11 de novembro de 2010

Workshop Aberto: Os Relacionamentos


O ser humano é sem dúvida um ser relacional, que se organiza na sua caminhada, através da qualidade dos seus "vínculos". Desde que nascemos estamos numa relação connosco e com os outros. Afectando-nos e afectando os outros a todos os níveis da nossa existência Psicológica, somática, emocional, e espiritual.

Abordaremos os diferentes tipos de Vínculos desde o "Simbiótico", Dependente, Autónomo, e Independente e os diferentes estilos de apego.

Vamos poder observar como nos entregamos nas nossas relações, a qualidade do nosso coração como centro integrador da razão e nosso canal essencial.

Será um encontro com a nossa capacidade de Amarmo-nos e AMAR

Dia: 23 de Novembro de 2010 (terça-feira)
Local: CPSB - Av. 5 de Outubro, nº 122 – 5º Esq.
Horário: 18h30 às 22h00
Preço: 5,00€ Associados C.P.S.B. / 10,00€ Não Associados C.P.S.B.
Vagas limitadas a 40 pessoas
Confirmação obrigatória para: 21 793 53 26 ou geral@cfpsb.com
Professora: Dra. Maria del Mar Cervantes, Psicoterapeuta Somática em Biossíntese e Directora do C.P.S.B.

10 de novembro de 2010

Sonhos (mundo onírico)

Neste workshop aberto de Biossíntese, o tema foram os Sonhos: como nos organizamos, as nossas armadilhas internas, como podemos trabalhar psico-somaticamente. No final todos podem levar ferramentas e insights importantes para o nosso caminho pessoal.

O inconsciente transforma num filme: o sonho onírico, quando vou dormir, REM (Rapid movement eye). Está provado que se não se sonha o cérebro morre. Sonha-se com o corpo em movimento: se sonho que estou triste choro no sonho e o corpo também, raiva também, o corpo está sempre envolvido.

Tenho várias fases durante o sono, numa noite completa são 5: durmo, sonho, durmo, sonho, durmo. Há quem vá menos profundamente e dá-se conta de que está a sonhar, fica à superfície, dá conta da agitação. E há pessoas que são como pedras e não se recordam.

Consciente e inconsciente por vezes dançam, há interferência. Interessante é entender como me afecta, como costumo sonhar. Há pessoas sonhos incompletos e pessoas com sonhos recorrentes com cobras, da infância, com guerras, etc.

Para quem não se lembra, mas deseja lembrar-se, há uma técnica muito simples: acordar a meio do sono e anotar.

Para que serve sonhar?
- Libertar tensões, reset, cura cósmica, projectar situações… - Muitas foram as respostas dos participantes neste workshop.

Sonhar serve para muitas coisas: desejos encerrados; resolver o que não deu para resolver e assim fazemo-lo de forma simbólica; resolver o que está no inconsciente… Dentro do inconsciente também há censura. Por ex. durante o dia tenho um susto e fiquei com vontade de ser violento com o meu chefe porque me fez algo, mas não o vou matar, então, se tenho vontade de estoirar, mas o meu consciente diz-me: “não podes matar, não é bom!”, mas a energia assassina, de frustração, fica nas vísceras, fica por vezes semanas, e o inconsciente descarrega um pouco aquilo. O corpo está sempre a tentar ajudar na situação que lhe trago. Quando vou dormir, conforme seja mais ou menos criativo, o cérebro vai tentar reorganizar, e sonho por exemplo, que sou cavaleiro medieval e mato o outro com lança e o meu super ego diz-me “sim no torneio o código esperado é matar, por isso pode-se”, no fim do sonho, se me liberou o suficiente pode ser que fique com carga um pouco menor.

Maria del Mar conta-nos um exemplo: “Tive uma paciente que sonhou que tinha uma lança no peito e ao tentarmos juntas encontrar a forma de interpretar, chegou-se à conclusão de que podia ser uma mensagem importante do corpo e que ela podia estar doente. Foi fazer exames e descobriu que tinha cancro em estado inicial e felizmente com essa descoberta atempada pôde cuidar disso. A todo o momento o nosso corpo, o nosso inconsciente, tentam resolver e dão-nos alertas”

Quando sonhamos que estamos cair, gritar, cair os dentes… são coisas do arquétipo. Há coisas que sabemos que têm significado, cair é morte, insegurança, falta de raiz… Jung trabalha muito bem este tema.

