10 de janeiro de 2011

A RAIVA


Regra geral, temos dificuldade em assumir que sentimos ansiedade, ódio, raiva, porque achamos que não somos boas pessoas se sentirmos isso, quando de facto toda a gente sente em algum momento. Somos o que somos porque temos todos os lados e é importante para trabalhar raiva, angústia, tristeza entender que temos todo um leque de emoções em nós. A ideia de “colocar para trás das costas” não é bom, porque vai ficar aí: nas costas e no corpo. Temos de saber incluir tudo em vez de reprimir, sendo a raiva das emoções mais reprimidas.

O que é esta repressão? Quando vamos em demasia para algo para o qual não estamos preparados o nosso mundo fecha. Tal e qual como quando queremos dizer algo na nossa vida, por exemplo: que precisamos de algo e esse algo não é nutrido, a energia fica contida.

A sensação de raiva

O movimento de emoções mais primitivas começa muito cedo. A raiva sente-se na barriga. É quente, vulcânica. Tem movimento de querer sair e quando não sai implode, indo para os órgãos internos. Quando isto acontece continuamente vira-se contra nós e move-se como carga energética. É curioso como a cultura popular fala disso usando expressões como por exemplo: “maus fígados”, mas há mais formas da raiva se manifestar no corpo.

É algo bom ou mau?

A raiva é um alerta. As emoções são a expressão do sentimento. O sentimento ninguém vê. A emoção é visível: por exemplo na agressividade sai a raiva.

Vamos imaginar que estou com raiva e tenho colocada a minha máscara social recorrendo ao meu melhor lado, se a raiva existe aqui é um sentimento e ninguém vê. A emoção é expressa, vai para fora.

É interessante entender que as emoções mais viscerais (quentes, que vêm das vísceras) já as conhecemos desde muito cedo e têm a ver com mágoa, porque a raiva é a expressão da mágoa, tem a ver com dor.

E o que é a mágoa? Algo que me feriu profundamente, ou porque fui traído, ou roubado, ou me mentiram. A raiva é a expressão da magoa,

A raiva é um mobilizador e tem um objectivo, toda a emoção tem um objectivo. O objectivo é deixar que a emoção saia e quando isso não acontece ficamos com problema. A mágoa precisa de ser mobilizada ou chorando ou dizendo “eu não quero isto pois é mau para mim”.

Quantos conseguem, no momento em que algo incomoda, dizer ao outro o que sente? Não é assim tão fácil. Ficamos no estado neurótico: “se expresso o que vão pensar de mim?”, a raiva branca (assim chamada na psicoterapia).

Diferença entre ansiedade e raiva

Ansiedade: pode ser causada por raiva reprimida e há uma crise de angústia de antecipação, a coisa pode nem acontecer mas tenho medo que aconteça. É uma coisa que me agita ou me colapsa, o contrário da raiva que gera movimento. Ansiedade é um estado “para dentro”, fico agitado mas é uma coisa interna antecipatória que me pode adoecer muito.

Raiva: ou expludo, ou rumino, ou o corpo adoece. Quando é expressa adequadamente liberta-me, infelizmente não aprendemos a fazê-lo, aprendemos desde pequenos que na nossa cultura é feio expressar.

Uma criança cai aos 3 meses precisa de ficar simbiótica com a mãe cuidadora, até ao momento em que, sentindo-se nutrida, se vai afastar da mãe. Se não é nutrida, a criança fica com mágoa e isso transforma-se noutra coisa (a raiva não é só a raiva vermelha em que já não dá para aguentar), pode ser por exemplo: numa angústia constante; na indiferença para irritar o outro; numa irritabilidade constante; numa falta de prazer permanente; etc. Há muitas formas de elaboração da raiva e isso traz-nos muitos problemas porque nos desconecta do que nos está mesmo a influenciar, então como deixa de ser claro até para nós, o outro não entende e o vínculo com o outro não acontece, piorando tudo.

Há 3 grandes formas ou perfis no nosso Eu no momento de expressar a nossa raiva:

Nota: Ninguém é só uma coisa de forma pura, senão estávamos num hospital psiquiátrico.

