28 de outubro de 2011

Safira

O CPSB através deste comunicado quer mostrar o seu, carinho, amor e suporte a esta pequena heroína , Safira.

À Mãe da Safira, Gabriela Freitas, nossa aluna finalista do Curso Pós-Graduação em Psicoterapia Somática em Biossíntese, e aos seus familiares que iniciaram o que poderíamos chamar de uma "cruzada" para salvar a vida da sua filha Safira e enfrentar, por isso e para isso, profissionais do sistema de Saúde de Portugal de um departamento concreto do IPO que agiu de uma forma desumana e contra os princípios básicos do que entendemos que é o verdadeiro acto de cuidar.

Convidamos todos a assistir à "Grande Reportagem - SAFIRA” do Jornal da Noite da SIC de Domingo e a comprar a revista "Visão", onde consta a reportagem que desvenda esta história.

Acreditamos que entre todos, poderemos melhorar, sensibilizar e assim evoluir para um mundo melhor e mais saudável.

11 de maio de 2011

A criança indesejada (Por W. Reich)

A criança indesejada (Esquizóide)

Wilhelm Reich introduziu o conceito da ciência e da caracterologia e os seus cinco tipos básicos de caráter. Cada tipo de personalidade tem um conjunto de posturas corporais, musculares esqueléticas, estruturação, forma de tocar, de sentir, formas de contato com o mundo e também um conjunto cognitivo e emocional de questões equivalentes, além de uma máscara ou a aparência que apresenta ao mundo.

O termo "esquizóide" é um velho termo psiquiátrico que Wilhelm Reich, Alexander Lowen, e John Pierrakos tendencialmente utilizam em terapia Reichiana, Bioenergética e Core Energetics, respectivamente. Esta estrutura de caráter é também referida como a "criança indesejada" ou o "sonhador", ao trabalhar com clientes de uma forma mais arquetípica, que é menos patologista.

A necessidade de ser querido e aceite é uma necessidade primária de segurança de cada pessoa. Não podemos progredir muito nas nossas necessidades de sobrevivência, a menos que satisfaçam essas necessidades básicas de ligação com alguém que nos ajude a sentir segurança e incluídos. Nascemos e fomos concebidos para fazer parte de uma família e uma comunidade e encontrar o nosso lugar lá dentro, com um senso de segurança para com a vida.

A criança indesejada percebe ou experimenta essencialmente nos seus primeiros anos de vida (desde a concepção, o nascimento e depois disso), uma recepção hostil em que foi rejeitada: não apenas na sua própria natureza e humanidade, mas simplesmente por existir. A criança sentiu-se ameaçada e insegura e pode ter tido vontade de não continuar a viver.

A dinâmica da infância que define uma pessoa como tendo uma personalidade de criança indesejada, dá-se geralmente em situações em que o meio ambiente (que normalmente é representado pela mãe, ou o que está a acontecer com a mãe), se torna hostil contra o feto vulnerável e totalmente dependente.

O processo começa na concepção, quando uma criança entra fisicamente em relacionamento com o seu ambiente. A criança desenvolve- se e cresce dentro do útero. O seu mundo está contido na barriga da mãe, dentro da placenta que é como uma grande membrana celular, na medida em que traduz os estímulos do ambiente externo da mãe em sinais de transcrição que, em seguida, vão afetar o desenvolvimento físico do feto.

Este é um conceito importante, que subverte a antiga ciência mecanicista que declara que somos concebidos a partir do nosso DNA e desenvolvemo-nos a partir de um modelo fixo de algum tipo. Na verdade, desenvolvemos a nossa herança de DNA, mas os sinais do nosso meio ambiente também afetam o processo de replicação celular, usando partes do DNA, desenvolvendo-nos na adaptação e resposta ao nosso meio ambiente.

Daqui resulta que tudo o que está a acontecer com a mãe, influencia a percepção do feto. O bebé é afetado tanto pelo estado físico da mãe, como pelo estado emocional e a sua percepção do seu lugar no mundo. Isto porque tudo o que acontece com a mãe, então, de alguma forma traduzida, acontece com a criança.
Sabemos, por exemplo, que o álcool ingerido pela mãe durante a gravidez pode causar mutação e corrupção no desenvolvimento da criança, um resultado conhecido como síndrome alcoólica fetal. As substâncias tóxicas podem causar estragos ao frágil processo de desenvolvimento que se está a construir no ventre. Isso só pode ser recebido pela criança como um ato hostil ou de um ambiente hostil.

Da mesma forma, a mãe produz também uma gama de hormonas, neurotransmissores, substâncias químicas e que regulam o seu próprio sistema corporal. Quando a mãe vai para o simpático ou Estado do Sistema Nervoso Autónomo, libera substâncias químicas chave que atingem o feto através da corrente sanguínea. Em adultos, esses produtos químicos produzem hiper-vigilância, ansiedade ou agressividade.

Se a mãe não cuida de si mesma corretamente durante a gravidez com uma dieta adequada, especialmente onde já existe um problema de desnutrição, ou de toxicidade de drogas, álcool, junk food ou bebida, o impacto sentido pelo feto será provavelmente de forma negativa.

A mãe num estado parassimpático ou relaxado, produz uma criança feliz e bem desenvolvida, muitas vezes com nascimentos fáceis. Acredita-se que o desenvolvimento do feto sob o estado “Simpático” fica "ferido" para além do físico, guardando uma sensação de ser "indesejado", "rejeitado", "não amado", de "ódio", ou de "insegurança" no mundo. Ninguém sabe quando o feto desenvolve a consciência. A partir de estudos de caso de personalidades tipo “criança indesejada", eles parecem ter um profundo senso de alienação, medo, horror e hostilidade em relação ao tempo no útero, onde tais condições existiam.

A história normalmente mostra também uma mãe que não foi muitas vezes capaz de estar lá para a criança. Esta desconexão ou auto-obsessão pode ocorrer quando a mãe pode: ter sido pressionada, incapaz de lidar com a gravidez; ter sido uma gravidez indesejada ou difícil, ter sido forçada a trabalhar durante longos períodos de tempo em vez de descansar e cuidar da criança e dela mesma; a mãe pode ter sido mãe solteira, ter já vários outros filhos mais velhos para cuidar, estar em situação de pobreza ou com falta de recursos ou viver numa zona de guerra ou desastre, muitas são as possibilidades que levam a um mesmo fim.

A mãe pode ainda estar num relacionamento perigoso ou abusivo, ou o companheiro da mãe pode ser emocionalmente desligado ou ressentir a presença da criança por nascer, ser incapaz de se comunicar emocionalmente com a mãe, e não a apoiar, ou atacar com raiva a mãe e, portanto, ser sentido  como contra a criança. Por padrão, o que afeta a mãe e a torna insegura, então fará a criança sentir-se insegura ou indesejada.

O nascimento da criança também pode ser traumático e criar o sentimento de hostilidade e do mundo ser perigoso para a criança. A mãe pode não sentir vínculo com a criança ao nascer, ou sofrer de depressão pós-parto, ou ter dificuldade em conseguir amamentar. O nascimento pode ser traumático para a mãe ou para a criança, ser um trabalho longo, com complicações, que podem levar à hospitalização da mãe ou da criança, e assim forçar a sua separação.

De muitas formas, o nascimento hospitalar ocidental dos últimos 50 anos foi despersonalizado, passando a ser um evento frio e traumático para muitas mães e os seus filhos. A moda de mães que querem um parto cesariana cria vários problemas na criança. O processo natural do parto tem sido provado como benéfico para o revestimento da criança com ocitocina o que ajuda a forjar o vínculo mãe-filho no nascimento. A interrupção deste processo tem sido associado a depressão pós-parto. O nascimento da criança faz com que ele tenha a sua cabeça ligeiramente comprimida, o que ativa o seu cérebro para compensar certas funções de sobrevivência, como a respiração, comprimindo também os pulmões para expulsar fluídos e criar o vácuo inicial que faz com que os pulmões comecem a respirar. Tudo isso é interrompido por nascimentos por cesariana que agora são admitidos e promovidos pelos médicos.