O sonho por vezes serve de descarga, outras de confirmação, de aviso, de resolução. O sonho tem tudo o que tem o ser humano, os nossos sonhos são como o nosso eu.

Os sonhos de pessoas que perderam alguém vai evoluindo, a nossa tendência em todas as dimensões é ter um princípio meio e fim. Não é por acaso que atraímos o mesmo tipo de pessoa, são padrões e possibilidades de fechar algo, os campos de intenção são muito importantes.

O que temos de descobrir é qual a intenção dos meus sonhos, são sempre ferramentas para aprender a viver melhor. Ir dormir com um propósito e descansar sobre isso é óptimo. Os nossos melhores insights, ou a maior parte deles, são em estado alterado da consciência.

As chaves de interpretação do meu sonho têm sempre a ver comigo, sendo algumas arquétipos. Muito importante é ter consciência de que divagar muito estraga o significado.

Quando o sonho acontece a função é sempre ajudar, confirmar, pode ser que eu não tenha capacidade de o fazer, tenha medo, mas o movimento pode estar na intenção, uma coisa é entendimento outra digestão e movimento disso. Há pessoas que fazem mas não têm ideia do que estão a fazer, outras que entendem mas não sentem e não fazem.

Mesmo que a gente não saiba como acaba o sonho temos de ir pela lógica, aqui o inconsciente queria que saísses dali, ninguém com gatos a morder-lhe fica quieto e sentado no seu sítio por muito formal que seja.

Para compreender a dinâmica do meu sonho preciso entender que elementos do sonho me afectam. Por exemplo o meu pai maltratou-me, ele já não é vivo, mas quando conto isso no consultório eu emociono-me, tal e qual no sonho quando conto o sonho, ele tem emoção. Aqui, holísticamente, é que me dei conta dos elementos, como os construo, como o corpo esteve envolvido e como há movimento ou não nos sonhos. Às vezes temos sonhos com impotência: caio no abismo, no vazio, no chão.

Há memórias falsas de coisas difíceis, e há dificuldade de ver o real e não real. E então há amneses emocionais. Há pessoas que não têm memória disponível, é selectiva e fazem aparente reset.

Image by Alison Haltenhof
O meu sonho está carregado de simbolismo e posso entender, fazer o link com a vida de hoje.
O “truque”, é além da imagem, saber em que lugar do corpo me está a afectar e depois ir ver de onde (do passado) é que eu conheço isso? Não há nada nos sonhos que não tenha sido já vivido em termos de sensação. Enquanto me está a acontecer é real.

Uma das necessidades básicas, expressas na pirâmide de Maslow, para além da alimentação, sonhar, prazer, ter regularmente satisfação aos níveis mais primários, é sentir que estou a cuidar de mim.

O sonho é um estado alterado de consciência, as ondas cerebrais são diferentes.
Quando trabalhamos imagens, percepções, o mundo onírico (Tema “facing” na Biossíntese) trabalhamos com o sexto campo, o chamado terceiro olho ou glândula pineal, um lugar que se estimula e funciona como foco. É lugar da criatividade, e ponto principal. O seu chacra irmão é o segundo campo, ou hara, dois dedos por baixo do umbigo, é onde estão necessidade e medos mais primitivos.

Meditar e colocar a questão:
- O que preciso de cuidar em mim? O que estou a precisar?/ Como?
A resposta a esta questão “Como?”, pode não surgir na meditação, pode até surgir em sonhos
A meditação é uma ferramenta muito poderosa para trabalhar vários aspectos de mim, ela vai além do ego e pode-me devolver respostas. Há muitas técnicas mas todas elas querem devolver algo que já esquecemos. Quando ficamos extasiados, quando tomamos banho, quando vemos algo belo na natureza, etc., deixo o meu ser estar em contacto com algo que me inunda de forma saudável e desprovida do que me intoxica, entro em contacto comigo.

9 de novembro de 2010

Sexualidade

Sem sexualidade não haveria vida. Há um encontro de duas partes que se complementam e possibilitaram que estejamos aqui.

