8 de novembro de 2010

Falando das raízes da Biossíntese

A psicoterapia começou a sistematizar-se no inicio do século passado, com atendimentos regulares. Freud começou a sistematizar a sua teoria, através da associação livre e elaborou uma técnica particular: colocava o paciente no divã, e assim podia estudar, analisar e interpretar o raciocínio do paciente, sem se implicar no contacto com o mesmo. Freud era muito interessante, e, curiosamente como estamos em psicoterapia corporal estudamos o corpo, e observamos que ele era extremamente mental, com um corpo fino e tendência deficitária de contacto com os outros. Ele era fascinado pela mente mas tinha dificuldades no que tocava ao afecto. Contudo foi brilhante, quis conhecer o ser humano, mas colocou-o de forma a que não tivesse de vincular com ele. Criou também a Associação de Viena onde todos os psicoanalistas se encontravam para criar regras: Jung, Osho, e muito outros.


Um dos grandes discípulos de Freud foi Wilhelm Reich, que agora começa finalmente a ser estudado na faculdade. Reich falava da sexualidade, de corpo. E ao observar os pacientes no divã, verificou que tinham um corpo determinado, segundo as queixas e neuroses que tinham: a pessoa muito mental respirava quase sem se ouvir; a pessoa mais histérica tinha ancas mais largas e rabo mais empinado e era mais ruidosa a respirar; as pessoas muito contidas tinham mais dificuldade em expirar do que a inspirar, etc… Queixas somáticas. Fez então algo que revolucionou a terapia, e pediu ao paciente/cliente, para se colocar de pé, começando a integrar o corpo e a organizar e sistematizar o seu trabalho.

Houve ainda outras grandes correntes que influenciaram a formação da Biossíntese enquanto Escola:

- A Biodinâmica de Gerda Boyesen – Que desenvolveu a sua teoria endodermicamente. O estudo é feito na marquesa com massagem, sons do corpo, reestruturação energética da vísceras, trabalha os tecidos moles, e a forma como se desenvolve o vínculo com o outro. David Boadella (o criador da Biossíntese) aprendeu muito com ela sobre as vísceras e a emoção.

- A Bioenergética de Alexander Lowen – Que desenvolveu a sua teoria tomando como ponto de partida que o trabalho na marquesa é bom, olhar para como a pessoa respira também, mas porque não andar de pé, agitar-se, pular, etc.? Porque não vincular com a pessoa? Na última formação que deu, pediu aos formandos que ouvissem com atenção o que ia dizer, era algo revolucionariamente terapêutico, todos esperavam ouvir algo diferente… e ele dançou simplesmente a Polka, apesar da avançada idade, dizendo que dança era o melhor exercício terapêutico. Ele desenvolveu exercícios para as trabalhar pernas, o enraizar no aqui e agora, o expandir das emoções, usava afirmações, o grito, entre outros. O que acontece é que é mais linear, enquanto a Biossíntese procura ser mais “circular”. Na Bioenergética não é ainda introduzida a dimensão da espiritualidade, há algo concreto para trabalhar a raiva, ou a angústia, ou o medo, e liberam-se muitas vezes emoções através da dor, apesar de estar a ser cada vez menos usado. Para alguns pacientes é traumático e a quebra do ego pode ser perigosa, claro que alguém muito experiente não faz desta forma, mas a base era esta.

A Biossíntese reúne todos os ensinamentos, tudo nos interessa: corpo, espírito, psicologia, mente... Não interessa disputar entre escolas mas entender o objectivo comum de sabermos quem somos e como somos. Hoje vemos algo novo, menos separação, o mundo está em grande transformação e a integração é palavra de ordem.

A Biossíntesse foi concebida na sequência do próprio percurso de David Boadella, de estudos e experiências que começaram enquanto professor de escola primária há cerca de 50 anos atrás, em que observava cada aluno e compreendia como vincular com cada criança de forma diferente, com métodos pouco convencionais para a época, as crianças tinham espaço para se expressarem e o facto é que conseguia ter resultados fantásticos, o que fazia a própria Escola e os colegas permitirem que continuasse com o seu método inovador. Ele pôde então confirmar que havia formas diferentes de despertar cada um e começou a interessar-se pela psicologia e a fazer terapia com eles.

Descobriu que na bioenergética havia ferramentas fantásticas mas que não servia para ele de forma linear e começou a criar algo diferente em que corpo tem de estar presente, mas o que diferencia é que se começa a intervenção com a pessoa, pelo seu lado mais seguro. Começa-se pela cabeça ou a emoção, a área que a pessoa não tem fragmentada. Então David, com todo esse legado de Alexander Lowen, Wilhelm Reich, Gerda Boyesen, vai observar qual é o lugar onde ainda há energia e onde posso começar a vincular, vai também observar o corpo: onde está o reservatório e onde adoece mais.

Esta é a concepção, antes de ser uma Escola ou corrente. A forma do David, alem de ir para o lugar não patológico e de introduzir uma conjugação de várias correntes (umas muito mentais como a PNL, a bioenergética com descarga, a biodinâmica com as vísceras, o budismo com a parte espiritual), ele queria que se pudesse trabalhar tudo isso, mas viu que faltava algo: além de encontrar o lugar seguro, não ser só cognitivo e não só transpessoal, queria algo integrador, com parte espiritual. Ele chama a esta espiritualidade a bio espiritualidade, que não está ligada a nenhuma religião. O ser espiritual é quem está bem com a essência, com a ética, tem aceitação, segue com o fluxo da vida, é naturalmente disponível. É a ligação com o canal essencial que leva ao contacto com a essência e com tudo o que nos rodeia, há necessidade natural.

Quando o ser humano nasce, o nascimento psicológico é quando me dou conta que sou eu, diferente dos outros, do que gosto e não gosto e do que preciso e não preciso (e há quem ainda esteja neste nascimento na idade adulta). Mas se há estas duas (nascimento físico e psicológico), há a necessidade de nascimento para além do ego, no espiritual. O ego é necessário, tem de ser funcional, dinâmico, o ego está aí e podemos ir para além dele, não contra ele. David não vende milagres, ele quer entender a vida e a nossa dinâmica, entender de que somos feitos, como nos construímos e onde chegamos. E só aí posso apaixonar-me pela vida, isso é o verdadeiro orgasmo, quente e apaixonado pela vida.