1 de fevereiro de 2011

EXPRESSÃO E COMUNICAÇÃO PSICOEMOCIONAL

A proposta do último Workshop passou pela abordagem ao contacto com as emoções e o contacto com o nosso eu, sabendo como é que eu faço isso.
Emoção, é um tema que nos domina de uma ou outra forma (mais positiva ou mais desestrutura), seja porque em contacto com as emoções vamos para a cabeça (o racional) para não sentirmos, seja porque não podemos ir para a mente e vamos para a explosão porque não dá para aguentá-las, seja porque não dá nem para aguentá-las nem para parar de pensar, então fazemos qualquer coisa para nos desconectarmos da emoção. Mas cada um tem uma forma de conectar-se com esse mundo emocional que nos acompanha desde que começamos a existir, algo que começa ainda no útero materno.
A Biossíntese, como palavra, quer dizer integração da vida. David Boadella, que foi o criador desta escola de pensamento, no seu processo de desenvolvimento (começou por ser professor) deu-se conta de que na realidade somos muitas coisas ao mesmo tempo: somos cabeça, emoção, corpo, temos energia, temos parte espiritual diferente para cada um. Não somos fragmentos, somos várias dimensões numa só. E separar a mente do corpo, a razão da emoção, a acção de tudo o resto, termina por ser um absurdo, leva-nos a um auto engano que de facto nos dificulta a comunicação desde o nosso interior para o exterior e complica essa digestão do que vem do exterior para o nosso interior.
Por isso, sem dúvida para nós podermos cuidar desse nosso mundo emocional, precisamos de partir da ideia e da realidade de que todos formamos várias dimensões e que dentro de nós também temos várias dimensões.
Então, não é possível haver essa separação da mente, corpo e emoções na prática? Na prática o que acontece é que tentamos (e por vezes fazemos isso tão bem), tendo histórias tão difíceis, que por vezes agimos mais com uma parte do que com outra o que não quer dizer que não exista a outra, significa que ela fica submersa, daí que em psicologia corporal falamos de bloqueios: bloqueios entre o pensar e o sentir, ou penso só ou sinto só, não quer dizer que faça só isto, mas é aquilo que se manifesta mais em mim. Por isso há pessoas que são mais emocionais e outras mais racionais, outas querem só agir, estar ocupadas.
Desde há muito tempo os pensadores têm vindo a constatar que o ser humano tem todas estas dimensões e somos um todo. Então Psicoterapia corporal porquê? O nosso corpo, junto com a nossa mente, acompanha-nos em toda a nossa existência e está connosco desde que somos desejados, já no útero materno como célula tão pequena em que a mãe já tem uma história, até à formação do bebé. Somos seres que estão em constante contracção, porque todo o nosso corpo, e todo o nosso eu, está sempre para dentro/para fora, coração válvulas, hormonas, corrente sanguínea, respiração, tudo em nós é pulsatório e vibra. Desde o útero materno que começamos a receber influências de fora, e nesse contacto com essas sensações, o bebé, se há algo difícil, algo que vem de fora e me assusta, tenta encontrar o equilíbrio e vai reagir defendendo-se, esse movimento acompanha-me a vida toda. Quando não há conflito, quando sinto que posso ou que algo é bom eu abro, quando há conflito interno, ou sinto que algo vem contra mim e me assusto eu fecho. Isso acontece desde pequenino e acompanha-me a vida toda.
Durante a gestação de um novo bebé, começam a criar-se os pilares desse ser emocional, que age, e é um ser pensante. E sabemos que no 1º trimestre da gravidez começamos a elaborar e amadurecer as vísceras, que são as responsáveis pela nossa expressão emocional.
Onde sentimos a raiva? Algures na barriga. O medo? Algures na barriga. As emoções básicas: ansiedade, medo, angústia, alegria, funcionam num primeiro momento de reacção e expressão no nosso mundo visceral: vesícula, fígado, coração, estômago, intestino, pulmão, etc. e estão ligadas a essa primeira fase de desenvolvimento desses pilares para criarmos esse sistema visceral responsável pela nossa vitalidade, que começa logo a reagir ao mundo.