Tudo o que nos devolve o prazer move-nos para algo, coloca paixão. Ficamos com olhar mais límpido, imunologia melhor, coisas mais saudáveis, é uma forma de estar em harmonia, entregamo-nos mais facilmente ao que nos dá paixão. Não é só sexualidade. Falamos em Biossíntese de “Charging”. A pessoa excitável é a que se excita com as coisas da vida, um filme, uma cor, uma paisagem, etc., coisas que nos fazem ficar “fora do sítio”, quem fica a toda hora assim tem “Charging” a mais. É bom compreender a conexão com a minha carga e foi o que desenvolveu toda a psicoterapia corporal. A maior parte das pessoas com neuroses tem dificuldade com o erótico (neurose significa falta de eros, matar o erótico).

A Biossíntese é uma integração de vida, trabalha para além do ego, com a parte espiritual, imunologia, neurologia, e todas as dimensões do ser humano, sem tocar na parte fragmentada. David Boadella aprofunda todos esses temas para encontrar a porta de entrada sem ir directamente ao ponto de chegada que é a dificuldade onde a pessoa está, seja a que for. Há visão inovadora e forma de aproximação que promove o contacto da pessoa com o seu self, e um contacto de vínculo de coração com o outro que diz: “Eu vejo-te.” O movimento tem de se profundo, não é só técnica e o terapeuta tem de saber fazer contacto.

Temos lugar único onde o terapeuta quer aceder, aquele lugar é o lugar em que eu sou eu. A terapia é derreter (não quebrar como outras correntes) o que foram as camadas que coloquei para me defender do mundo.

Falamos também de corpo (incluímos o corpo, ou seja não trabalhamos só corpo, mas sim: trabalhamos também o corpo).

Em termos de sexualidade, observando a nossa “Raiz” (primeiro campo energético): quando tenho carga e uma sexualidade saudável canso-me menos, tenho maior capacidade de arranque para fazer algo e relaxar quando isso é conquistado, como uma curva, como o orgasmo. Uma pessoa muito encouraçada, pode ter vários quistos, tumores, pois tem energia acumulada, não expandida. Se a energia não se mexe, não se move ela não desaparece e se não é liberada, vai para intestinos, para o coração, para a pele, hérnias, etc.

Um corpo saudável tem fluxo saudável move-se harmoniosamente, expressa-se. Uma das coisas que se trabalha em Biossíntese é a observação do movimento. O rio não se empurra: se quero que a pessoa fique mais vital, para uma pessoa gritar deixa-a mais vital mas para outra pessoa pode ser o oposto. Há pessoas para quem pode ser bom mas para outros é mais traumatizante. O que é bom para uma pessoa pode ser veneno para outra.

No segundo centro energético ou hara está a memória de nascimento, o umbigo e a conexão com o mundo, as coisas viscerais sentem-se nas vísceras. Em termos de sexualidade, para as pessoas que têm distúrbio, nesta zona vem a cor preta na meditação. Com maior maturidade conseguimos ver a utilidade da meditação. Neste centro energético podemos observar que carga temos disponível e restabelecer o fluxo.

O terceiro centro, o plexo solar, trabalha o pânico, os limites e o território, do corpo e que ocupo e como digo sim e não. Qual é o meu espaço e qual o espaço do outro. Trabalho o invasor e o invadido. Quando acho que estou a ser invadido tenho poucas fronteiras, e quanto tenho muitas invado mais o outro. Dor aqui é o botão de alerta.

O quarto centro, o coração, tem a ver com dar e receber, entrega, abraço. É fácil receber e abraçar? Entregar-se ao outro? O corpo aprende a entregar-se se confia, o coração tem de estar envolvido. Não quer dizer que a sexualidade não seja boa se não dou de coração, quem não é tão romântico e tem amigos coloridos pode ter um bom acordo, é diferente do coração. Logicamente quando há boa união sexual há boa entrega e quando o coração vai junto há “revolução interna”, é muito bom. Há quem entregue o corpo mas não o coração, e tenha dores muito grande a nível de bloqueios. Por isso a união da sexualidade com o coração é importante, há pessoas encouraçadas no cardíaco. Trabalhamos vínculos primários com a família, depois com os outros.