Qualquer que tenha sido a experiência da mãe e do seu ambiente (internamente ou externamente), a situação pode continuar quando o bebé chega a casa. Se a mãe estava deprimida ou infeliz durante a gravidez, o mais provável é que pouca coisa tenha mudado. Na verdade algumas dinâmicas pioram quando a criança está presente, exigindo, chorando e querendo atenção, amor e nutrição. Todos estes factores podem acrescentar à dinâmica experiências negativas para a criança.

As crianças nascem com inteligência instintiva e forte capacidade de codificação tanto para a leitura de rostos de pessoas, entoações de voz, gestos e outras pistas. A criança aprende rapidamente se na verdade é querida, amada, está segura e pode relaxar ou não. O problema para a criança é que, como só tem um sistema nervoso primitivo, tem poucas opções e estratégias psicológicas para lidar com as ameaças percebidas ou a hostilidade por parte de seus cuidadores e / ou ambiente.
Basicamente, o bebé tem apenas a capacidade de dissociar a partir de uma dinâmica aterrorizante ou uma ameaça, a fim de sobreviver a estímulos negativos ou ameaças. Nesta fase inicial da vida, parece haver uma generalização feita pelo feto e o bebé de que toda a vida em geral é insegura, como consequência de um único episódio grave, traumático ou repetido que encontrou. Esta será, então, a disposição negativa e a expectativa que o bebé vai levar para a infância e depois para a idade adulta, e isso será particularmente desencadeado em situações sociais.

O terror é o sentimento primário que vem à superfície nesses indivíduos, deixando-os ansiosos e hiper-excitados ou desligados e hipo-despertos. O adulto será tipicamente hiper-vigilante e vive quase que continuamente no estado “simpático”. Temem particularmente qualquer semelhança com o que constituía a forma original e experiência traumática. Eles tendem a compensar, em adultos, através do isolamento social, retiro em sonhos imaginários ou mundos, ou mundos virtuais na internet, que ajudam a evitar ou escapar nomeadamente de eventos de natureza social.

A criança indesejada tende a recriar a sua hostilidade percebida nas escolhas que faz sobre si mesma e nas relações e ambientes da sua escolha. A criança não desejada, como adulto, tende a internalizar reações de hostilidade dos cuidadores, e assim vai recriar a mesma hostilidade para si mesma a partir do seu inconsciente. Podem entrar numa relação abusiva com parceiros que são emocionalmente desligados ou têm raiva e questões não resolvidas.

A compensação típica para o filho indesejado é a fuga ou para a espiritualidade, a realidade virtual, ou para uma forma vertical de especialização, em que comandam de uma forma rígida e perfeccionista, e no qual podem operar com segurança. O escapismo é uma forma de dissociação, e quando feito de forma isolada, auxilia na possibilidade da pessoa se sentir segura. As atividades sociais são terríveis para muitos indivíduos.

Como o mundo é cruel e hostil para o filho indesejado, eles tendem a idealizar e buscar refúgio espiritual em práticas espirituais dissociativas como a meditação, contemplação, solidão e atividades de retiro longe da vida. Eles relatam um sentimento de afinidade com o espírito, querendo sair desta vida e voltar para o espírito, que é a sua verdadeira herança. Podem ter idealização suicida e pretenderem ficar fora do corpo que vêem como estranho, uma fonte de dor e sofrimento e que não é seguro para eles, como se sentem ameaçados pelos seus próprios sentimentos, desejos, impulsos, podem sentir que parte deles está possuída ou é má.

Eles podem não ser capazes de ligar os seus sentimentos aos seus pensamentos. Também podem esquecer as coisas e sentir pânico ao tentar recordar a informação, aumentando a sua ansiedade, o que pode desencadear um ataque de pânico. Na medida em que sofreram traição de confiança vinda dos seus cuidadores. Verdade e confiança são os principais temas do filho indesejado. Eles só confiam na verdade e estão atentos a quando a verdade é traída, usando isso como prova de que a confiança não pode existir neste lugar ou pessoa.
São muitas vezes intuitivos, alguns diriam psíquicos. O problema é que muitas vezes projetam os seus terrores internos e renegam sentimentos hostis para com os outros, e depois "lêem" essa informação de volta como se ela existisse do lado da outra pessoa. Em seguida, essa distorção leva a percepcionar pessoas e ambientes bons e seguros como sendo perigosos, hostis e terríveis.

O resultado de uma personalidade predominantemente “criança indesejada”, pode ser resumido como uma pessoa em estado de choque, que agora está congelada e comprometida. Podem parecer frios ao toque e energeticamente mortos.

O corpo tende a mostrar a contração dos músculos e dos movimentos que levaram ao impulso original que resultou na hostilidade, frustração, dor e negatividade. Os músculos cronicamente contraídos, afetam a postura e, possivelmente, afetam a regulação do sistema corporal e as suas funções. A pessoa perde o movimento espontâneo. Isto ocorre para minimizar a dor do sentimento. A pessoa fecha-se em si mesmo, amortece e sobrevive.


O corpo parece duro e move-se mecanicamente. A criança teve que passar por um processo de auto-negação onde renegou os seus impulsos, diante de intenso ataque e hostilidade muitas vezes de cuidadores, o que produziu terror e dor. A maneira fundamental de fechar-se esses no organismo é restringindo a respiração, este caracter de filho indesejado tem geralmente uma respiração superficial.
Isso é observável na tensão e constrição dos músculos do tórax, os músculos intercostais apertados entre as costelas, que contraem a respiração e ombros levantados, criando assim uma constrição no peito. O adulto “criança indesejada”, mostra muitas vezes uma restrição também na garganta que pode resultar numa voz estridente e um pescoço musculoso. A garganta é restrita, a pessoa engasga quando ansiosa ou mais excitada, os sentimentos são de corte entre o corpo e a cabeça. A pessoa geralmente tem escoliose, lordose e cifose, como uma expressão de torção para longe do terror.

Algumas pessoas do tipo “criança indesejada” manifestam um organismo desnutrido que lembra alguém que precisa de comer mais, ou que parece que esteve num campo de concentração. Normalmente têm um corpo musculoso e veias, músculos e ossos proeminentes. Regra geral não estão em contacto com os seus impulsos que são reprimidos e muitas vezes não estão cientes da própria fome, sede, calor ou frio. Geralmente vestem-se de forma inadequada e não se alinham com o seu ambiente.

Pode haver um maior destaque da maçã de Adão na garganta, uma garganta estreita e musculosa, um buraco profundo no fundo da garganta e da cabeça pode ser verificado com rigor.

Os olhos são marcantes nesta personalidade, normalmente são profundamente expressivos do choque congelado do terror que enfrentaram no útero e do que quer que os traumatizou. Os olhos denotam a falta de calor ou não respondem e ficam congelados ou fixos, classicamente vagos quando dissociam.

Estes bloqueios físicos têm como função impedir que a pessoa se torne consciente dos sentimentos e evitam a visão do objeto de hostilidade. Como consequência, podem frequentemente usar óculos ou ter problemas de visão.

Geralmente têm bloqueios profundos no queixo e os músculos faciais mostrarem-se dolorosos quando pressionados. Da mesma forma, muitas vezes desenvolvem bruxismo ou ranger de dentes, devido à raiva e terror que se expressam na mandíbula (no bebé expressa a necessidade de suprimir a vontade de gritar de horror ou de obter a sua nutrição oral e ver as suas necessidades satisfeitas).