E começa a reagir ao mundo fazendo esse movimento. Então, se o que aconteceu foi difícil, já deixou uma marca visceral e o bebé tenta defender-se indo para algo que não seja tão difícil. Uma possibilidade é ir por exemplo para a cabeça para defender aquele lugar que está a ser construído e que precisa e vitalidade. Então por vezes encontramos casos em que se a gravidez ou a gestação foi difícil e já aí começaram por haver marcas, depois, dependo da marca e do tempo em que se repita e em que há um efeito nocivo na pessoa na infância, etc., já há uma tendência para a criança ir para a mente, para o racional. Uma possibilidade: se por exemplo na família à volta da criança há muita emoção e muita angústia, ou a família é desestruturada, a criança vai tentar defender-se ou ficando muito agressiva dizendo “não quero!” ou refugiando-se na mente, racionalizando ou indo para mundos paralelos, amigos imaginários, fantasias, elaborando todo esse mundo criativo que a salva daquele mundo real tão difícil.
Na realidade, para nós nos entendermos, temos de saber como me organizei para lidar com aquele primeiro mundo que eu tive. Porque nesse primeiro momento todos tivemos alguém que cuidou de nós, uma vez que no início somos dependentes, todos tivemos alguém que interagiu connosco, uma mãe, pai, tio, avó, instituição, mais ou menos acolhedor, mais ou menos saudável, que interagiu connosco e nos permitiu ao sobrevivermos fazermos o nosso melhor para lidarmos com a angústia ou a frustração.
A proposta do David Boadella é juntar todas as dimensões, as dimensões biológicas do corpo que se organiza, gerindo todas as emoções que vêm do mundo, integrar gestão das emoções, da memória, do cognitivo, etc. por isso a época cartesiana em que mente ia para um lado e corpo para o outro, já não serve. Se olhamos só para o estômago, perde-se uma quantidade de informação valiosíssima. Porque é que o estômago chegou a esse estado? Porque é que o corpo deprimiu? Porque é que se repete talvez na família? Desde quando tenho esse mal-estar? Como lido com a doença? Aceito porque faz parte do processo ou dá-me raiva? Por vezes na saúde ainda damos com um cuidador ou tratador que olha para o sintoma de forma desconectada com as outras dimensões, e na realidade não se pode tratar a doença olhando só para uma parte, fragmentada.
Ganhamos a pulso todas as doenças que temos. As hérnias, por exemplo, não aparecem de repente, aparecem porque coloco o corpo em desequilíbrio, má postura, excesso de peso, carregar tensão, etc. Porque é que a minha imunologia desce? Porque deprimo, porque stresso, porque na hora de lidar com a vida não cuido de todas as dimensões e não consigo digerir que há um discurso que me provoca algo. O meu corpo é outro recurso que me pede socorro, ao aparecer algo na pele por exemplo, diz-me que tenho potencialmente um problema de contacto; ou surge algo no estômago dizendo-me que as emoções não estão a ser bem digeridas; ou o intestino fecha para me fazer ver que já não dá para engolir mais coisas. O meu corpo vai reagindo para tentar encontrar um equilíbrio reduzindo essa angústia.
No contacto com outras pessoas e com as sensações que nos provocam reactividade, o corpo também mexe. Na memória de construção de emoções, o pai e a mãe são crescidos. Se o pai era rígido e me dava medo quando era pequeno, se colocava regras rígidas ao meu comportamento e eu não podia expressar o que sentia, nem a minha autonomia e liberdade e eu tinha de sentir medo, o corpo contraiu. Se isto foi demais, vou começar a andar com aquele jeito e fica algo clássico de quem não foi nutrido o suficiente.
Outros criam um buraco no estômago por terem sido negligenciados (não porque os pais e educadores são maus, eles simplesmente fizeram o melhor que puderam), mas essa é a minha história, deixa no meu corpo dores que em contacto com algo parecido na vida actual me fazem responder no presente com a mágoa da criança.
Ao tocar nessa mágoa eu fico em contacto com a dor, então eu abandono antes de ser abandonado, ou eu maltrato por exemplo alguém que amo. Ás vezes eu quero tanto uma coisa e tenho tanto medo de a perder que a chuto, é uma possibilidade. Ou quero tanto algo, por ser dependente, que sufoco o outro com a minha necessidade e o outro fica esgotado. Há pessoas que nos chutam outras que nos esgotam, outras que nós esgotamos ou que chutamos.
É interessante entender como é que nós nos construímos. Mas há uma memória sem dúvida, no nosso self, no nosso eu, que em algum lugar na nossa história teve de se construir. Quanto mais difícil foi a história ou como eu a vivenciei nos primeiros momentos, mais difícil é para mim lidar hoje com as emoções. Então dominam-me porque ou fico a racionalizar tudo (a queixa de quem convive com algum racional: não falas, não te expressas, precisamos de saca rolhas. Fala! E a pessoa fecha-se mais ainda). Por vezes essas primeiras histórias são chatas de recordar, foram há muito tempo, mas foram o nosso primeiro estágio com as emoções e esse mundo novo de sensações.