No quinto centro, a garganta, encontro a expressão das emoções e das minhas crenças. Às vezes não é fácil colocar em palavras. Garganta e boca é o primeiro órgão sexual. Antes de sermos sexuais somos eróticos, o prazer vem da boca. O bebé já é erótico, fica babado a tocar algo que ele gosta, como o corpo que recebe toque, alimentado com carinho e ternura. Agora imaginemos bebé que é olhado como estorvo, ou alimentado para que deixe de chorar, esse primeiro contacto com lado erótico do prazer é perturbado, então isso que ele quer tanto não é alimentado, assim, digere dificilmente a comida ou fica assustado. Começa no corpo a relação com o self e com o mundo o que me rodeia. E como bebé não se apercebe, coloca tudo na boca pois é por aí que tem contacto com o mundo.

No sexto centro, o terceiro olho, a glândula pineal, tem a ver com capacidade de sublimação, imagens internas, visualização. A nossa própria auto imagem vai-se construir no meu interior e pode ajudar com a entrega ao outro.

Mais de 60% das mulheres não tem orgasmo. Há mulheres que têm vergonha de ser tocadas, nas mensagens internas nessa minha imagem eu posso ficar com bloqueio, como não me olho de forma saudável não posso imaginar que o outro o faça, então colapso. Na sexualidade, as mulheres precisam emocionar-se para se excitarem, e homens precisam de olhar para se excitarem, a visualização deles, na sexualidade, é mais activa do que a das mulheres. No tantra, a filosofia é o toque do corpo, sem recorrer à imaginação, no presente, deixando que a excitação vá carregando o corpo até chegar ao clímax, aumentar a carga e usufruir, longe da imaginação que é mais domínio do neurótico. Quantas mulheres têm imagem castrante da mãe que diz que aquilo é pecado, sujo e complicado? A imagem da sexualidade fica massacrada. Como o conceito de que o homem não é muito viril se não tem pénis grande. Tudo é manipulação, todo o mundo tem de ser assim, como a modelo no anúncio do sumo de tomate.

Quando é natural e acompanho o rio fica mais fácil de me entregar.

Encontrar pessoas com o mesmo ritmo é difícil, sintonia tem a ver com energia, com estrutura do corpo, com imagens, todos esses centros, o vínculo cardíaco, o impulso romântico e a zona das imagens sexuais, a forma como me entrego, o ritmo de cada um…

Sexualidade não satisfatória não é só falta de orgasmo. Há muitas relações sem excitação necessária, pessoas que não gostam como a outra lhe toca. Há pessoas muito genitais vs muito românticas. Ou quimicamente a coisa resulta e a sexualidade encaixa.

Há mulheres que só têm orgasmo na masturbação que é algo mais clitoriano e com a penetração não sentem nada, há coisas que ficam disfuncionais, o corpo vai fechando, tudo isso acontece a vários níveis.

Quando pessoa inspira quantidade de ar igual à que expira, é mais apto a recuperar sexualidade ou a ter sexualidade saudável. Inspirar grande quantidade de ar e expirar a mesma quantidade de ar, às vezes é o suficiente para sentir a nossa carga e descarga, é obvio que durante a sexualidade a respiração altera.

Porque “charging” está relacionado com a forma como vivo, como me excito na minha vida, como relaxo, como me relaciono com algo muito bom, parece que não tem relação mas tem muito.

As mulheres quando têm orgasmos fortes perdem a consciência momentaneamente.

Curva da relação sexual:

1) Praia de chegada e do jogo erótico, é o inicio. Começa muitas vezes pela visualização. Há pessoas que ficam muito tempo aqui.
2) Há pessoas que estão sempre na subida, dá adrenalina, sempre à procura de algo, que não chegam ao orgasmo, há subida e descida a pique enorme. Não chegam ao clímax. Há frustração.
3) Pico, clímax, realização
4) Descida gradual, curtir o presente, relaxar.

Assemelha-se à onda do mar: quão longa tem de ser a minha praia? Como é a subida da onda? Como é que a sinto no meu corpo e como é que relaxo quando a vivenciei? Há quem passe de uma onda para outra, sem existir na verdade descarga. E há mulheres que choram no final, de angústia, como se tivesse acabado perfeição, ficam esvaziadas como no pós-parto.

Quando falamos de onda e de orgasmo e de excitabilidade, estamos a olhar para esse nosso eu para vermos como está a nossa curva, como é a nossa subida, o nosso clímax, como é a descida.

O que não é saudável: muito tempo na praia, demasiado tempo na subida, fazer toda a curva até ao clímax mas deprimir na queda, no relax.