O efeito de diluição é observado nos membros, que também podem mostrar uma cor pálida e ser frios ao toque nas suas extremidades, como nos pés e nas mãos, podendo a circulação ser um problema na idade adulta. Esta personalidade terá desenvolvido também bloqueios profundos na utilização dos braços. Pode haver tensões crónicas nos ombros e nas costas, nos peitorais e entre as omoplatas. As articulações também sofrem com o efeito de congelamento do corpo o que ampliado pode se objecto de Artrite Reumatóide mais tarde na vida.

O tronco pode parecer desporpocional (sobretudo membros e cabeça) e haver uma assimetria geral. Esquerda e direita podem ter diferente tamanho. Os abdominais e músculos abdominais inferiores são apertados para impedir a respiração completa. A bacia é frequentemente bloqueada e congelada com a presença de menor tensão para trás, podendo ter problemas de quadril e escoliose, cifose ou lordose.

As pernas normalmente finas, mostram enrijecimento dos joelhos, que por sua vez afeta a tensão crónica que já sentem nas costas, para compensar inclinam a pélvis para a frente na posição fechada ou congelada. Os pés instáveis refletem a sua fragilidade no mundo. Esforçam-se frequentemente com a postura de equilíbrio, questões que reflectem a sua luta na vida.

O “filho indesejado” é descrito como sendo "bloqueado" num sentido energético. Isso reflete-se nos seus corpos abandonados ou desnutridos. No entanto a energia existe, só está presa. Eles sentem a tensão da energia bloqueada querendo fluir como uma força alienígena o que os faz sentir terror, medo da sua própria raiva e os faz sentir mal.

Referências
1.     Character Analysis, Reich Wilhelm, 1975, 5th enlarged edition, New York, Farrar Publishing.
2.     Bioenergetics, Lowen Alexander, 1976, Penguin books, New York.
3.     Language of the Body, Lowen Alexander, 1971, MacMillan, New York.
4.     Character Styles, Johnson Stephen, 1994, W.WW Norton & Co New York.
5.     Characterological Transformation – The Hard Work Miracle, Johnson Stephen, 1985, W.W. Norton &Co New York.
6.     Free Yourself 1 – Releasing Your Unconscious Defence Patterns, Marquier Annie, 2005, Findhorn Press, Scotland.
7.     Free Yourself 2 – The Power of the Soul, Marquier Annie,2005, Findhorn Press, Scotland.
8.     Biology of Belief, Lipton Bruce, 2005, Mountain of Love/Elite Books, USA.
9.     Core Energetics, Pierrakos John, 1990, LifeRhythm Publication.
A expressão e libertação dos impulsos bloqueados é equiparada à ilusão de que isso irá aniquilá-los. Eles fecham-se e amortecem o corpo, ainda, que tendo a mente em movimento, como uma defesa contra a libertação de vigor e energia, reforçando assim os bloqueios.

4 de março de 2011

Teoria da couraça, de Reich

Wilhelm Reich foi um dos que mais contribuiu para o desenvolvimento das ciências da mente-corpo do início do século XX, sendo reconhecido como o principal motor deste tipo de investigação científica no Ocidente até a década de 40. Reich propôs um modelo da condição humana, que postulou uma teoria da energia como sendo uma componente fundamental de toda a matéria e espaço, um conceito que ele chama de energia “orgone”.

Reich afirmou que desenvolvemos uma couraça muscular que bloqueia a nossa energia. Ele afirmou que "Blindagem é a condição que ocorre quando a energia é ligada pela contração muscular e não flui através do corpo" (Reich: 1936). Ele verificou que existia blindagem de carácter que ele definiu como "a soma total das atitudes típicas de caráter, que um indivíduo desenvolve como um bloqueio contra a sua excitação emocional, resultando em rigidez no corpo e falta de contato emocional". Ele definiu a couraça muscular como "a soma total de musculares (espasmos musculares crónicos) que um indivíduo desenvolve como um bloco contra a irrupção de emoções e sensações de órgão, particularmente ansiedade, raiva e excitação sexual" (Reich: 1936).

Alexander Lowen, que era um associado de Reich, resumiu esse efeito global: "o carácter do indivíduo como ele se manifesta no seu padrão típico de comportamento, também é retratado ao nível somático pela forma e o movimento do corpo. A expressão corporal é a visão somática da expressão emocional típica que é vista a nível psíquico como carácter. Defesas aparecem em ambas as dimensões, no corpo como couraça muscular." (Lowen: 1976).


Reich estabeleceu então uma teoria de segmentação da blindagem para explicar como o corpo estabelece o seu equilíbrio psíquico. Nesta teoria falamos de sete segmentos do corpo onde existem tensões ou se desenvolve blindagem muscular, e onde as contrações segmentares são perpendiculares ao fluxo de força vital ou energia orgone no corpo. Na verdade o conceito de Reich dos 7 segmentos também pode ser correlacionando ao sistema de 7 chakras da Filosofia Oriental, de muitas formas a premissa é basicamente a mesma da proposta pela filosofia oriental, mas colocada de uma forma ocidental, que tenta ser mais quantitativa e dedutiva.


Estes são os sete segmentos que foram delineados por Reich:
1. Ocular ou olho
2. Oral
3. Cervical
4. Torácica
5. Diafragma
6. Abdominal
7.
Pélvica


Esta teoria, fala de 5 caracteres primários. As características das cinco estruturas básicas de caráter arquetípico são resultados previsíveis com base nas teorias de blindagem de Reich, e dizem-nos muito sobre a história pessoal de uma pessoa já que está escrito no corpo.

Reich também delineou o conceito de um bloqueio realizado no corpo, que pode apresentar sinais físicos de manifestação. Bloqueios mostram frequentemente um dos 7 segmentos em excesso, descarga, tensão e sobrecarga.
Essa interação dos 7 segmentos constitui a etiologia das 5 estruturas de carácter primárias, que não são formadas de forma isolada  um segmento, mas sim relacionam-se com a economia de energia e a regulação entre os segmentos.

Referências:
1.     Character Analysis, Reich Wilhelm, 1975, 5th enlarged edition, New York, Farrar Publishing.
2.     Bioenergetics, Lowen Alexander, 1976, Penguin books, New York.
3.     Language of the Body, Lowen Alexander, 1971, MacMillan, New York.
4.     Wilhelm Reich : The Evolution of his Work, Boadella David, 1973, Vision Press, Chicago.

Brevemente, mais informações sobre cada um dos tipos de carácter.

24 de fevereiro de 2011

Caracterologia

Nos próximos dias vamos disponibilizar neste blog textos relativos a Caracterologia, que são os primórdios do trabalho do nosso muito respeitado Wilhelm Reich, que foi o pai da Psicoterapia Corporal.

Toda a informação contida é uma adaptação/tradução do trabalho internacional desenvolvido pela corrente Bionergética que é incluída e integrada no trabalho da Biossíntese, para além de outras correntes terapêuticas e de pensamento.

Wilhelm Reich é considerado o criador ocidental da ciência de psicoterapia mente-corpo.

Freud e os primeiros psicólogos descobriram que existe um processo de desenvolvimento infantil, conhecido agora como janelas de plasticidade no cérebro, onde a criança em desenvolvimento tem as suas crenças, sentimentos e apego aos pais, a outros e a objetos, o que influencia de forma positiva ou negativa. Wilhelm Reich explorou, analisou e propôs pela primeira vez, os arquétipos de trabalho de cinco tipos principais de grupos personalidade individual, que desenvolveu a partir deste processo onde a paragem do desenvolvimento ocorre. Reich explorou como os antigos padrões de relacionamento e apego aos outros, se problemático, interrompido, ou sujeito a trauma, pode ficar "ligado" ao cérebro e ao corpo, e ser depois repetido na idade adulta. A postura literal, a forma do corpo, os depósitos musculares e de gordura contidos no corpo, assim como o funcionamento dos sentidos e dos órgãos (por exemplo, visão), são afetados neste processo, desenvolvendo como resultado uma correlação entre a estrutura corporal e uma forma de personalidade com as suas defesas emocionais e mentais ou adaptações face à vida. Isto é o que Reich chamou: Caracterologia.

