5 de dezembro de 2010

Relacionamentos

A temática está sempre presente na nossa vida. No contacto com os outros, seja nas relações familiares, íntimas ou profissionais. Os relacionamentos são um tema muito vasto para desenvolver só em algumas horas.

A proposta é, se for possível, olhar para o outro além da máscara, da neurose, do susto que me dá, o que é difícil. A vida tem encontros e desencontros.
As nossas primeiras relações são o nosso código. O que nos faz ficar fechados naquela época foi válido só para aquela época. Entretanto é bom entregar-me a algo, mas se respondo da mesma forma como no passado a outra pessoa não vai entender e vai embora… A imagem interna da minha mágoa é muito maior do que os lados funcionais. Dormir muito, por exemplo, é uma forma de “ir embora”.

David Boadella, o criador da Biossíntese, propõe trabalhar a pessoa do lado saudável. Ele diz: “Uma grama de contacto é muito mais importante que uma tonelada de energia”. Se não há contacto profundo de alma, e a pessoa não é vista, respeitada e amada, ela não entende o que está a fazer.

Todos passámos pelo nascimento e crescimento físico, estamos cá. O crescimento psicológico demora a vida inteira, dou-me conta de como sou, desenvolvo o meu eu. Quanto mais contacto profundo tenho mais fácil me é estar no mundo. Quando chego a um estado mais saudável, chega naturalmente o crescimento espiritual, além do estar aqui e agora. Quando é feito prematuramente perco-me “lá”, sem raiz “cá”, e depois não cumpro as coisas normais de vínculo, coisas básicas como lidar com o tempo, o dinheiro, e todas as coisas do contacto com o real.

As relações envolvem sempre duas partes. Como é isto de me aproximar de alguém e de me afastar? O casal é sempre uma tríade: EU sou eu, tenho de ter o meu mundo individual, o OUTRO é ele, que tem de ter o seu mundo individual, e soma-se a isto a parte em que nos juntamos. Há uma história comum, há uma parte que posso partilhar se eu quiser, mas em que o outro não tem a ver comigo. Quando isto não é respeitado eu sinto-me invadido.

É difícil explicar a alguém muito passional ou possessivo que o marido ou a mulher precisa de tempo para ele/ela, que há coisas que só lhe servem individualmente, mas que tudo o que de bom me acontece vai-me servir a mim e vou levar essa energia comigo, também para o casal. Às vezes é o contrário, a pessoa tem esse lado individual muito desenvolvido e fica difícil ficar junto. Mas o processo de vínculo pode ser muito ajudado com terapia e desenvolvimento pessoal.

Deturpações: simbioses, relações patológicas, problemas de limites, relações destrutivas, equilíbrio entre estar junto ou separado. O ciúme, por exemplo, do território que não domino - como se, controlando, o outro ficasse com a ideia de que é meu, é patológico.Nas relações patológicas as pessoas confundem intensidade com qualidade, se é muito intenso a minha relação é muito fogo, mas não me nutre.