Olhando para a curva devemos ver onde está o mais difícil. A praia? Baixa libido? Romântica que acha que estraga tudo com o coito? Ou subida que fecham muito o orgasmo?

Há muitos homens que não sabem que têm ejaculação precoce. Corpo treina-se mas envolve tudo, não é só mecânico.

É bom apercebermo-nos que somos um tipo de pessoa para outro tipo de pessoa e não para todos.

A energia vital, sexual, criativa, vitalizante não é na cabeça, é aqui e agora, estou cá com o que está, se vivermos aquele momento como ele é, com aquela pessoa, a 100%.

8 de novembro de 2010

Mais sobre a Biossíntese

Na Biossíntese fala-se também de Centros Energéticos ou chacras, que são portas de entrada e de saída do corpo, somáticas e energeticamente. Estes centros localizados em pontos-chave, têm glândulas que pulsam. O tempo todo o corpo faz contracção e expansão. Fazemos constantemente este movimento: fica perto/ ficar longe.


Então vemos como é a nossa raiz do concreto, a nossa defesa no território, como vincula o coração, capacidade de expressão, capacidade de sublimar, etc. E quando estamos bem, o eixo está vertical, e no topo fica uma “fractura” natural e saudável que me conecta ao todo (o chacra da coroa), que me conecta mais além do aqui e agora. Usamos muito pouco da capacidade não cerebral, ela é prolongação do eu, a cabeça não é tudo. Temos uma espécie de radar e podemos estimulá-lo. Quando nos conectamos com consciência e deixamos abrir canal essencial, sentimos muito mais, ficamos com clareza mental e de entendimento, com o que é o mundo. O que acontece, quando não se tem raiz e abrimos esta zona, é que a pessoa não entende e se não há cuidado pode psicotizar. Por isso, quando a pessoa está muito lá em cima, se não está a ser possível estar em harmonia, temos de a trazer mais para baixo, para o aqui e agora. David ensina onde tenho de levar a pessoa. Há pessoas muito mentais que precisam de ir mais para a emoção, outras que são um vulcão emocional que precisam de usar um filtro, outras que temos de levar para o movimento, a acção.

Sou muito cabeça? Muito coração? Muito activo? Levo muito ou pouco para dentro de mim? O meu corpo é rígido? O interessante é esse novo olhar para nós próprios, como nos construímos.

O corpo diz muitas coisas: por exemplo a pessoa com problemas de contacto desenvolve problemas de pele (Nota importante: nada é linear, nem toda a gente que tem problemas de pele tem problemas de contacto. É importante a observação de cada situação e cada pessoa em particular. Falamos de generalizações.). A linguagem verbal por vezes é a menos clara, e há linguagem que confirma o que se passa comigo: a do meu corpo. Uma possibilidade é haver uma história de mau toque, não é obrigatório que seja assim, mas é possível ter problemas de pele, urticária de contacto.

Problemas de engolir sapos ou não deixar sair a necessidade de expressão, rompe as vísceras, e eu acho que não posso falar, porque não vai ser entendido ou o que seja. A energia não se destrói, em vez de explodir implode. No Síndroma de Crown, perguntamos “quantos sapos estão na tua vida?” E as pessoas até fazem listagem. Quando algo fica demasiado, fica entupido, há falta de fluidez porque fica algo a mais. Há autor que é Hamer, médico que teve cancro pela morte de filho e que descobriu, pelo próprio processo, que é a expressão de algo, a tentativa das células irem todas para aquele lugar para curar aquele órgão. Precisamos de levar para lá algo que diminua a pressão.

Temos dentro de nós (quando estamos estruturados, em harmonia) as defesas que precisamos, se não o meu corpo diz “chega!” e se continuar nesta angústia o corpo vai cada vez gritar mais por mim, e se continuo… “vou embora”, porque não posso continuar.

O fluxo (os artistas deixam sair e fluir as suas neuroses através das suas obras)… entender que o corpo é tudo e tudo o que tem vivido me interessa, como dorme, como se relaciona, como foi sonhado, de que família vem, como sonha, como se alimenta, como se move, etc.

David Boadella fala muito de alma, espírito, essa encarnação, esse ser que leva esse impacto, essa anima, leva o milagre da vida e a possibilidade de se conectar com tudo o que o rodeia.