Os 5 tipos de carácter reichiano

Existem 5 tipos principais, cada um com sub-tipos, sendo que ninguém é normalmente um só tipo de carácter. Somos uma mistura de todos eles, em algum nível, mas normalmente um ou dois predominam e revelam a nossa defesa primordial física, emocional e de personalidade mental ou a nossa postura perante a vida.


(Mais informações sobre cada um dos tipos de caráter podem ser encontrados aqui em breve.)

1 de fevereiro de 2011

EXPRESSÃO E COMUNICAÇÃO PSICOEMOCIONAL

A proposta do último Workshop passou pela abordagem ao contacto com as emoções e o contacto com o nosso eu, sabendo como é que eu faço isso.
Emoção, é um tema que nos domina de uma ou outra forma (mais positiva ou mais desestrutura), seja porque em contacto com as emoções vamos para a cabeça (o racional) para não sentirmos, seja porque não podemos ir para a mente e vamos para a explosão porque não dá para aguentá-las, seja porque não dá nem para aguentá-las nem para parar de pensar, então fazemos qualquer coisa para nos desconectarmos da emoção. Mas cada um tem uma forma de conectar-se com esse mundo emocional que nos acompanha desde que começamos a existir, algo que começa ainda no útero materno.
A Biossíntese, como palavra, quer dizer integração da vida. David Boadella, que foi o criador desta escola de pensamento, no seu processo de desenvolvimento (começou por ser professor) deu-se conta de que na realidade somos muitas coisas ao mesmo tempo: somos cabeça, emoção, corpo, temos energia, temos parte espiritual diferente para cada um. Não somos fragmentos, somos várias dimensões numa só. E separar a mente do corpo, a razão da emoção, a acção de tudo o resto, termina por ser um absurdo, leva-nos a um auto engano que de facto nos dificulta a comunicação desde o nosso interior para o exterior e complica essa digestão do que vem do exterior para o nosso interior.
Por isso, sem dúvida para nós podermos cuidar desse nosso mundo emocional, precisamos de partir da ideia e da realidade de que todos formamos várias dimensões e que dentro de nós também temos várias dimensões.
Então, não é possível haver essa separação da mente, corpo e emoções na prática? Na prática o que acontece é que tentamos (e por vezes fazemos isso tão bem), tendo histórias tão difíceis, que por vezes agimos mais com uma parte do que com outra o que não quer dizer que não exista a outra, significa que ela fica submersa, daí que em psicologia corporal falamos de bloqueios: bloqueios entre o pensar e o sentir, ou penso só ou sinto só, não quer dizer que faça só isto, mas é aquilo que se manifesta mais em mim. Por isso há pessoas que são mais emocionais e outras mais racionais, outas querem só agir, estar ocupadas.
Desde há muito tempo os pensadores têm vindo a constatar que o ser humano tem todas estas dimensões e somos um todo. Então Psicoterapia corporal porquê? O nosso corpo, junto com a nossa mente, acompanha-nos em toda a nossa existência e está connosco desde que somos desejados, já no útero materno como célula tão pequena em que a mãe já tem uma história, até à formação do bebé. Somos seres que estão em constante contracção, porque todo o nosso corpo, e todo o nosso eu, está sempre para dentro/para fora, coração válvulas, hormonas, corrente sanguínea, respiração, tudo em nós é pulsatório e vibra. Desde o útero materno que começamos a receber influências de fora, e nesse contacto com essas sensações, o bebé, se há algo difícil, algo que vem de fora e me assusta, tenta encontrar o equilíbrio e vai reagir defendendo-se, esse movimento acompanha-me a vida toda. Quando não há conflito, quando sinto que posso ou que algo é bom eu abro, quando há conflito interno, ou sinto que algo vem contra mim e me assusto eu fecho. Isso acontece desde pequenino e acompanha-me a vida toda.
Durante a gestação de um novo bebé, começam a criar-se os pilares desse ser emocional, que age, e é um ser pensante. E sabemos que no 1º trimestre da gravidez começamos a elaborar e amadurecer as vísceras, que são as responsáveis pela nossa expressão emocional.
Onde sentimos a raiva? Algures na barriga. O medo? Algures na barriga. As emoções básicas: ansiedade, medo, angústia, alegria, funcionam num primeiro momento de reacção e expressão no nosso mundo visceral: vesícula, fígado, coração, estômago, intestino, pulmão, etc. e estão ligadas a essa primeira fase de desenvolvimento desses pilares para criarmos esse sistema visceral responsável pela nossa vitalidade, que começa logo a reagir ao mundo.
E começa a reagir ao mundo fazendo esse movimento. Então, se o que aconteceu foi difícil, já deixou uma marca visceral e o bebé tenta defender-se indo para algo que não seja tão difícil. Uma possibilidade é ir por exemplo para a cabeça para defender aquele lugar que está a ser construído e que precisa e vitalidade. Então por vezes encontramos casos em que se a gravidez ou a gestação foi difícil e já aí começaram por haver marcas, depois, dependo da marca e do tempo em que se repita e em que há um efeito nocivo na pessoa na infância, etc., já há uma tendência para a criança ir para a mente, para o racional. Uma possibilidade: se por exemplo na família à volta da criança há muita emoção e muita angústia, ou a família é desestruturada, a criança vai tentar defender-se ou ficando muito agressiva dizendo “não quero!” ou refugiando-se na mente, racionalizando ou indo para mundos paralelos, amigos imaginários, fantasias, elaborando todo esse mundo criativo que a salva daquele mundo real tão difícil.
Na realidade, para nós nos entendermos, temos de saber como me organizei para lidar com aquele primeiro mundo que eu tive. Porque nesse primeiro momento todos tivemos alguém que cuidou de nós, uma vez que no início somos dependentes, todos tivemos alguém que interagiu connosco, uma mãe, pai, tio, avó, instituição, mais ou menos acolhedor, mais ou menos saudável, que interagiu connosco e nos permitiu ao sobrevivermos fazermos o nosso melhor para lidarmos com a angústia ou a frustração.
A proposta do David Boadella é juntar todas as dimensões, as dimensões biológicas do corpo que se organiza, gerindo todas as emoções que vêm do mundo, integrar gestão das emoções, da memória, do cognitivo, etc. por isso a época cartesiana em que mente ia para um lado e corpo para o outro, já não serve. Se olhamos só para o estômago, perde-se uma quantidade de informação valiosíssima. Porque é que o estômago chegou a esse estado? Porque é que o corpo deprimiu? Porque é que se repete talvez na família? Desde quando tenho esse mal-estar? Como lido com a doença? Aceito porque faz parte do processo ou dá-me raiva? Por vezes na saúde ainda damos com um cuidador ou tratador que olha para o sintoma de forma desconectada com as outras dimensões, e na realidade não se pode tratar a doença olhando só para uma parte, fragmentada.
Ganhamos a pulso todas as doenças que temos. As hérnias, por exemplo, não aparecem de repente, aparecem porque coloco o corpo em desequilíbrio, má postura, excesso de peso, carregar tensão, etc. Porque é que a minha imunologia desce? Porque deprimo, porque stresso, porque na hora de lidar com a vida não cuido de todas as dimensões e não consigo digerir que há um discurso que me provoca algo. O meu corpo é outro recurso que me pede socorro, ao aparecer algo na pele por exemplo, diz-me que tenho potencialmente um problema de contacto; ou surge algo no estômago dizendo-me que as emoções não estão a ser bem digeridas; ou o intestino fecha para me fazer ver que já não dá para engolir mais coisas. O meu corpo vai reagindo para tentar encontrar um equilíbrio reduzindo essa angústia.
No contacto com outras pessoas e com as sensações que nos provocam reactividade, o corpo também mexe. Na memória de construção de emoções, o pai e a mãe são crescidos. Se o pai era rígido e me dava medo quando era pequeno, se colocava regras rígidas ao meu comportamento e eu não podia expressar o que sentia, nem a minha autonomia e liberdade e eu tinha de sentir medo, o corpo contraiu. Se isto foi demais, vou começar a andar com aquele jeito e fica algo clássico de quem não foi nutrido o suficiente.
Outros criam um buraco no estômago por terem sido negligenciados (não porque os pais e educadores são maus, eles simplesmente fizeram o melhor que puderam), mas essa é a minha história, deixa no meu corpo dores que em contacto com algo parecido na vida actual me fazem responder no presente com a mágoa da criança.
Ao tocar nessa mágoa eu fico em contacto com a dor, então eu abandono antes de ser abandonado, ou eu maltrato por exemplo alguém que amo. Ás vezes eu quero tanto uma coisa e tenho tanto medo de a perder que a chuto, é uma possibilidade. Ou quero tanto algo, por ser dependente, que sufoco o outro com a minha necessidade e o outro fica esgotado. Há pessoas que nos chutam outras que nos esgotam, outras que nós esgotamos ou que chutamos.
É interessante entender como é que nós nos construímos. Mas há uma memória sem dúvida, no nosso self, no nosso eu, que em algum lugar na nossa história teve de se construir. Quanto mais difícil foi a história ou como eu a vivenciei nos primeiros momentos, mais difícil é para mim lidar hoje com as emoções. Então dominam-me porque ou fico a racionalizar tudo (a queixa de quem convive com algum racional: não falas, não te expressas, precisamos de saca rolhas. Fala! E a pessoa fecha-se mais ainda). Por vezes essas primeiras histórias são chatas de recordar, foram há muito tempo, mas foram o nosso primeiro estágio com as emoções e esse mundo novo de sensações.