- DEPENDENTE – não teve tempo de ficar independente porque ficou negligenciado ou abandonado emocionalmente, não havia disponibilidade afectiva ou logística da parte dos cuidadores. Fica então com “um buraco” e quando encontra novamente algo que lhe recorda a mágoa diz: “Ninguém gosta de mim! Ninguém me faz feliz! Fizeste-me isto ou aquilo!” O outro é o culpado de me sentir assim.

Luta por uma injustiça e fica uma raiva de queixume constante que ninguém aguenta. É aquele que lida com a raiva acusando os outros, algo que vem de uma coisa antiga e quando algo “toca naquele lugar” fica uma coisa insaciável.

Transforma a raiva numa mágoa pedinte e fica uma necessidade que nunca é saciada. É difícil de lidar porque parece que o mundo precisa de salvar constantemente esta pessoa. No adulto é comum ver crises de birra, há desespero (não há espera, não há pausa).

Tendência corpórea ou somática (genericamente): nunca descarrega, fica demasiado nas vísceras. Pode desencadear: dor nas vísceras, tendências à auto agressão, tristeza, doenças degenerativas (o corpo fica inimigo dele próprio, a angústia domina o corpo), doenças imunológicas, cancro, etc. Também a tensão no pescoço e queixo tem a ver com abandono, falta de nutrição.

- CONTROLADOR – em contacto com a mágoa sofre de falta de reconhecimento que é a sua primeira mágoa: não foi reconhecido como válido, como importante, como é. E o que faz? Ao conecta com a mágoa, nunca o mostra e fica a ruminar. Recusa-se a sentir e refugia-se na cabeça (no racional). Tenta manipular e argumentar.

Como quanto maior a repressão maior a perversão, a mágoa é tão dolorosa que voltar a sentir novamente é muito difícil. O controlador pode ficar muito parado, começa a ter dificuldades em estar com pessoas de forma a evitar contacto com a mágoa e com a raiva. Se o dependente diz o tempo todo como se sente e que quer um herói, aqui não preciso de ninguém e fico no meu mundo, mas é apenas outra forma de mágoa e fica uma raiva branca, neurótica.

Não admite que algo magoou e foi importante e racionaliza, ficando assim numa borbulha de proteção, relativizando: “Eu aguento porque sou forte, sou evoluído e forte!” “Neurose é coisa de mulher, de gays ou de deficiente”, mas não age.

No corpo afecta sobretudo os ossos e as articulações, uma vez que para manter o que não pode sair ficamos como os jogadores de sumo…

- COMPETITIVO – a história da sua fractura começou na humilhação. Então não só acha que os outros são menos importantes, como assim que têm oportunidade dão a tacada final por vezes muito cruel e visceral. Dizendo coisas do género: “Eu nunca gostei de ti”, inferiorizando, fazendo o mesmo que lhe fizeram, atacam o ego do outro, falando por exemplo do pénis pequeno de um namorado. O ódio, é a expressão máxima da raiva, aí não há controle e pode tornar-se algo assassino.

No corpo pode ser afectada a respiração, o coração, aneurismas, AVC, tudo o que é súbito e com grande impacto. O competitivo aguenta muito stresse e quando cai, cai num abismo. Tem tendência ao stroke.

Em suma:
O “Controlador” normalmente apaixona-se pelo “Dependente”, o “Competitivo” destrói o “Dependente” e o “Dependente” apaixona-se por todos que o cuidam.

O “Dependente” chuta para fora, o “Controlador” calca dentro e o “Competitivo” usa uma mira vingativa pensando “quando encontrar o teu ponto fraco vais pagá-las”.

Podem estar em níveis diferentes, mas todos estes tipos estão em nós. Não há nenhum melhor que o outro, são necessidades de elaborar resposta à mágoa. Em nenhum dos casos a raiva desaparece. Não curo, mantenho a raiva como ela é, desconectado da capacidade de inclusão da minha mágoa e o que quero é não a ver, é negá-la.

Como expressamos a raiva?

É importante entender que a raiva tem a ver com mágoa e avaliar como se expressa no meu corpo e na minha vida.

A raiva é uma emoção que quer ser expressa, se não o faço adequadamente porque expludo de mais, ou racionalizo de mais, ou contenho de mais, somaticamente no corpo há um sítio onde a angústia dá sinal (pode ser no queixo, pescoço, coluna, braços, esfíncter colapsado).

A liberdade emocional anda de mão dada com a responsabilidade emocional. Tenho de me dar conta de tudo o que me afecta e de onde me afecta, decidindo para onde vou dirigir isso.