O primeiro estágio com as emoções começa desde o primeiro momento, até hoje. Começa no útero, no que a mãe sente, vive, diz e o cuidado que a mãe tem. Às vezes é falta de mãe, outras é excesso (que são aquelas que fazem tudo tão bem que não deixam os filhos expressar o que sentem e que querem).
Passam os anos e até eu digerir e me mobilizar de forma saudável por vezes passa muito tempo. Há frases, coisas que ficaram na auto estima, na auto imagem, que me fazem ficar desconectado dessa expressão de liberdade emocional.
O que seria a liberdade emocional?
Se pedissem para construir uma personagem, uma pessoa, com liberdade emocional, como seria?
As respostas dos participantes construíram esta personagem: “Seria uma pessoa expansiva, em equilíbrio, fluida, alegre, extrovertida, com voz, com postura recta mas flexível, descontraída, espontânea, com carga, assertiva, que sinta e que expresse no momento, que olhe nos olhos, que seja responsável”.
Liberdade e responsabilidade andam de mãos juntas. Significa que tenho em conta o meu interior e o meu exterior, a mim e aos outros.
Liberdade emocional é o contacto com o nosso eu, em que nos permitimos desfrutar verdadeiramente das coisas que a vida tem para nos dar: o prazer, dos sentidos, das cores, da comida, de tudo o que nos envolve, das pequenas coisas, da sexualidade, de lidar com os fantasmas da nossa história, etc.
 Temos histórias e fantasmas que achamos que nos impedem de ter liberdade emocional com responsabilidade emocional. Existe como crença, porque fazemos uma alimentação com as melhores vitaminas que construímos, achando que nos faz mais fortes para manter (que é do humano) esse contacto com a mágoa. Mas na realidade qualquer pessoa, seja qual for a história que tiver, mais ou menos difícil, tem a possibilidade de poder ter esse contacto fluido com as emoções, com a expressão, com dizer na hora o que se sente. Há uma possibilidade mas tem de haver uma disposição interna, uma transformação da crença em acreditar que é possível essa acção.
Como é difícil expressar o que sentimos? Qual a emoção mais difícil de expressar na hora? As respostas foram variadas: “Desagrado, desacordo, raiva, afecto (dar e receber, mesmo um elogio)”.
Todos nós de uma forma ou outra, viemos de famílias de cultura latina, em que falar de emoções e do que se sente é criar pessoas frágeis e elogiar é criar prepotência. Então encontro no consultório: tanto a dificuldade de poder discordar do outro e dizer “eu não gosto” sem o outro deixar de me amar, como a dificuldade de dar elogios, ou de receber elogios, até mesmo dar elogios a nós mesmos.
Uma das coisas importantes da Biossíntese é que para contactar com algo difícil, parte-se do recurso da pessoa, do diamante que toda a gente tem.
Quais são as coisas que me marcaram? E mesmo com essas vivências difíceis, com tantas coisas que vivemos, o que é que se manteve intacto e até hoje ficou? Foi por exemplo o sentido da estética? A sensibilidade? A capacidade de análise, a capacidade de amar mesmo que se morra de medo? De cuidar? De entender? De ver mais além? É difícil conectarmo-nos com coisas positivas?
Quando mostro as minhas emoções sinto-me na realidade num palco e a ser criticado, mesmo que tenha só à minha frente uma pessoa, sinto em mim as imagens de todos: pai, mãe, vizinho, colega, senhor do talho, etc. porque o super ego (aquele policia necessário), fica por vezes construído de forma tão exacerbada ou cresceu tanto, que quando vou fazer um movimento de expressão ele diz “Ah! Não podes!”. E então vou para casa e fico na ideia do que devia ter feito e não fiz, dito e não disse… e fico no massacre. Ou seja, ao que foi no momento junta-se o massacre que aumenta a ferida, e fico com dois problemas.
Entender este movimento é muito interessante. E estar num palco da vida é também muito interessante, porque realmente eu acho que estou sozinho mas estou acompanhado pelas minhas memórias. As boas notícias: eu posso conviver com isso de forma mais harmónica, posso fluir. As más notícias: é que eu não posso mudar a minha história. Mas de facto eu posso mudar a forma como me relaciono com isso hoje, quanto mais mágoa eu acumule pior. E mesmo quando eu já entendo que algo não é bom para mim, muitas vezes eu repito porque ficou o vício. Quantos de vocês sabem que o que está a acontecer-lhes não é o mais saudável?