O primeiro estágio com as emoções começa desde o primeiro momento, até hoje. Começa no útero, no que a mãe sente, vive, diz e o cuidado que a mãe tem. Às vezes é falta de mãe, outras é excesso (que são aquelas que fazem tudo tão bem que não deixam os filhos expressar o que sentem e que querem).
Passam os anos e até eu digerir e me mobilizar de forma saudável por vezes passa muito tempo. Há frases, coisas que ficaram na auto estima, na auto imagem, que me fazem ficar desconectado dessa expressão de liberdade emocional.
O que seria a liberdade emocional?
Se pedissem para construir uma personagem, uma pessoa, com liberdade emocional, como seria?
As respostas dos participantes construíram esta personagem: “Seria uma pessoa expansiva, em equilíbrio, fluida, alegre, extrovertida, com voz, com postura recta mas flexível, descontraída, espontânea, com carga, assertiva, que sinta e que expresse no momento, que olhe nos olhos, que seja responsável”.
Liberdade e responsabilidade andam de mãos juntas. Significa que tenho em conta o meu interior e o meu exterior, a mim e aos outros.
Liberdade emocional é o contacto com o nosso eu, em que nos permitimos desfrutar verdadeiramente das coisas que a vida tem para nos dar: o prazer, dos sentidos, das cores, da comida, de tudo o que nos envolve, das pequenas coisas, da sexualidade, de lidar com os fantasmas da nossa história, etc.
 Temos histórias e fantasmas que achamos que nos impedem de ter liberdade emocional com responsabilidade emocional. Existe como crença, porque fazemos uma alimentação com as melhores vitaminas que construímos, achando que nos faz mais fortes para manter (que é do humano) esse contacto com a mágoa. Mas na realidade qualquer pessoa, seja qual for a história que tiver, mais ou menos difícil, tem a possibilidade de poder ter esse contacto fluido com as emoções, com a expressão, com dizer na hora o que se sente. Há uma possibilidade mas tem de haver uma disposição interna, uma transformação da crença em acreditar que é possível essa acção.
Como é difícil expressar o que sentimos? Qual a emoção mais difícil de expressar na hora? As respostas foram variadas: “Desagrado, desacordo, raiva, afecto (dar e receber, mesmo um elogio)”.
Todos nós de uma forma ou outra, viemos de famílias de cultura latina, em que falar de emoções e do que se sente é criar pessoas frágeis e elogiar é criar prepotência. Então encontro no consultório: tanto a dificuldade de poder discordar do outro e dizer “eu não gosto” sem o outro deixar de me amar, como a dificuldade de dar elogios, ou de receber elogios, até mesmo dar elogios a nós mesmos.
Uma das coisas importantes da Biossíntese é que para contactar com algo difícil, parte-se do recurso da pessoa, do diamante que toda a gente tem.
Quais são as coisas que me marcaram? E mesmo com essas vivências difíceis, com tantas coisas que vivemos, o que é que se manteve intacto e até hoje ficou? Foi por exemplo o sentido da estética? A sensibilidade? A capacidade de análise, a capacidade de amar mesmo que se morra de medo? De cuidar? De entender? De ver mais além? É difícil conectarmo-nos com coisas positivas?
Quando mostro as minhas emoções sinto-me na realidade num palco e a ser criticado, mesmo que tenha só à minha frente uma pessoa, sinto em mim as imagens de todos: pai, mãe, vizinho, colega, senhor do talho, etc. porque o super ego (aquele policia necessário), fica por vezes construído de forma tão exacerbada ou cresceu tanto, que quando vou fazer um movimento de expressão ele diz “Ah! Não podes!”. E então vou para casa e fico na ideia do que devia ter feito e não fiz, dito e não disse… e fico no massacre. Ou seja, ao que foi no momento junta-se o massacre que aumenta a ferida, e fico com dois problemas.
Entender este movimento é muito interessante. E estar num palco da vida é também muito interessante, porque realmente eu acho que estou sozinho mas estou acompanhado pelas minhas memórias. As boas notícias: eu posso conviver com isso de forma mais harmónica, posso fluir. As más notícias: é que eu não posso mudar a minha história. Mas de facto eu posso mudar a forma como me relaciono com isso hoje, quanto mais mágoa eu acumule pior. E mesmo quando eu já entendo que algo não é bom para mim, muitas vezes eu repito porque ficou o vício. Quantos de vocês sabem que o que está a acontecer-lhes não é o mais saudável?
A Biossíntese propõe encontrar essa dança saudável entre o que penso, sinto e faço. Para gerir melhor o mundo das emoções, primeiro tenho que me conectar com o que não está ferido e ainda me faz funcionar, o que faço livremente sem esforço. Preciso encontrar onde estou assim. Depois então eu preciso de entender as minhas emoções, saber porque me construi assim, que é uma coisa única.
Nesse entendimento eu preciso de “estar em contacto com”, que é a coisa mais difícil para os racionais, para os emocionais é o mais fácil porque se sente uma “bola” em todo o lado no corpo, aqui ou ali (quem tem isso, temos de o ajudar a subir para o racional, nos outros que estão desconectados do emocional, temos de os ajudar a descer do racional à emoção).
O que é afinal estar em contacto com?
É estar em contacto com o que me está acontecer, seja positivo ou negativo, é permitir estar com isso, seja raiva, seja angústia, em vez de partir logo para onde vou colocar isto? Onde vou depositar? Quem me salva? O que vou fazer para esquecer?
Ficar em contacto com é o mais difícil. Todos nós, de uma ou outra forma estratégica, elaborámos um carácter que me leva a fazer algo com as emoções difíceis, eu tenho que as mover e cada um leva isso ao lado que mais conhece (ou levo para dentro e fico no racional, ou para fora e fico na explosão da emoção ou fico na acção desconectada).
Estar em contacto com é incluir, deixando-nos sentir, respirar em contacto com a emoção.
O contacto com a dor provoca-nos algo parecido com a morte, com um atentado à nossa forma e vitalidade. Então é algo traumático e o meu corpo e a minha essência fica com a ideia gravada de que aquilo dói muito. Só dou conta do susto, de que algo me agride, não o processo depois de me ter reorganizado.
O neurótico tem algo interessante: passamos o tempo todo a evitar a dor da morte e a evitar a dor e com isso ficamos desconectados da vida. Nessa fuga para a cabeça, acção ou explosão ficamos a fugir desse contacto da dor e da morte e com isso fico desconectados da ideia de que posso acolher aquilo. Fujo da possibilidade de dizer: eu sinto-me magoado, por exemplo, em vez de explodir ou sair a correr numa estrutura defensiva em que fico desconectado da possibilidade.
Estarmos em contacto com a possibilidade de liberdade emocional versus responsabilidade emocional, significa sabermos que deveríamos expressar-nos adequadamente e saber se é de facto viável e é possível a outra pessoa entender-me. A experiência de fazer isso, de fazer essa tentativa, quanto mais cedo acontecer em nós, mais facilmente se pode criar um clima de entendimento.
Por vezes, ao tentar expressar-me, os nossos interlocutores estão muito fechados e desconectados disso, ou, muitas vezes, eu acho infantilmente que estão totalmente incapacitados disso (porque muitas vezes somos nós que já os chumbámos dentro de nós e os infantilizámos). Mas também é verdade que às vezes acontece que há pessoas que não têm capacidade de ouvir e eu não tenho que obrigar, porque na responsabilidade emocional eu não tenho que obrigar coisa nenhuma, eu tenho de expressar e ao expressar fica dito e talvez fique com a consciência de que a outra pessoa não vai entender, mas eu expresso como me sinto, mesmo que seja difícil para o outro entender. Às vezes eu não vou ter o retorno do outro, mas tenho esse contacto comigo e com a capacidade de identificar o que me está a acontecer.
Porque liberdade é em primeiro lugar identificar que emoção é aquela que se está a mobilizar para mim, a seguir expressar para mim e depois para o outro, mesmo com a possibilidade de que ele não entenda nada.
Se a pessoa reage indo embora, voltando as costas, isso não significa que eu tenha de ficar só em contacto com a rejeição da outra pessoa, isso sim é o contacto neurótico. Há uma parte de mim que está em contacto com a rejeição e outra parte que está a achar que é o meu direito, eu expressei e não tive eco. A coisa grave é se eu ao expressar-me a outra pessoa virar costas e eu perder o sentido da minha mágoa, então eu sinto-me culpado e fica muito mais neurótico. Não perder o contacto com o que é a minha verdade, independentemente da reacção mais patológica do outro.
Às vezes esquecemo-nos de como somos capazes de lidar e nos adaptar. Na curva da saúde, quanto mais eu consigo sentir que há momentos em que coloco a razão, acção e emoção em doses idênticas e não fico preso num deles a maior parte do tempo, mais saúde há.
Até porque até as coisas mais difíceis, bem geridas, cuidadas, podem transformar-se num recurso. Podermo-nos conectar com essa possibilidade de olhar para aquelas coisas que constatamos e encontrar as minhas forças e as minhas fraquezas, foi a sugestão da parte vivencial deste workshop.

