1 de abril de 2014

Ler o nosso corpo

No mundo moderno onde nos inserimos, vivemos numa corrida. Temos horas marcadas, horários por cumprir e regras que não podemos esquecer. Andamos de folha em folha, percorrendo uma agenda que se quer cheia, confusa, mas de andamento rápido.


As várias exigências do dia-a-dia, a par desta agenda que nos acelera o passo deixam-nos atordoados: a família, o trabalho, as exigências burocráticas, o colégio dos miúdos... Tudo são temas que nos fazem correr e pensar que o dia é curto e que os anos passam rápidos demais. Mas, para além desta percepção errónea do tempo, não nos conectamos com o nosso corpo e não estamos atentos aos sinais que ele nos envia. Existem alturas em que, em vez de tentarmos ouvir o nosso corpo e perceber a origem de alguns sintomas que ele emana, tentamos calá-lo ao atacar esses mesmos sintomas com medicamentos que por vezes não são necessários. Aqui será necessário fazer uma ressalva: com isto não queremos dizer que não se deve medicar, antes pelo contrário, num caso de doença será sempre importante procurar aconselhamento médico. No entanto, antes da doença se agravar, o corpo poderá emitir sinais para os quais é importante tomar atenção. A questão é que às vezes vivemos com tanto ruído que não ouvimos o corpo a falar.

De facto, viver num clima de stress e num elevado ritmo ao qual a nossa sociedade obedece, acaba por obscurecer os sinais que o corpo transmite quando tem alguma queixa a fazer. E como não o ouvimos ele vai falando cada vez mais alto até que um dia grita. E aí vemo-nos obrigados a olhar para ele e a tratá-lo, desde o sintoma que grita, à origem do problema, esta mais silenciosa e por vezes mais difícil de encontrar.

Se por um lado nem tudo é psicossomático, por outro, existem muitos sintomas que advêm de uma questão psicossomática. São esses sintomas, essas somatizações que estão a encapotar algo bastante interno e nosso e que por vezes é tão difícil de detectar. Poderei deixar o exemplo de uma jovem mulher que, quando tinha cerca de 20 anos ficou sem voz. Quando percebeu que este era um sintoma que já estava instalado, ao procurar a medicina convencional, descobriu que tinha uns nódulos na garganta que nasceram, possivelmente, por não saber falar e respirar correctamente e em conjunto. Após várias sessões de terapia da fala, os nódulos desapareceram sem deixar rasto e a voz regressou. Mais tarde, ao procurar respostas na Psicoterapia Corporal, conseguiu entender porque ficou sem voz. De facto, naquela altura, e em todos os quadrantes da sua vida, esta mulher não tinha voz. O corpo apenas acabou por acompanhar algo que era inconsciente e que só foi tornado consciente cerca de 10 anos depois.

Claramente que quando temos um percurso em psicoterapia se torna mais fácil efectuar este tipo de ligações ou pontes, quando elas existem. Fazer pontes entre o corpo e o nosso inconsciente é algo que pode ser aprendido e treinado, mas nem sempre é algo transparente, rápido ou certeiro. Resta-nos tentar confiar nas nossas capacidades e também nas capacidades do nosso terapeuta que nos acompanha nesta viagem de vida que é o mergulho dentro de nós.

Texto de Ana Caeiro
Imagem: http://seremovimento.wordpress.com/2010/07/04/1290/