A Biossíntese propõe encontrar essa dança saudável entre o que penso, sinto e faço. Para gerir melhor o mundo das emoções, primeiro tenho que me conectar com o que não está ferido e ainda me faz funcionar, o que faço livremente sem esforço. Preciso encontrar onde estou assim. Depois então eu preciso de entender as minhas emoções, saber porque me construi assim, que é uma coisa única.
Nesse entendimento eu preciso de “estar em contacto com”, que é a coisa mais difícil para os racionais, para os emocionais é o mais fácil porque se sente uma “bola” em todo o lado no corpo, aqui ou ali (quem tem isso, temos de o ajudar a subir para o racional, nos outros que estão desconectados do emocional, temos de os ajudar a descer do racional à emoção).
O que é afinal estar em contacto com?
É estar em contacto com o que me está acontecer, seja positivo ou negativo, é permitir estar com isso, seja raiva, seja angústia, em vez de partir logo para onde vou colocar isto? Onde vou depositar? Quem me salva? O que vou fazer para esquecer?
Ficar em contacto com é o mais difícil. Todos nós, de uma ou outra forma estratégica, elaborámos um carácter que me leva a fazer algo com as emoções difíceis, eu tenho que as mover e cada um leva isso ao lado que mais conhece (ou levo para dentro e fico no racional, ou para fora e fico na explosão da emoção ou fico na acção desconectada).
Estar em contacto com é incluir, deixando-nos sentir, respirar em contacto com a emoção.
O contacto com a dor provoca-nos algo parecido com a morte, com um atentado à nossa forma e vitalidade. Então é algo traumático e o meu corpo e a minha essência fica com a ideia gravada de que aquilo dói muito. Só dou conta do susto, de que algo me agride, não o processo depois de me ter reorganizado.
O neurótico tem algo interessante: passamos o tempo todo a evitar a dor da morte e a evitar a dor e com isso ficamos desconectados da vida. Nessa fuga para a cabeça, acção ou explosão ficamos a fugir desse contacto da dor e da morte e com isso fico desconectados da ideia de que posso acolher aquilo. Fujo da possibilidade de dizer: eu sinto-me magoado, por exemplo, em vez de explodir ou sair a correr numa estrutura defensiva em que fico desconectado da possibilidade.
Estarmos em contacto com a possibilidade de liberdade emocional versus responsabilidade emocional, significa sabermos que deveríamos expressar-nos adequadamente e saber se é de facto viável e é possível a outra pessoa entender-me. A experiência de fazer isso, de fazer essa tentativa, quanto mais cedo acontecer em nós, mais facilmente se pode criar um clima de entendimento.
Por vezes, ao tentar expressar-me, os nossos interlocutores estão muito fechados e desconectados disso, ou, muitas vezes, eu acho infantilmente que estão totalmente incapacitados disso (porque muitas vezes somos nós que já os chumbámos dentro de nós e os infantilizámos). Mas também é verdade que às vezes acontece que há pessoas que não têm capacidade de ouvir e eu não tenho que obrigar, porque na responsabilidade emocional eu não tenho que obrigar coisa nenhuma, eu tenho de expressar e ao expressar fica dito e talvez fique com a consciência de que a outra pessoa não vai entender, mas eu expresso como me sinto, mesmo que seja difícil para o outro entender. Às vezes eu não vou ter o retorno do outro, mas tenho esse contacto comigo e com a capacidade de identificar o que me está a acontecer.
Porque liberdade é em primeiro lugar identificar que emoção é aquela que se está a mobilizar para mim, a seguir expressar para mim e depois para o outro, mesmo com a possibilidade de que ele não entenda nada.
Se a pessoa reage indo embora, voltando as costas, isso não significa que eu tenha de ficar só em contacto com a rejeição da outra pessoa, isso sim é o contacto neurótico. Há uma parte de mim que está em contacto com a rejeição e outra parte que está a achar que é o meu direito, eu expressei e não tive eco. A coisa grave é se eu ao expressar-me a outra pessoa virar costas e eu perder o sentido da minha mágoa, então eu sinto-me culpado e fica muito mais neurótico. Não perder o contacto com o que é a minha verdade, independentemente da reacção mais patológica do outro.
Às vezes esquecemo-nos de como somos capazes de lidar e nos adaptar. Na curva da saúde, quanto mais eu consigo sentir que há momentos em que coloco a razão, acção e emoção em doses idênticas e não fico preso num deles a maior parte do tempo, mais saúde há.
Até porque até as coisas mais difíceis, bem geridas, cuidadas, podem transformar-se num recurso. Podermo-nos conectar com essa possibilidade de olhar para aquelas coisas que constatamos e encontrar as minhas forças e as minhas fraquezas, foi a sugestão da parte vivencial deste workshop.