24 de janeiro de 2011

Somos mutantes: por DEEPAK CHOPRA

"Vimos de uma única célula que se divide e que num determinado momento se transforma numa célula diferenciada constituindo os órgãos, a pele, os membros e todo o nosso corpo. Mas ao principio era uma única só célula. Sabe-se hoje que qualquer célula do nosso corpo guarda toda a memória e é sensível a uma nova memória. A memória celular conserva assim todo o nosso eu e a cada experiência e vivência temos possibilidade de transmutação e consequente mudança das nossas células." Dra. Maria del Mar

Partilhamos, neste blog, trabalhos cujo conteúdo vai de encontro às bases e fundamentos da Biossíntese. Hoje com imagens e texto da autoria de Deepak Chopra*:

*Deepak Chopra é indiano, radicado nos EUA desde a década de 70, médico formado na Índia, com especialização em Endocrinologia nos Estados Unidos. Filósofo de reputação internacional, já escreveu mais de 35 livros e é um dos mais respeitados pensadores da atualidade.

13 de janeiro de 2011

Introdução à Biossíntese

23 de Fevereiro de 2011
Workshop de Introdução à Biossíntese Tema 0
para formação das turmas de Pós-graduação (Terapeutas e Psicoterapeutas)
Neste workshop teórico vivencial será explicado o que é a Biossíntese, sendo usados vários exemplos e técnicas, dando a conhecer a Escola, o Curso de Pós-Graduação, o programa e as suas aplicações.

Serão criadas duas novas turmas: a 10ª e a 11ª.

Uma turma será integrada em exclusivo por psicólogos e médicos para acesso directo à certificação de psicoterapeutas após a conclusão da formação na íntegra; outra turma será integrada por todos os que possuam uma licenciatura ou equivalente em outra área de formação candidatando-se a terapeutas, podendo (depois de completarem os requisitos da EAP e tendo concluídas as 4 Disciplinas complementares: Psicopatologia, Personalidade, Teorias do Desenvolvimento e Técnicas de Diagnóstico candidatar-se à certificação como Psicoterapeutas).

Biossíntese significa “integração da vida”, é uma psicologia pré e perinatal, transpessoal e uma psicoterapia somática com uma abordagem multidimensional do ser humano.

É uma forma de auto desenvolvimento e autoformação com uma ampla base bio-social e com potencial para aplicações em muitas outras áreas da sociedade além da clínica.

A Biossíntese foi criada há 35 anos pelo psicoterapeuta inglês David Boadella. A sua teoria, bem como uma grande variedade de aplicações práticas, vão sendo constantemente aperfeiçoadas e desenvolvidas pelo International Institute for Biosynthesis (IIBS) e pela comunidade internacional em vinte diferentes países do mundo.

Dia: 23 de Fevereiro 2011
Local: CPSB - Av. 5 de Outubro, nº 122, 5º Esq.
Horário: 18h00 às 22h00
Preço: 40€ novos interessados / 30€ actuais Alunos e Associados C.P.S.B.
Com: Dra. Maria del Mar Cervantes, Psicoterapeuta Somática em Biossíntese e Directora do C.P.S.B.
Vagas limitadas
Confirmação obrigatória para: 21 793 53 26 ou geral@cfpsb.com

Para os nossos actuais Alunos e os novos Alunos que se juntam ao Curso, estas horas serão contabilizadas no curriculum pedagógico, sendo passado um certificado oficial das horas de formação.



10 de janeiro de 2011

Butoh - Workshop de Movimento

15 de Janeiro de 2011
“Butoh - Dança da Luz e da Sombra”

Workshop de Movimento
Com Ulla Janatuinen

Butoh é uma prática de movimento / dança, que vem originalmente do Japão, em que manifestamos imagens mentais através do corpo e do movimento.


Num workshop anterior trabalhámos o aspecto lúcido do Butoh. Para além de darmos continuidade a esse trabalho, vamos espreitar também o lado sombra. A coragem de enfrentar os cantos escuros no nosso interior traz-nos mais liberdade e força. Olhando para dentro de nós, o conhecimento de nós próprios e a compreensão dos outros aumenta.

O Butoh foi fundado no Japão depois da 2ª Guerra Mundial por Tatsumi Hijikata e Kazuo Ohno. Butoh é uma dança ou ideologia ligada a tudo. A dança surge da vida, da morte, da natureza, do movimento, da energia.

A prática de Butoh pode ser uma via para o melhor entendimento de nós próprios e dos outros. Estabelecendo uma melhor conexão com a realidade podemos criar harmonia à nossa volta. Sentimos uma ligação com a nossa natureza profunda e com os outros. Pelo estado enraizado, aberto e centrado surge naturalmente a compaixão. Podemos sentir uma profunda ligação com tudo que existe.

