6 de maio de 2014

Ser mulher e depois ser mãe



Artigo de opinião*


Diz-se que a sociedade impõe aos meninos que não chorem, que não demonstrem fragilidades e que sejam Homens, com H grande, com capacidade para lidar com a vida de uma forma quase bélica, mas também quase heróica e altruísta (este último, qb).

Dei por mim a pensar nisto e a perceber que está incompleto. Isto também acontece no feminino. Pelo menos, e de forma subtil, foi o que me chegou: tenho de me esforçar sempre para estar a postos para qualquer luta que surja; não posso baixar os braços, tenho de tentar sempre estar entre os melhores; não posso fraquejar e muito menos ser frágil ou desistir.

Não sei se é algo português, se é uma imposição apenas da minha geração, ou talvez da minha área geográfica (teria de fazer uns inquéritos), mas o que é facto é que a mulher também tem de ser forte. Esta e outras imposições externas, tanto nos homens como nas mulheres, traduz-se numa enorme rigidez,seja ela de movimentos, de emoções, ou de pensamentos condicionados. E com isto andamos todos e todas a neurotizar e a perguntar: porque é que nunca me sinto satisfeito? Porque é que não me sinto plena? A resposta nunca é fácil, e como sempre, é preciso ultrapassar o sintoma e ir à origem.


Na biossíntese o fluxo entre o pensar, o sentir e o agir são ideias chave. E é também dada atenção à origem da neurose, à origem dos sintomas psicossomáticos, sempre sem esquecer a nossa história e os seus condicionamentos.

Com a gravidez, como é óbvio, este tema intensifica-se. Queremos acompanhar a nossa neurose, veloz, e o corpo não vem connosco. Queremos continuar à mesma velocidade, fazer cinquenta coisas ao mesmo tempo (o cérebro feminino é multi-pista, nunca se esqueçam) e não é humanamente possível. Gravidez não é, efectivamente doença (lá está mais um clichet metido à bruta pela sociedade e que faz com que a grávida não se queixe), mas o estado de graça por vezes não tem nada de engraçado e é necessário saber quando parar ou abrandar.

E com isto tudo, esquecemo-nos do mais importante: não existem duas mulheres iguais e não existem duas gravidezes iguais, logo, a experiência de uma não é, nem pode ser, a experiência da outra. Então, vemo-nos numa encruzilhada: a sociedade diz que temos de ser fortes e aguentar o mais possível, o nosso corpo diz-nos "nem pensar", as nossas emoções ficam todas baralhadas e a mente só complica, com os seus filmes e ideias, histórias e crenças... E foi nesta encruzilhada que me deparei com a frase em cima, parece que de facto nada é por acaso, e surgiu na melhor altura. Temos de tratar de nós, olhar seriamente para a nossa saúde (física e mental) e reflectir bastante sobre estas encruzilhadas da vida. E digo reflectir para avançar, e não mastigar na neurose algo que os nossos dentes já não mordem.

Foto: https://www.facebook.com/HuffPostWomen/photos/a.196854310382630.47501.153213781413350/651692994898757/?type=1
*Autora: Ana Caeiro