Ressonância é além da empatia, o terapeuta recebe e trabalha recebendo a alma do outro, no campo mórfico. David trabalha na expansão de todo o meu eu, em que corpo e alma dançam. Todo o ser humano nasce com todas as capacidades. O que tentamos é derreter as camadas defensivas para poder emergir o que eu sou, a essência.


A Biossíntese assenta teoria na embriologia: camada endodérmica regula emoções, para a acção temos mesodérmica e depois sistema nervoso central, cabeça.

A proposta da Biossíntese não é fazer diagnóstico, David não queria fazer diagnóstico mas sim fazer o encontro com o corpo.

Ler livros de auto ajuda, em teoria o que sabemos é muito velho e o conhecimento está lá, mas a forma de integrar isso… Muitas pessoas na procura de um caminho entopem-se de livros, e de cursos, mas a integração do que me faz saber, esperar, sentir, faz vibrar quando estou com o outro, saborear as coisas… isso não se aprende lendo. Até que experiencie dentro de mim não tem verdadeiro impacto, mesmo que o que aprendo ou leio faça sentido. Posso ir a gurus.. mas a noticia é: não há gurus, há pessoas muito interessantes. Há um guru sim, interno. E o guru fora só me vai confirmar.

Vemos o transferencial e o contra transferencial. Como lhe afecta. Se isto não é cuidado a pessoa vai ter exposição e fractura quando lhe aparece algo.

No conceito da Biossíntese INCLUO todas as minhas partes, sei INTEGRAR. Tenho raiva, mas não chuto, integro e tenho parte de mim serena, e ao mesmo tempo poso ter fome, preocupação, tudo pode estar presente. Quando mais se trabalhar mais fácil é colocar-se à frente de alguém e saber cuidar do outro e de si mesmo.

Há psicoterapeutas da corrente cognitivo comportamental que só pelo calor humano que têm, pelo coração, conseguem chegar à cura. O que cura é o vínculo, o afecto pelo outro, tenho de estar apaixonada pela pessoa, tenho de olhar, a pessoa tem de ser vista, tenho de estar inteiro, a partir daí já posso usar técnicas que tenho disponíveis. O estar de alma com o outro é o princípio de todo este trabalho.

A Biossíntese é uma forma de estar comigo, com vizinho, com o trabalho, a sexualidade, os amigos, o parceiro, os filhos, o dinheiro, etc. Mais do que uma Escola, o que David Boadella propõe é forma de olhar para a vida.

Falando das raízes da Biossíntese

A psicoterapia começou a sistematizar-se no inicio do século passado, com atendimentos regulares. Freud começou a sistematizar a sua teoria, através da associação livre e elaborou uma técnica particular: colocava o paciente no divã, e assim podia estudar, analisar e interpretar o raciocínio do paciente, sem se implicar no contacto com o mesmo. Freud era muito interessante, e, curiosamente como estamos em psicoterapia corporal estudamos o corpo, e observamos que ele era extremamente mental, com um corpo fino e tendência deficitária de contacto com os outros. Ele era fascinado pela mente mas tinha dificuldades no que tocava ao afecto. Contudo foi brilhante, quis conhecer o ser humano, mas colocou-o de forma a que não tivesse de vincular com ele. Criou também a Associação de Viena onde todos os psicoanalistas se encontravam para criar regras: Jung, Osho, e muito outros.


Um dos grandes discípulos de Freud foi Wilhelm Reich, que agora começa finalmente a ser estudado na faculdade. Reich falava da sexualidade, de corpo. E ao observar os pacientes no divã, verificou que tinham um corpo determinado, segundo as queixas e neuroses que tinham: a pessoa muito mental respirava quase sem se ouvir; a pessoa mais histérica tinha ancas mais largas e rabo mais empinado e era mais ruidosa a respirar; as pessoas muito contidas tinham mais dificuldade em expirar do que a inspirar, etc… Queixas somáticas. Fez então algo que revolucionou a terapia, e pediu ao paciente/cliente, para se colocar de pé, começando a integrar o corpo e a organizar e sistematizar o seu trabalho.

Houve ainda outras grandes correntes que influenciaram a formação da Biossíntese enquanto Escola:

- A Biodinâmica de Gerda Boyesen – Que desenvolveu a sua teoria endodermicamente. O estudo é feito na marquesa com massagem, sons do corpo, reestruturação energética da vísceras, trabalha os tecidos moles, e a forma como se desenvolve o vínculo com o outro. David Boadella (o criador da Biossíntese) aprendeu muito com ela sobre as vísceras e a emoção.

