23 de janeiro de 2015

François Dolto e Biossíntese:Tudo é Linguagem*



“ Quem não compreendeu um olhar não compreenderá uma longa explicação”
Mário Quintana


Recordo  um dos casos mais conhecidos da "mithologie doltonienne", e que se passou  quando ela era ainda interna de Medicina. Em várias ocasiões relatou o episódio:

Uma mulher deu à luz uma criança. Depois de uma ou duas mamadas, perdeu o leite e rejeitou o bebé. Uma auxiliar, com quem a jovem mãe tinha conversado e confidenciado o seu próprio abandono à nascença, quando trouxe o biberão para o bebé, perante a incapacidade e recusa da mãe, teve a intuição,  a  audácia  de,  depois de colocar o bebé no colo da mãe, envolver os dois de num gesto profundo de maternage que  foi ao ponto de dar o biberão não ao bebé, mas à mãe. De novo, de  forma natural, o leite voltou a subir,  a mãe sentiu-se apta a aceitar o seu bebé. Tornou-se a melhor ama de leite do serviço, acrescentava Dolto.

Françoise Dolto numa ocasião  comentou o episódio dizendo: "Tiro o chapéu a esta auxiliar, soube fazer o que era preciso, psicológica e humanamente,  ela compreendeu a situação bem mais  profundamente do que nós,  psicanalistas".

Quando correu o boato que  a teria sido a própria Françoise Dolto a autora de tal gesto de maternage,  esta foi categórica  " Tenho a dizer que pessoalmente eu nunca teria ousado fazer o que fez aquela auxiliar, nós psicanalistas ouvimos, ouvimos...  pensamos que se ela tivesse chorado  suficientemente o abandono teria podido receber e aceitar o seu filho.  No entanto, para alguém que acabou de parir não chega escutar a dor, não chega a palavra. O  acto de  dizer  não tem relação calibrada com o " "vivido" , com o que  acabou de se  vivenciar, com a  motricidade, o "funcional" em jogo. A linguagem desta mãe com o seu bebé é uma linguagem vegetativa, da qual são completamente inconscientes

O que me parece importante aqui é assinalar a diferença  que ela estabelece  entre os psicanalistas e os "curadores" que se implicam "no fazer com"  com o paciente, o doente, o cliente .  Trata-se de uma tarefa difícil e exigente fazer o gesto certo, no momento certo, acompanhado da palavra certa .

Quando comecei a estudar Biossíntese lembrei-me desse relato que tinha lido muitos anos antes . A relação  entre a o pensamento ,  acção e prática de Françoise Dolto com a Biossíntese, com a prática e o pensamento de David Boadella, foram imediatas e  ajudaram-me , ajudam-me, a perceber melhor uma e outro.
 


* Texto de Joana Quintino. Trabalho apresentado no 1º Encontro Institucional Ibérico do CPSB