16 de julho de 2013

Histérica

O carácter histérico está amplamente estudado. Foram a histeria e os sintomas histéricos que conduziram Freud às constatações iniciais da psicanálise (Lowen, 1977). Reich salienta que a característica mais saliente da pessoa com histeria é o seu comportamento sexual óbvio.


Este carácter tem uma estrutura genital. A fractura ocorre porque a criança concorre com a mãe e pode começar no útero ou depois do nascimento. O bebé pode inclusivamente nascer prematuramente, quando o útero é frio, característica que também permanece no contacto com a mãe. Quando já é criança, o confronto com a mãe pode criar a estrutura histérica. A mãe não suporta a ideia da filha ficar adulta e sexualizada e a criança acaba por não ter a nutrição que necessita.

Em relação às suas características, a histérica é aquela pessoa que se move constantemente, que considera tudo interessante e é a entusiasta que gosta de ser o centro das atenções. Pessoalmente, a pessoa com este carácter considera-se muito decidida mas, tipicamente, inicia muitos projectos sem os conseguir terminar. Tem muita tendência para a dispersão, logo o campo da canalização (focar) é o mais difícil. Como qualidades, sublinhe-se a sua capacidade de mobilização, a sua genica e a sua capacidade de se atirarem para a frente; no entanto e em oposição, são muito agitados e irritam-se com pessoas lentas ou deprimidas e gritam muito. Nos casos mais patológicos a pessoa histérica chega a desmaiar, e é característica aquela imagem da mulher que grita e cai desamparada no chão. Outros aspectos positivos da pessoa histérica são a sua energia, capacidade para arriscar e a energia de avançar sem medos.

Refira-se que o carácter histérico é um carácter rígido (baseado num funcionamento genital; idem, 231). Esta rigidez é um processo corporal total, que envolve o organismo como uma armadura. Este conceito de armadura, introduzido por Reich, descreve o estado no qual a ansiedade está “organizada” num mecanismo protector. Para este carácter a protecção é contra os estímulos do mundo exterior, mas também contra os impulsos libidinais interiores.

Fisicamente, esta couraça revela-se nas costas rígidas que não curvam, num pescoço duro e numa cabeça demasiadamente erecta. O abdómen e o peito demonstram igualmente uma enorme rigidez, assim como uma pélvis retraída e apertada.

Vínculo

Para a pessoa histérica, um envolvimento emocional profundo é uma ameaça. A sensualidade e os sentimentos ternos movem-se de forma incompatível, criando grande ansiedade (Lowen, 1977: 228).
É importante reconhecer na mulher histérica, uma atitude ambivalente face ao homem. Por um lado, o desejo está bloqueado pelo medo, enraizado na rejeição sexual que ocorreu na infância, demonstrada pelo pai; por outro, a ira está inibida pelo desejo reprimido. Assim, cada repressão actua como uma defesa contra impulsos opostos (idem, 236). Só podemos imaginar a confusão criada pelo bloqueio que decorre da ira e do orgulho.

Desta forma, o desejo reprimido por esta ira e orgulho também eles reprimidos, impede uma aproximação directa ao homem. Ainda assim, esta aproximação acaba por ocorrer não obstante o perigo de submissão por parte da mulher. De acordo com Lowen, a mulher, inconscientemente, transmite sinais corporais que induzem o homem a acções sexuais mais agressivas. Estes sinais poderão estar presentes em movimentos de quadris e uso de olhares mais fervorosos. Podemos não concordar com esta base, mas o que é certo é que se criam relacionamentos onde esta mulher se deixa possuir e se torna subserviente.

Lowen é claro quanto a esta submissão: não é um acto masoquista, o que faz dela, de facto, uma mulher com carácter histérico e não uma masoquista. Esta mulher não é passiva, através desta submissão aparente, existe uma agressividade que conduz à descarga sexual.

Claramente que, num estado mais psicótico, os relacionamentos da pessoa histérica se tornam bastante difíceis, principalmente porque, se tentarmos enquanto terapeutas, chegar ao coração desta pessoa, de forma a mobilizar os sentimentos amorosos profundos, vamos encontrar uma defesa bastante firme.

Nota: Lowen regista que a histeria seria o carácter que ocotte na criança do sexo feminino quando a fractura ocorre mais tarde, na  genitalidade. No entanto, hoje em dia fala-se do carácter da agressiva-masculina, que seria talvez mais semelhante ao fálico-narcisista mas numa versão feminina.

Texto de Ana Caeiro

Imagem: http://guiadeniteroi.com/devaneios-de-uma-mulher/
Bibliografia:

· LOWEN, Alexander (1977); “O Corpo em Terapia, a abordagem bioenergética”; Summus Editorial; 11ª Edição; São Paulo.