Quando falamos de vínculo temos de observar a existência de situações que o podem dificultar:
- Troca de lugares: masculino com feminino (por exemplo: a mulher domina parte estrutural, raízes e decisões, tem lugar determinadamente masculino)
- Imagens internas. Por exemplo do príncipe encantado ou da mulher encantada, de que alguém me vai salvar. Isso pensa tanto o homem como a mulher: que vou encontrar alguém que me vai dar o que não tenho, ou como espero que alguém vá mudar. Coloco expectativa em vez de me relacionar com o real e o presente na aceitação, na integração e na inclusão da imperfeição do outro. Claro que se o outro é muito dissonante do meu eu, eu não tenho que forçar nada, porque uma relação quando é saudável flui (o rio não se empurra), na realidade é uma dança, em que temos coisas para ajustar como os passos de uma dança.
David Boadella diz que a terapia na Biossíntese é uma dança entre o que faço, sinto e penso. A dança para recuperar essa harmonia no meu Eu, no meu corpo, que me faz estar mais em harmonia comigo e com os outros. Quando eu fico encurralado nas minhas expectativas e ilusões eu não vejo a outra pessoa, eu estou a ver um projecto de algo que um dia vou querer, não me estou a vincular com a pessoa e logicamente ao fazer isso também não me estou a vincular comigo, porque eu projecto no outro uma necessidade de ser outra coisa que eu próprio também não sou.
- Padrões familiares como referência. Quantas vezes digo que o meu pai e mãe “foram sempre assim”, então repito o padrão, foi assim que aprendi, é o registo que trago dos meus pais. Quando bebemos uma cultura, uma imagem, temos tendência a repetir umas vezes consciente e outras inconscientemente.
- Cordão umbilical “não cortado”. Imaginem um homem e mulher que se juntam e num deles, um pé fica na família de origem e o outro pé na nova, e quando se passa algo que abana a relação ele/ela retrai e coloca os dois pés na família de origem. É interessante compreender como me desvinculo saudavelmente da minha família de origem, o que às vezes não é fácil, ou porque eu não tenho ainda algumas coisas resolvidas ou porque a família de origem me diz que nunca estarei tão bem como ali. Muitas vezes os pais metem-se, acham que, com todo o carinho do mundo, são preocupados e não se acham invasores. Muitas vezes estes pais não tiveram relações nutritivas e como tal nutrem-se dos filhos mais do que nutrir-se com as coisas deles, novamente voltamos a essa coisa de triângulo que se baseia no facto de eu precisar de um eu individual suficientemente nutrido para poder estar com os outros.

SEXUALIDADE
É incrível a quantidade de disfunções que se encontram, tanto no homem como na mulher. Por vezes a relação sexual funciona mas o ritmo não é adequado, a libido não é adequada, a excitabilidade não é adequada, por vezes é muito difícil encontrar um parceiro compatível, como os ritmos são diferentes é preciso fazer certo trabalho, porque o corpo do outro é outro Universo.
O vínculo é uma coisa, o coração é outra, mas a sexualidade é uma outra coisa diferente do coração, se acontecer juntamente com o coração é muito melhor, mas pode-se ter sexualidade fantástica com alguém que não se ama e má com alguém que se ama. Eu posso permitir-me ou não, mas o meu corpo tem todas as dimensões. Claro que se coloco tudo a funcionar é uma explosão dos sentidos, por isso o tantra diz que é algo sagrado, e é. Aliás sem sexualidade ninguém estaria cá, não será suficientemente para imaginarmos que é algo muito interessante?

Temas para observar no casal, relativamente à sexualidade:
- Viver o prazer /não viver o prazer
- Cansaço
- Desinteresse
- Crenças (estragam muitas vezes por não ter nutrido isso, por não poder falar abertamente, para muitos casais é um assunto tabu que afecta muito as relações)
- Ritmos
- Comunicação

O CASAL EM CRISE – observar:
- Território – limites
- Crescimento em linhas diferentes
- Comunicação confusa. Por vezes fica difícil falar de afectos, a pessoa muito rígida em vez de dizer “estou triste não quero que vás embora”, usa o orgulho e manda o outro embora, porque fico só na máscara, no que é aparente. O outro normalmente não me vê através da máscara e por vezes estou triste e mostro raiva.
- Raivas submersas
- Feridas
- Infidelidade – causa ou consequência?
Na relação ideal ficamos no mesmo campo de energia de coração para coração. O que acontece quando chegam coisas que não são o casal? Quando vem a mãe e o pai, e o chefe, e a amiga e o avô, e um segredo, cada coisa vem com a sua história. Acham que conseguimos ver o casal como era? A pessoa já não está lá, procura-se a saída fora porque aquilo é sufocante e isto é o que acontece muitas vezes. Eu tenho as vozes todas de todos estes a falar ao mesmo tempo. Aparentemente vou sozinho para uma relação e digo “aqui me tens” mas não é verdade.
Acham que a infidelidade é causa ou consequência? Depois de muito tempo juntos e de coisas não ditas, juntando os estímulos que recebo, pode acontecer muita coisa. Tem a ver com moralidade, com regras, com agarrar muito uma pessoa e a forma como fica uma ferida profunda por vezes para o resto da vida e nós alimentamos tudo isso.
A questão depois é: Conto ou não conto? Depende. Se é uma coisa individual que vivi e já acabou, e não serve para ajudar a relação, contar na realidade é uma coisa que eu faço egoisticamente para ter vivido a minha coisa e ainda receber o perdão do outro. Mas se o casal cresce com isso é bom. Mas tenho de assumir as minhas responsabilidades e as consequências disso. Às vezes o casal não tem maturidade para trabalhar algo a este nível. O ideal é ter maturidade suficiente para ser possível falar de tudo e lidar com tudo.
Quanto mais integrado comigo menos necessidade tenho de fazer essas coisas e mesmo se as fizer vou poder lidar melhor com elas.

