7 de junho de 2013

Tipos de carácter - O Masoquista

Nos próximos posts iremos apresentar os caracteres que Lowen desenvolveu. A ideia de compartimentar “personagens” ou tipos de personalidades tem dado vida à discussão na psicoterapia. Não é objectivo do nosso trabalho salientar a riqueza na diversidade de opiniões científicas, mas sim, focarmo-nos no trabalho de Lowen e nas suas caracterizações.

É também necessário salientar que as tipificações aqui indicadas para cada carácter são indicativas e extremadas, indiciando características já patológicas. Estamos cientes de que cada caso é um caso e de que, cada pessoa, na sua unicidade e riqueza, terá as suas próprias características. A par da explicação do carácter, iremos também focalizar o tema do vínculo e as suas especificidades.

Masoquista

A fractura deste carácter inicia-se quando a criança começa a ser autónoma na sua fase pré-genital, e o masoquismo que conhecemos clinicamente nos adultos, desenvolve-se, de acordo com Lowen, depois da puberdade (Lowen, 1977: 203 e 204).


Tudo tem início quando a criança pretende fazer as coisas à sua maneira, e de forma isenta dos seus progenitores, e a sua intenção é barrada, pois a “mãe sabe mais” (idem, 195). O ambiente onde está inserido responde tentando esmagar essa crescente independência. A criança vive isto como se tivesse sido comprimida.

Os sentimentos ternos são satisfeitos condicionalmente se a criança ceder e fizer o que se quer dela. O amor é como uma moeda de troca que é dada se existir um determinado comportamento e que normalmente é exigido pela mãe. A agressão que a criança tenta exercer é reprimida através do uso da humilhação ou vergonha: “se procurarmos o denominador comum às experiências iniciais que produzem o masoquismo, nós o encontraremos no sentimento de humilhação. O masoquista é um indivíduo que, quando criança, foi profundamente humilhado. Foi feito para se sentir inadequado e sem valor” (idem, 202).

Com a independência esmagada, a ternura satisfeita condicionalmente e a agressão reprimida, a criança reage contraindo-se / implodindo, para sobreviver. As necessidades materiais são, de facto, mais atendidas do que as necessidades de afecto e espirituais.

Face a isto, a criança considera que não se deve mover e começa a ter dificuldade em dizer sim ou não, demonstrando dificuldades no seu campo de oposição. Os medos de expansão (explodir), as queixas e os lamentos e uma inabilidade para obter o que quer, são decorrentes dessa situação.

As manifestações corporais dessa experiência são um corpo atarracado, ombros caídos, pescoço encurtado, uma coloração de pele escura, coxas e nádegas largas e uma expressão confusa. É o pessimista a quem tudo de mal acontece, estão colados à terra descarregados mas raramente entram em pânico. Aguentam uma catarse e precisam de algo intenso e de aprender a gritar.

A sua grande qualidade é a tolerância e a capacidade de contenção. Têm tendência para doenças nas costas, estômago, intestinos, úlceras, digestões pesadas e têm uma expiração e suspiração muito forte.

O vínculo

É necessário referir que o vínculo que o masoquista teve na sua infância foi condicionado e isso, de facto, irá condicionar os seus relacionamentos futuros. Ainda assim, é importante salientar que o masoquista não mostra sinais de privação, pois sente que a sua mãe o amava. É a forma como este amor foi expressado que provocou o distúrbio e não a falta dele (Lowen, 1977: 195).

Relembremo-nos de que o masoquista tem medo de morrer sufocado ou esmagado. Este medo representa uma reacção ao mesmo processo de ser invadido, controlado e humilhado, tal como ocorreu na sua infância. Assim, não consegue ser livre e é desconfiado das intenções das pessoas.

Para Reich, os principais traços do carácter masoquista passam por uma sensação crónica de sofrimento, expressada por uma queixa contínua. Como nenhum outro carácter, o masoquista está em conflito (idem, 184), o que, num caso de fractura extrema, conjugado com toda a queixa e sofrimento, dificulta qualquer relacionamento. O seu comportamento é estático e a sua reacção com os outros é desajeitada (idem, 183).

O masoquista tem um mecanismo que lhe é específico: ele tem uma frustração, que pode ser fantasiada ou real, de uma exigência de amor que não pode ser recompensada. A sua necessidade de amor acaba por ser excessiva porque ele tenta, inadequadamente, aliar a tensão interna e ansiedade que sente, exigindo amor de uma forma provocatória (idem 186). O masoquista acaba por sentir que tem muito amor para dar, se o conseguisse transpor para fora de si (idem, 206). Então, há claramente um afecto que está bloqueado, não existindo a expressão verbal do sentimento. Ainda assim, mesmo com um bloqueio na expressão verbal, o masoquista é inteligente e sensível, co
mpreendendo e percepcionando os outros de uma forma penetrante.

No seguimento da sua dificuldade em se vincular, descobre-se uma atitude especialmente negativa do masoquista em relação ao seu terapeuta. Tal como referido por Lowen: “não há amor ou aprovação que consigam penetrar a barreira” (idem, 200). Mesmo assim, o terapeuta deve, a todo o tempo, dar a sua simpatia, compreensão e apoio, apesar dos insucessos, fracassos e desconfiança face à terapia.

Texto de Ana Caeiro
Imagem: http://seespiritualize.blogspot.pt/2011/05/o-home-triste.html

Bibliografia:
·         LOWEN, Alexander (1977); “O Corpo em Terapia, a abordagem bioenergética”; Summus Editorial; 11ª Edição; São Paulo.