

1) Robots at the DARPA Robotic Challenge
2) O músculo psoas
3) Pesquisa no google images por danças clássicas
4) Pesquisa no google images por danças africanas


Texto e fotografia de Rodrigo Dias
http://apulsar.pt