Quando não estou conectado com o meu Eu mais profundo não entendo a minha raiva e em vez de expressar: “Estou triste, é difícil que vás embora da minha vida”, digo coisas como: “Se te vais embora a minha vida acaba! Não vou saber sobreviver!” (Dependente), ou “Não és tu que queres ir, sou eu que te coloco fora” (Controlador), ou “Vais pagá-las!” (Competitivo).

A verdadeira expressão é quando consigo integrar numa dança entre: o que sinto, o que penso e o que faço.

Quanto mais tempo passar entre a expressão da minha raiva mais transformado e enganador vai ficar aquela história e mais cheia de coisas intermédias. No fundo todas as coisas que me desconectam no presente têm a ver com coisas mal resolvidas, coisas não expressas.

A raiva saudável é a que me mobiliza para tomar um partido, para algo que me ajuda a equilibrar. A raiva patológica é a que expressa uma emoção diferente da que existe em nós na realidade.

Fontes de raiva:

O que me dá mais raiva: A traição? A mentira? A indiferença? A exploração? O que é insuportável para mim?

- Traição: é um insulto à minha auto-estima, porque alguém faz algo não me dando valor suficiente. Para quem tem fraca auto estima a traição é “mortal”.

- Mentira: quando alguém me mente sinto que não sou merecedor da verdade e que sou tratado como um débil mental, não sou visto como alguém importante, sou tratado como alguém que é incapaz.

- Indiferença: alguém me diz que não me vê, não me valorizam, então eu insurjo-me!

- Exploração: em que curiosamente eu permito. Tenho dificuldade de colocar fronteiras. Fico num lugar muito tempo mesmo quando não é bom para mim (tal e qual como alguém que é muito contido fica um alvo fácil de exploração até que um dia explode).

Como seria a expressão normal da mágoa?

Tristeza? Choro? O trabalho é sempre interno, de inclusão e digestão de tudo o que nos acontece, é lógico que com o outro à frente ajuda a que seja feito de forma mais concreta. Mesmo que tenha passado algum tempo pode-se marcar um encontro (não esperando nada) e dizer como me senti e que fui ferido.

Muita gente acha que é compassiva e super evoluída, mas surpreende-se cedendo a emoções primitivas.

No verdadeiro processo de evolução, temos capacidade de lidar com qualquer mágoa, connosco e com o outro. Eu entendo, acolho e permito dar-me conta de que estou com este sentimento. Quando nós conseguimos não só racionalizar como aceitar, respirar e incluir esse sentimento, fica muito mais fácil.

O que seria o saudável? Imaginemos por exemplo que temos de caminhar conjuntamente com o amor, a tristeza, a raiva, a alegria, a compaixão. Se imaginarmos que têm corpo físico como o de uma pessoa, como os vamos organizar para não perdermos nenhum de vista? Como vamos caminhar na rua movendo tudo de forma harmoniosa? Parece uma brincadeira, andar e mobilizar-se e incluir tudo, damo-nos conta de que fica difícil incluir tudo e que é difícil mover-me se não encontrar forma de os dinamizar, a clareza que tenho de ter é que não arrancamos a nossa história. A nossa história não muda, o que muda é a forma como danço com ela, como expresso, como me movo, como posso expressar a mágoa e como posso estar em frente à mágoa com alguém que me faz recordar isso e aceitar e integrar, entendendo de onde vem (de onde conhecemos este sentimento? Quando começamos a fazer isto?)

A expressão adequada da raiva é uma modulação em que eu me faço entender e me expresso. O que acontece habitualmente é que faço uma má expressão no momento e escolho pessoas parecidas com a família de origem (por exemplo: pai ausente transposto em homens indisponíveis), como se o mundo me desse uma nova hipótese de resolver. Sistemicamente chega a ser assustador, acabamos por repetir situações que tão bem conhecemos. Se algo é bom e resolvi é continuidade, se não é, é uma repetição.

Recorremos a esquemas mentais e emocionais tentando não morrer de dor, mas ao evitar a morte evitamos a vida.

O controlo das emoções é uma armadilha, não é o controlo mas sim a auto regulação que promovemos na Biossíntese. Tem a ver com uma gestão entre visceral, mente e ação. Só incluindo tudo saberei gerir.