- A Bioenergética de Alexander Lowen – Que desenvolveu a sua teoria tomando como ponto de partida que o trabalho na marquesa é bom, olhar para como a pessoa respira também, mas porque não andar de pé, agitar-se, pular, etc.? Porque não vincular com a pessoa? Na última formação que deu, pediu aos formandos que ouvissem com atenção o que ia dizer, era algo revolucionariamente terapêutico, todos esperavam ouvir algo diferente… e ele dançou simplesmente a Polka, apesar da avançada idade, dizendo que dança era o melhor exercício terapêutico. Ele desenvolveu exercícios para as trabalhar pernas, o enraizar no aqui e agora, o expandir das emoções, usava afirmações, o grito, entre outros. O que acontece é que é mais linear, enquanto a Biossíntese procura ser mais “circular”. Na Bioenergética não é ainda introduzida a dimensão da espiritualidade, há algo concreto para trabalhar a raiva, ou a angústia, ou o medo, e liberam-se muitas vezes emoções através da dor, apesar de estar a ser cada vez menos usado. Para alguns pacientes é traumático e a quebra do ego pode ser perigosa, claro que alguém muito experiente não faz desta forma, mas a base era esta.

A Biossíntese reúne todos os ensinamentos, tudo nos interessa: corpo, espírito, psicologia, mente... Não interessa disputar entre escolas mas entender o objectivo comum de sabermos quem somos e como somos. Hoje vemos algo novo, menos separação, o mundo está em grande transformação e a integração é palavra de ordem.

A Biossíntesse foi concebida na sequência do próprio percurso de David Boadella, de estudos e experiências que começaram enquanto professor de escola primária há cerca de 50 anos atrás, em que observava cada aluno e compreendia como vincular com cada criança de forma diferente, com métodos pouco convencionais para a época, as crianças tinham espaço para se expressarem e o facto é que conseguia ter resultados fantásticos, o que fazia a própria Escola e os colegas permitirem que continuasse com o seu método inovador. Ele pôde então confirmar que havia formas diferentes de despertar cada um e começou a interessar-se pela psicologia e a fazer terapia com eles.

Descobriu que na bioenergética havia ferramentas fantásticas mas que não servia para ele de forma linear e começou a criar algo diferente em que corpo tem de estar presente, mas o que diferencia é que se começa a intervenção com a pessoa, pelo seu lado mais seguro. Começa-se pela cabeça ou a emoção, a área que a pessoa não tem fragmentada. Então David, com todo esse legado de Alexander Lowen, Wilhelm Reich, Gerda Boyesen, vai observar qual é o lugar onde ainda há energia e onde posso começar a vincular, vai também observar o corpo: onde está o reservatório e onde adoece mais.

Esta é a concepção, antes de ser uma Escola ou corrente. A forma do David, alem de ir para o lugar não patológico e de introduzir uma conjugação de várias correntes (umas muito mentais como a PNL, a bioenergética com descarga, a biodinâmica com as vísceras, o budismo com a parte espiritual), ele queria que se pudesse trabalhar tudo isso, mas viu que faltava algo: além de encontrar o lugar seguro, não ser só cognitivo e não só transpessoal, queria algo integrador, com parte espiritual. Ele chama a esta espiritualidade a bio espiritualidade, que não está ligada a nenhuma religião. O ser espiritual é quem está bem com a essência, com a ética, tem aceitação, segue com o fluxo da vida, é naturalmente disponível. É a ligação com o canal essencial que leva ao contacto com a essência e com tudo o que nos rodeia, há necessidade natural.

Quando o ser humano nasce, o nascimento psicológico é quando me dou conta que sou eu, diferente dos outros, do que gosto e não gosto e do que preciso e não preciso (e há quem ainda esteja neste nascimento na idade adulta). Mas se há estas duas (nascimento físico e psicológico), há a necessidade de nascimento para além do ego, no espiritual. O ego é necessário, tem de ser funcional, dinâmico, o ego está aí e podemos ir para além dele, não contra ele. David não vende milagres, ele quer entender a vida e a nossa dinâmica, entender de que somos feitos, como nos construímos e onde chegamos. E só aí posso apaixonar-me pela vida, isso é o verdadeiro orgasmo, quente e apaixonado pela vida.