Os exercícios neste workshop incluem entre outros: Grounding, Energy circulation e Expanding consciousness.

Este workshop é organizado com o intuito de criar uma turma para aulas regulares de Butoh.

Professora: Ulla Janatuinen*
Dia: 15 de Janeiro de 2011 (sábado)
Local: CPSB - Av. 5 de Outubro, nº 122 – 5º Esq.
Horário: 10h00 às 13h00 e 14h00 às 17h00
Preço: 30€ associados / 35€ não associados (Pagamento até dia 13 de Janeiro)
Material: trazer roupa confortável e meias (vamos deixar os sapatos à porta da aula).
Vagas limitadas.
Confirmação obrigatória para: 21 793 53 26 ou geral@cfpsb.com

Expressão e Comunicação

19 de Janeiro de 2011
“Expressão e Comunicação Psico-Emocional”

Workshop Aberto de divulgação em Biossíntese

Neste encontro abordaremos, para além das bases da Biossíntese, a forma como comunicamos, tanto verbal, como emocional, como ainda corporal, connosco próprios e com os outros.

Ao longo da nossa história vamos recebendo muitos tipos de informação do mundo que nos rodeia, construindo imagens internas por vezes desconectadas do “meu verdadeiro eu”. Também vamos comunicando com todas essas dimensões, tentando sempre encontrar forma de entender e ser entendido, pelo individual e pelo grupo, mas muitas vezes isso torna-se muito difícil e confuso.

A comunicação saudável tem como base uma boa sintonia entre o que percebo do mundo e o que dou ao mundo. Entre o meu ser receptor e o meu ser emissor.

É necessário que na minha expressão exista uma conexão entre o meu racional, emocional e funcional. Tudo precisa de estar em concordância para não entrar num esforço que me esgota abrindo-se um ciclo neurótico (que leva à doença física) em que tanta coisa não é dita, ou é dita sem acesso ao racional, ou sem coração ou sem carga.

A proposta é entender e trabalhar, a partir do lugar em que consigo comunicar verdadeiramente, em direcção àquele lugar em que está a minha dificuldade de expressão.

Trabalharemos: imagens, voz, corpo e energia.

Vamos iniciar o ano dando ao “meu eu” uma expressão melhor. Sejam muito bem-vindos a um novo caminhar.

Professora: Dra. Maria del Mar Cervantes, Psicoterapeuta Somática em Biossíntese e Directora do C.P.S.B.

Dia: 19 de Janeiro de 2011 (quarta-feira)
Local: CPSB - Av. 5 de Outubro, nº 122 – 5º Esq.
Horário: 18h30 às 22h00
Preço: 5,00€ Associados C.P.S.B. / 10,00€ Não Associados C.P.S.B.
Vagas limitadas
Confirmação obrigatória para: 21 793 53 26 ou geral@cfpsb.com

A RAIVA


Regra geral, temos dificuldade em assumir que sentimos ansiedade, ódio, raiva, porque achamos que não somos boas pessoas se sentirmos isso, quando de facto toda a gente sente em algum momento. Somos o que somos porque temos todos os lados e é importante para trabalhar raiva, angústia, tristeza entender que temos todo um leque de emoções em nós. A ideia de “colocar para trás das costas” não é bom, porque vai ficar aí: nas costas e no corpo. Temos de saber incluir tudo em vez de reprimir, sendo a raiva das emoções mais reprimidas.

O que é esta repressão? Quando vamos em demasia para algo para o qual não estamos preparados o nosso mundo fecha. Tal e qual como quando queremos dizer algo na nossa vida, por exemplo: que precisamos de algo e esse algo não é nutrido, a energia fica contida.

A sensação de raiva

O movimento de emoções mais primitivas começa muito cedo. A raiva sente-se na barriga. É quente, vulcânica. Tem movimento de querer sair e quando não sai implode, indo para os órgãos internos. Quando isto acontece continuamente vira-se contra nós e move-se como carga energética. É curioso como a cultura popular fala disso usando expressões como por exemplo: “maus fígados”, mas há mais formas da raiva se manifestar no corpo.

É algo bom ou mau?

A raiva é um alerta. As emoções são a expressão do sentimento. O sentimento ninguém vê. A emoção é visível: por exemplo na agressividade sai a raiva.

Vamos imaginar que estou com raiva e tenho colocada a minha máscara social recorrendo ao meu melhor lado, se a raiva existe aqui é um sentimento e ninguém vê. A emoção é expressa, vai para fora.

É interessante entender que as emoções mais viscerais (quentes, que vêm das vísceras) já as conhecemos desde muito cedo e têm a ver com mágoa, porque a raiva é a expressão da mágoa, tem a ver com dor.

E o que é a mágoa? Algo que me feriu profundamente, ou porque fui traído, ou roubado, ou me mentiram. A raiva é a expressão da magoa,

A raiva é um mobilizador e tem um objectivo, toda a emoção tem um objectivo. O objectivo é deixar que a emoção saia e quando isso não acontece ficamos com problema. A mágoa precisa de ser mobilizada ou chorando ou dizendo “eu não quero isto pois é mau para mim”.

Quantos conseguem, no momento em que algo incomoda, dizer ao outro o que sente? Não é assim tão fácil. Ficamos no estado neurótico: “se expresso o que vão pensar de mim?”, a raiva branca (assim chamada na psicoterapia).

Diferença entre ansiedade e raiva

Ansiedade: pode ser causada por raiva reprimida e há uma crise de angústia de antecipação, a coisa pode nem acontecer mas tenho medo que aconteça. É uma coisa que me agita ou me colapsa, o contrário da raiva que gera movimento. Ansiedade é um estado “para dentro”, fico agitado mas é uma coisa interna antecipatória que me pode adoecer muito.

Raiva: ou expludo, ou rumino, ou o corpo adoece. Quando é expressa adequadamente liberta-me, infelizmente não aprendemos a fazê-lo, aprendemos desde pequenos que na nossa cultura é feio expressar.

Uma criança cai aos 3 meses precisa de ficar simbiótica com a mãe cuidadora, até ao momento em que, sentindo-se nutrida, se vai afastar da mãe. Se não é nutrida, a criança fica com mágoa e isso transforma-se noutra coisa (a raiva não é só a raiva vermelha em que já não dá para aguentar), pode ser por exemplo: numa angústia constante; na indiferença para irritar o outro; numa irritabilidade constante; numa falta de prazer permanente; etc. Há muitas formas de elaboração da raiva e isso traz-nos muitos problemas porque nos desconecta do que nos está mesmo a influenciar, então como deixa de ser claro até para nós, o outro não entende e o vínculo com o outro não acontece, piorando tudo.

Há 3 grandes formas ou perfis no nosso Eu no momento de expressar a nossa raiva:

Nota: Ninguém é só uma coisa de forma pura, senão estávamos num hospital psiquiátrico.

- DEPENDENTE – não teve tempo de ficar independente porque ficou negligenciado ou abandonado emocionalmente, não havia disponibilidade afectiva ou logística da parte dos cuidadores. Fica então com “um buraco” e quando encontra novamente algo que lhe recorda a mágoa diz: “Ninguém gosta de mim! Ninguém me faz feliz! Fizeste-me isto ou aquilo!” O outro é o culpado de me sentir assim.

Luta por uma injustiça e fica uma raiva de queixume constante que ninguém aguenta. É aquele que lida com a raiva acusando os outros, algo que vem de uma coisa antiga e quando algo “toca naquele lugar” fica uma coisa insaciável.

Transforma a raiva numa mágoa pedinte e fica uma necessidade que nunca é saciada. É difícil de lidar porque parece que o mundo precisa de salvar constantemente esta pessoa. No adulto é comum ver crises de birra, há desespero (não há espera, não há pausa).

