8 de outubro de 2013

Esquizóide



Na sua vertente psicótica, ou mais doentia, o carácter esquizóide transforma-se em esquizofrénico, nome conhecido no mundo actual e que se define por uma demência na qual o paciente tem alucinações e sofre de delírios. Na sua obra, Lowen distingue o carácter esquizóide do carácter esquizofrénico, sendo que ambos se diferenciam apenas por uma questão de grau. Neste trabalho vamos apenas considerar o carácter esquizóide.

A principal característica do esquizóide é o facto de ser muito mental. Refira-se que o carácter esquizóide é pré-genital, pois a fractura pode ocorrer muito cedo. Na biossíntese afirmamos que esta fractura pode ocorrer ainda no útero, sendo que, por vezes, os bebés sentem-se tão bem dentro da sua mãe que podem nascer depois do tempo normal de gestação. Esta necessidade de permanecer no conforto do útero pode revelar que estes bebés não querem nascer porque o ambiente cá fora é frio. 

A fractura mais primitiva pode ocorrer nos primeiros três meses de gravidez. Nesta fase da gravidez, a fase endodérmica, uma situação de trauma faz com que o bebé, numa atitude defensiva, leve a energia para outro lado, neste caso, para onde, posteriormente se vai desenvolver a cabeça (neste momento leva a energia para onde não existe nada; o cérebro ainda não se desenvolveu). Mas o bebé pode levar a energia para a cabeça noutros momentos da gravidez. 

No entanto, relembramos que, para Lowen, as fracturas só ocorrem após o nascimento, facto que ele reflecte na sua obra: “Não há nenhuma consideração teórica que nos obrigue a colocar a mais precoce etiologia da condição esquizofrénica no período pré-natal. A privação do amor materno não é uma experiência que, até ao momento, possa ser identificada como ocorrendo anteriormente ao nascimento da criança.” (Lowen, 1977: 334).

Seja como for, estes bebés acabam por crescer num meio frio, distante e com falta de contacto (idem, 333). Em casos mais extremos, a criança cresce com um terror profundo, medo de perseguição e da violência física (idem, 335). Desta forma, desenvolvem tendencialmente uma respiração quase inexistente para se tornarem transparentes, pois não gostam de ser olhados. As suas emoções tendem a ser ridicularizadas na infância e a mãe do esquizóide adopta uma postura de afastamento. Muitas vezes esta é uma mãe com um ajuste de vida muito rígido e é capaz de lidar com tudo desde que não haja muito stress sobre ela. 

Quando a criança se expressa ou age de forma autónoma, esta mãe fica aterrorizada, como se fosse perder o controlo, tendo uma resposta exagerada. O pai do esquizóide, tendencialmente, tem receio do terror demonstrado pela mãe do seu filho pois isso faria com que ele a tenha de ajudar, controlar e relacionar-se com ela de modo a satisfazer as suas necessidades. Este pai pode ser retraído e distante ou ter uma personalidade semelhante à mãe, de rigidez. De facto, a inteligência emocional destes pais é pequena. 

O traço positivo do esquizóide é ser brilhante, é o génio, é um ser criativo e é muito observador. Eles conseguem ser criativos de modo construtivo (idem, 323). Têm também uma grande capacidade para as sensações espirituais, para a ternura e simpatia, no entanto, têm dificuldades em focalizar estes aspectos em objectos do mundo real. 

Fisicamente têm muitas tensões no pescoço (corte entre o pensar e o agir - cabeça - coluna) e procuram espaços pequenos para se aninharem, para voltarem ao útero, onde estavam confortáveis. Têm tendência para problemas de pele, tumores na cabeça e para falarem baixinho. Não aguentam catarses, bioenergética ou até mesmo o toque ou o olhar nos olhos.

Refira-se que para o esquizóide a relação com o seu corpo é diferente do que nos outros caracteres. Para ele, o corpo é usado como usa o seu automóvel (idem, 324). Ele não tem a sensação de que é o seu corpo. Esta sensação pode ser visível: a sua cabeça não parece estar presa com firmeza ao pescoço, os braços estão soltos como se estivessem enfraquecidos e há uma notória falta de contacto entre as pernas e o solo, que é reflexo de pés fracos.

Em suma, as principais fragmentações do carácter esquizóide ocorrem na separação entre a cabeça e o corpo; na cisão do corpo em duas partes distintas a partir do diafragma; na desunião entre o tronco e a pélvis e a dissociação das extremidades.

Vínculo

O vínculo é difícil para um carácter que se diz ter um distúrbio afectivo grave (Lowen; 1977: 322) e onde as emoções são geralmente inadequadas.

Apesar de ser possível para o esquizóide centrar os seus sentimentos mais ternos, por um breve período, noutra pessoa, a tensão originada pela tentativa de manutenção do contacto provocará uma ruptura (idem, 324). Caracterizados como frios, para um esquizóide, “o degelo pode provocar uma inundação que extravasará o leito do rio” (idem, 335). Refira-se ainda assim que o que congelou não foi o seu coração, mas sim os seus músculos. Apesar de odiar inconscientemente a sua mãe, o esquizóide não é uma pessoa fria e odiosa. O seu ódio não lhe envolve o coração.

A nível da terapia, refira-se que, se existir um bom contacto com o paciente, é possível um progresso muito grande com base no facto do esquizóide ter poucos mecanismos de defesa do ego e também na sua vontade de resolver problemas. Apesar de este carácter ter olhos distantes, indicativos da sua falta de contacto com a realidade, Lowen refere que na terapia, os olhos do esquizóide procuram os olhos do terapeuta, desejando que o contacto de estabeleça (idem, 328).

Imagem: http://nodoascendente.blogspot.pt/
Texto de Ana Caeiro
Referências:

LOWEN, Alexander (1977); “O Corpo em Terapia, a abordagem bioenergética”; Summus Editorial; 11ª Edição; São Paulo.