CASAIS MISTOS
- Nova família
- 1ª família, 2ª família
- filhos de um só cônjuge
- filhos de diferentes progenitores
- Filhos comuns
Os novos modelos de família têm de ser observados. Sem dúvida é algo difícil, porque já não são só as questões do casal na base que já são muito complexas, é tudo aquilo que o casal traz de novo para a relação, uma história, uma dor, os filhos que precisam de ser integrados.

Muito importante é observar os estágios em que desenvolvemos o lado territorial e possessivo que podem fazer com que tenha uma visão perturbada.
Quando nos desenvolvemos, passamos por fase natural simbiótica no útero materno, fica registada essa simbiose com o outro. Depois do nascimento vivo uma fase de dependência, mas o outro, que me cuida, é um ser autónomo, se me cuida bem e nutre bem eu fico dependente apenas o tempo suficientemente para que um dia diga que já não preciso e posso ficar independente. O apego é a algo que me faz sentir seguro. Criança pequena tem como referência os pais que lhe devem dar tempo para que se sinta segura na sua exploração do mundo, com a presença deles. Se estes não a deixarem respirar ou pelo contrário a deixarem demasiado entregue a si mesma, eventualmente pode nascer aí um desequilíbrio no vínculo. Esse tempo tem de ser desenvolvido e nutrido.
Depois chega uma altura, da autonomia, em que a criança mostra o que quer e não quer, e se manifesta na sua liberdade, vai contra o outro e experimenta a sua vontade.
A seguir deveria haver um momento natural em que devia chegar a independência, em que eu já não preciso de ir contra, dou-me conta do que preciso e movo-me de encontro ao que preciso.
Nas relações é a mesma coisa, há relações de co-dependência fortíssima em que, se vejo que o objecto de apego vai embora, ou não fica o tempo todo disponível para mim, eu entro em crise, ao ver desaparecer essa figura eu sinto-me traído e abandonado. Tenho de ter sempre esse objecto seguro que está sempre comigo, não importa se a relação é justa ou injusta, boa ou má, quando o objecto desaparece eu sinto-me abandonada, e procuro todos os indícios: ver a conta bancária, o telefone, as contas de e-mail, etc. Mas sem duvida, nessa fase de apego, se eu não tenho isso resolvido comigo e preciso de sentir que existo porque o outro testemunha o tempo todo que eu existo e sou bom, vai ser muito difícil relacionar-me saudavelmente, assim que o outro olha para o lado mesmo que seja por um hobby ou os amigos, eu vou-me sentir ferido/a no meu território, então vou querer ir embora da relação porque não é boa para mim, mas não consigo, porque volto a confundir a intensidade com a qualidade. Os casais sentem fogo porque se zangam, e esperam, e fogem, e voltam... um cansaço, em que vejo o movimento do outro mais do que o meu próprio movimento. E o objecto amado vai-se aproximando e afastando de mim e fica difícil quando não tenho apego resolvido, quando vejo o objecto de apego a afastar-se de mim.

É bom saber a fase em que cada um está, para isso temos que ser honestos connosco mesmos, e isso é difícil mas é saudável.
Estou na fase dependente? Na fase de apego? Confundo intensidade com qualidade? E é-me muito difícil afastar desse objecto amado seja para dar espaço ou seja para me ir embora porque já não quero mais? Às vezes não preciso de me separar totalmente da pessoa amada, só preciso de ganhar espaço, território. Negociar de novo se possível. Quando não é possível e se tentou tudo é o momento de ir embora.
Terei ficado na autonomia? Há muita gente que se acha autónomo. E um adulto autónomo acha-se muito livre porque vai contra o outro, faço algo de certa forma porque tu não queres. É-se autónomo porque se move contra a regra do outro, há um movimento interno contra algo que nos dá limites. E isso na relação, há momentos em que é bom mas precisamos de caminhar para a verdadeira independência.