Tendência corpórea ou somática (genericamente): nunca descarrega, fica demasiado nas vísceras. Pode desencadear: dor nas vísceras, tendências à auto agressão, tristeza, doenças degenerativas (o corpo fica inimigo dele próprio, a angústia domina o corpo), doenças imunológicas, cancro, etc. Também a tensão no pescoço e queixo tem a ver com abandono, falta de nutrição.

- CONTROLADOR – em contacto com a mágoa sofre de falta de reconhecimento que é a sua primeira mágoa: não foi reconhecido como válido, como importante, como é. E o que faz? Ao conecta com a mágoa, nunca o mostra e fica a ruminar. Recusa-se a sentir e refugia-se na cabeça (no racional). Tenta manipular e argumentar.

Como quanto maior a repressão maior a perversão, a mágoa é tão dolorosa que voltar a sentir novamente é muito difícil. O controlador pode ficar muito parado, começa a ter dificuldades em estar com pessoas de forma a evitar contacto com a mágoa e com a raiva. Se o dependente diz o tempo todo como se sente e que quer um herói, aqui não preciso de ninguém e fico no meu mundo, mas é apenas outra forma de mágoa e fica uma raiva branca, neurótica.

Não admite que algo magoou e foi importante e racionaliza, ficando assim numa borbulha de proteção, relativizando: “Eu aguento porque sou forte, sou evoluído e forte!” “Neurose é coisa de mulher, de gays ou de deficiente”, mas não age.

No corpo afecta sobretudo os ossos e as articulações, uma vez que para manter o que não pode sair ficamos como os jogadores de sumo…

- COMPETITIVO – a história da sua fractura começou na humilhação. Então não só acha que os outros são menos importantes, como assim que têm oportunidade dão a tacada final por vezes muito cruel e visceral. Dizendo coisas do género: “Eu nunca gostei de ti”, inferiorizando, fazendo o mesmo que lhe fizeram, atacam o ego do outro, falando por exemplo do pénis pequeno de um namorado. O ódio, é a expressão máxima da raiva, aí não há controle e pode tornar-se algo assassino.

No corpo pode ser afectada a respiração, o coração, aneurismas, AVC, tudo o que é súbito e com grande impacto. O competitivo aguenta muito stresse e quando cai, cai num abismo. Tem tendência ao stroke.

Em suma:
O “Controlador” normalmente apaixona-se pelo “Dependente”, o “Competitivo” destrói o “Dependente” e o “Dependente” apaixona-se por todos que o cuidam.

O “Dependente” chuta para fora, o “Controlador” calca dentro e o “Competitivo” usa uma mira vingativa pensando “quando encontrar o teu ponto fraco vais pagá-las”.

Podem estar em níveis diferentes, mas todos estes tipos estão em nós. Não há nenhum melhor que o outro, são necessidades de elaborar resposta à mágoa. Em nenhum dos casos a raiva desaparece. Não curo, mantenho a raiva como ela é, desconectado da capacidade de inclusão da minha mágoa e o que quero é não a ver, é negá-la.

Como expressamos a raiva?

É importante entender que a raiva tem a ver com mágoa e avaliar como se expressa no meu corpo e na minha vida.

A raiva é uma emoção que quer ser expressa, se não o faço adequadamente porque expludo de mais, ou racionalizo de mais, ou contenho de mais, somaticamente no corpo há um sítio onde a angústia dá sinal (pode ser no queixo, pescoço, coluna, braços, esfíncter colapsado).

A liberdade emocional anda de mão dada com a responsabilidade emocional. Tenho de me dar conta de tudo o que me afecta e de onde me afecta, decidindo para onde vou dirigir isso.

Quando não estou conectado com o meu Eu mais profundo não entendo a minha raiva e em vez de expressar: “Estou triste, é difícil que vás embora da minha vida”, digo coisas como: “Se te vais embora a minha vida acaba! Não vou saber sobreviver!” (Dependente), ou “Não és tu que queres ir, sou eu que te coloco fora” (Controlador), ou “Vais pagá-las!” (Competitivo).

A verdadeira expressão é quando consigo integrar numa dança entre: o que sinto, o que penso e o que faço.

Quanto mais tempo passar entre a expressão da minha raiva mais transformado e enganador vai ficar aquela história e mais cheia de coisas intermédias. No fundo todas as coisas que me desconectam no presente têm a ver com coisas mal resolvidas, coisas não expressas.

A raiva saudável é a que me mobiliza para tomar um partido, para algo que me ajuda a equilibrar. A raiva patológica é a que expressa uma emoção diferente da que existe em nós na realidade.

Fontes de raiva:

O que me dá mais raiva: A traição? A mentira? A indiferença? A exploração? O que é insuportável para mim?

- Traição: é um insulto à minha auto-estima, porque alguém faz algo não me dando valor suficiente. Para quem tem fraca auto estima a traição é “mortal”.

- Mentira: quando alguém me mente sinto que não sou merecedor da verdade e que sou tratado como um débil mental, não sou visto como alguém importante, sou tratado como alguém que é incapaz.

- Indiferença: alguém me diz que não me vê, não me valorizam, então eu insurjo-me!

- Exploração: em que curiosamente eu permito. Tenho dificuldade de colocar fronteiras. Fico num lugar muito tempo mesmo quando não é bom para mim (tal e qual como alguém que é muito contido fica um alvo fácil de exploração até que um dia explode).

Como seria a expressão normal da mágoa?

Tristeza? Choro? O trabalho é sempre interno, de inclusão e digestão de tudo o que nos acontece, é lógico que com o outro à frente ajuda a que seja feito de forma mais concreta. Mesmo que tenha passado algum tempo pode-se marcar um encontro (não esperando nada) e dizer como me senti e que fui ferido.

Muita gente acha que é compassiva e super evoluída, mas surpreende-se cedendo a emoções primitivas.

No verdadeiro processo de evolução, temos capacidade de lidar com qualquer mágoa, connosco e com o outro. Eu entendo, acolho e permito dar-me conta de que estou com este sentimento. Quando nós conseguimos não só racionalizar como aceitar, respirar e incluir esse sentimento, fica muito mais fácil.

O que seria o saudável? Imaginemos por exemplo que temos de caminhar conjuntamente com o amor, a tristeza, a raiva, a alegria, a compaixão. Se imaginarmos que têm corpo físico como o de uma pessoa, como os vamos organizar para não perdermos nenhum de vista? Como vamos caminhar na rua movendo tudo de forma harmoniosa? Parece uma brincadeira, andar e mobilizar-se e incluir tudo, damo-nos conta de que fica difícil incluir tudo e que é difícil mover-me se não encontrar forma de os dinamizar, a clareza que tenho de ter é que não arrancamos a nossa história. A nossa história não muda, o que muda é a forma como danço com ela, como expresso, como me movo, como posso expressar a mágoa e como posso estar em frente à mágoa com alguém que me faz recordar isso e aceitar e integrar, entendendo de onde vem (de onde conhecemos este sentimento? Quando começamos a fazer isto?)

A expressão adequada da raiva é uma modulação em que eu me faço entender e me expresso. O que acontece habitualmente é que faço uma má expressão no momento e escolho pessoas parecidas com a família de origem (por exemplo: pai ausente transposto em homens indisponíveis), como se o mundo me desse uma nova hipótese de resolver. Sistemicamente chega a ser assustador, acabamos por repetir situações que tão bem conhecemos. Se algo é bom e resolvi é continuidade, se não é, é uma repetição.

Recorremos a esquemas mentais e emocionais tentando não morrer de dor, mas ao evitar a morte evitamos a vida.

O controlo das emoções é uma armadilha, não é o controlo mas sim a auto regulação que promovemos na Biossíntese. Tem a ver com uma gestão entre visceral, mente e ação. Só incluindo tudo saberei gerir.