5 de junho de 2012

O Carácter nos estudos de Lowen


No seu livro, “O Corpo em Terapia”, Lowen tem um capítulo inteiramente dedicado à análise de carácter. No seu começo, o autor indica que, de facto, William Reich foi o grande responsável pelo progresso na compreensão e tratamento das neuroses, através do seu livro “Análise de Carácter”. Para Lowen, é com Reich e com os estudos do carácter que é feita a ponte entre a biologia e a psicologia. 

O tipo de caracterologia reichiana, que é base do trabalho caracterológico de Lowen, surgiu quando Reich foi confrontado com casos que representavam um impasse para a psicanálise que se fazia naquela altura. Era necessário analisar o carácter do indivíduo de forma a superar algumas resistências fundamentais (Navarro, 1995).

Apesar da importância de Reich, refira-se que o conceito de carácter é-lhe anterior, tendo sido também utilizado por Freud. Este autor começou por indicar que a formação do nosso carácter é histórica, surgindo desde o nascimento (Navarro, 1995). No entanto, foi Reich que inovou introduzindo o estudo das couraças musculares, bloqueios energéticos, doenças somáticas e natureza da energia biológica em si (Lowen, 1977).

O carácter é então a “expressão do funcionamento do indivíduo tanto no âmbito psíquico quanto no somático: sua compreensão requer um conhecimento exaustivo do ego e dos conceitos de energia.” (idem). De uma forma mais clara, Lowen refere que é uma atitude básica usada pelo indivíduo para lidar com a vida. O carácter representa um padrão típico de comportamento ou uma direcção habitual que alguém tem, tornando-se facilmente percepcionado pelos outros e dificilmente observado ou consciencializado pelo próprio. O modo de resposta do indivíduo a situações externas é estruturado e congelado no mesmo tipo de atitudes.

O carácter acaba por ser o resultado da aglomeração de um conjunto de respostas que o indivíduo encontrou para se defender num momento de fractura. Dependendo do momento em que ocorre a fractura, o carácter pode ser pré genital ou genital, sendo que, para Lowen, a habilidade de se encouraçar, só está disponível às estruturas de carácter baseadas num funcionamento genital (idem, 231), as chamadas estruturas rígidas. Estruturando-se em comportamentos defensivos, o carácter estrutura um tipo de pessoa que lhe permite sobreviver e avançar na vida. 

No entanto, o problema surge quando o carácter, ou o modo de resposta do indivíduo, deixa de surtir efeito na vida adulta. Na biossíntese referimos que são estes momentos que despoletam as neuroses, os conflitos internos. O indivíduo, ao reagir com o mesmo comportamento, de forma estruturada e congelada a situações novas, fica em conflito, pois a sua defesa, o seu carácter, deixa de dar resposta ao que é pedido no agora: respondemos a algo novo com algo velho.

Ainda assim, não consideramos o carácter como algo completamente limitador, mas sim como algo que foi extraordinariamente útil em determinados momentos da vida do paciente e que poderá ser utilizado no renascimento da pessoa em terapia.

Referências:
  
  •   LOWEN, Alexander (1977); “O Corpo em Terapia, a abordagem bioenergética”; Summus Editorial; 11ª Edição; São Paulo.
  •  NAVARRO, Federico (1995); “Caracterologia Pós-Reichiana”; Summus Editorial; São Paulo.

Imagem: http://ecampodeenergia.blogspot.pt/2011_08_01_archive.html