Na independência verdadeira, no bom contacto comigo mesmo, eu não me movo porque tenho de mostrar, mas porque faz sentido para mim, fico porque quero, fico porque é bom. Posso estar porque posso negociar, posso estar porque há fluxo de informação, mas não é porque vou contra e tenho de me afirmar, como a criança faz. Nem sempre é contra que me organizo, pelo contrário, é em contacto com aquilo que é a minha necessidade, que não é nada fácil.
Há quem repita sempre o mesmo padrão para acabar de forma diferente e há quem tenha medo de repetir e então não avança com medo da relação. E isto são as nossas histórias de vida, ao longo do nosso desenvolvimento vamos repetindo e tentando encontrar um movimento novo.
A independência é poder estar com o outro, porque é bom estar com o outro, sem precisar de me afirmar e o tempo todo de ter de experimentar território, então o outro aceita-me como eu sou e eu aceito-o como ele é e não tento o tempo todo mudá-lo, transformar. Se quero a pessoa que tenho na minha frente aceito, senão quero eu vejo se posso negociar algo, e senão vou-me embora. Aceitar o outro Da forma que ele é, que é algo que é a base do amor quando este existe. Mas por vezes ficamos confusos: porque o outro não muda e se transforma?
Como é difícil por vezes porque culturalmente a nível de relações é muito romanceado, vendem-nos ideia da qual é difícil desligar que é a procura da meia laranja (esta expressão coloca-nos como fracturados, quando na verdade somos inteiros. Não acho que haja uma única pessoa no mundo com quem sou compatível, há imensa gente interessante e que pode ser sintónica), a procura de que o outro vai nutrir todas as minhas necessidades, e será então a minha alma gémea, e com tudo isso se levamos à letra é altamente frustrante. Dizem-nos que vamos encontrar o Romeu e Julieta esquecendo-nos que acabaram mortos, tudo isso é trágico, confundir intensidade com qualidade em que acaba tudo morto, essa literatura romântica acaba em tragédia, diz-nos para amar pouco tempo e intensamente. (A Bela Adormecida casou com o príncipe mas não tiveram relação visível, viviam isolados um do outro, não sabemos o depois do casar. Olhar para o Shrek é mais interessante, a história é de uma relação normal, cada um com os seus conflitos.)

Partindo da base de que sou uma onda o tempo todo, como encontrar alguém que entre na minha onda e entre nessa dança e se possa dialogar, haver uma atenção plena do que o outro é, e como é que o outro pulsa também.

Temos de ser muito humildes connosco próprios e aceitar primeiro que quando temos algum problema de relacionamento, devemos ter uma consciência de que tudo o que é difícil vem do processo evolutivo que tivemos, primeiro tenho de entender como em construi e desconstrui, e entender que aquilo que não está a funcionar não é por causa de uma ferramenta que me está a faltar, mas sim a necessidade de um processo que tenho de iniciar para fazer um bom “mergulho”, então vai ficar fácil entender o que tenho de alterar. Não tenho de alterar nada no relacionamento, tenho de cuidar de mim, e quanto mais em harmonia e mais auto desenvolvimento e conhecimento tiver de mim, mais clareza e insight tenho. Quanto mais em contacto estiver comigo, com menos máscaras, mais fica fácil saber o que tenho de fazer. Até porque duvido que algures dentro de cada um não se saiba realmente o que se tem de fazer.

A melhor companhia que vou ter na vida sou eu próprio/a, por isso tenho de me cuidar.
No entanto, consciência é uma coisa, emoção é outra e movimento energético é outro, e o que queremos é promover a dança entre várias dimensões. Claro que temos de lembrar que uma coisa é o cognitivo, outra coisa é integrar tudo e digerir, outra coisa é inclui-lo, mastigá-lo, fazer incorporar e depois mobilizar.