7 de outubro de 2010

Integração de Vida Profissional e Pessoal


Image: Calm Down by Sugarock 99

Num dia solarengo de feriado (5 de Outubro), muitos foram os participantes que preferiram ficar dentro de uma sala de formação e vivenciar um trabalho pessoal, experienciando novas formas de saber integrar de forma equilibrada as várias dimensões da nossa vida.

Estamos na sede da escola de Biossíntese para Portugal e Espanha, mais do que uma escola de pensamento, a Biossíntese é vista pela sua responsável, Dra. Maria del Mar, como uma escola de vida.

A Biossíntese é uma Psicoterapia corporal, envolve o corpo, mas há por vezes ideia errada de que trabalha só o corpo e se trabalha muito com movimento ou com massagem ou fora do verbal (falar), o que não significa que não possa acontecer, mas esta psicoterapia inclui também o corpo no processo de desenvolvimento, não usando só o verbal ou cognitivo.

Maria del Mar fala-nos da Biossíntese e partilha a sua experiência: “Eu acabei a faculdade (licenciada em Psicologia Clínica) e não sentia que tivesse maturidade para me colocar à frente de uma pessoa e acompanhar o psico afectivo e energético, e nem sabia que a psicoterapia corporal existia, quando conheci a Biossíntese é que me dei conta de que podemos olhar o ser humano como um todo, em todas as dimensões.

David Boadela diz que a alma precisa de movimentos lentos, não se pode empurrar o rio. Algo que acontece com o meu estômago tem a ver com o meu estômago mas também com a forma como me relaciono com os outros, problemas de pele estão relacionados com problemas de contacto, forma errada de respirar tem a ver com forma de estar vivos e de deixar ir todas as coisas, etc…. e a área da neurociência está em constante desenvolvimento e é muito interessante, o que me encantou é a forma integradora de olhar para o ser humano.

O nosso corpo tem história, das emoções de alegria, de frustração, de prazer, de desprazer e tudo vai ficando registado no nosso corpo. Quando olho para um corpo, em que mesmo sem falar há muitas coisas que podemos ver, formas de caminhar, estruturas mais compactas que outras, tudo são mecanismos que vamos usando para fazer frente às experiências que temos. Tudo o que se repete, o corpo vai gravar. Como grava uma doença ou uma forma do corpo.

A Biossíntese é uma área que se liga a tudo, às empresas, ao ensino, à família, porque tudo tem a ver como somos afectados e como afectamos os outros.

A formação é muito vivencial e prática. Tem a ver como eu entendo como a vida flui, a dinâmica, qual a melhor forma de gerir o meu tempo, as minhas prioridades, como ter uma família ou pensar nisso e ter tempo de qualidade para eles, para ir à sogra, fazer compras, de estar comigo, etc. E há pessoas que dizem “que pena o dia não ter mais de 24h”, mas não dá, o tempo tem o tempo que tem de ter. Senão vamos contra a maré e frustramos com aquilo que não podemos controlar. Tem também de se observar: como fazemos a gestão de prioridades, a nossa visão, como cuidamos de nós, a cegueira de não podermos dizer que não (parece que dizer que não é um fracasso e é uma bola de neve)…

Ideias importantes, insights, já devem ter tido muitos. Mas depois aquilo faz assim, pfffff, como um balão. Passa. Passa a ideia de que algo tem de ser mudado e passa como um avião. De facto, as ideias às vezes passam mas não corporificam, não ficam como algo que vou cuidar. Tem de fazer sentido para mim. A ideia é brilhante mas passa…

Por vezes a listagem para mudar a minha vida é tão grande, que: ou esqueço, ou fico a torturar-me porque não o fiz. Tinha um paciente que era controlador e perfeccionista, super racional. Colocou tudo: as prioridades, as coisas, tudo escrito num painel grande em frente à cama, feito de propósito, perfeito. E todos os dias aquilo lhe lembrava do que não tinha feito. Ao fim de muita auto-tortura destruiu aquilo tudo, e ficou só com uma opçõa, pois ainda não lhe era possível fazer e não se muda tudo de uma só vez.

A proposta hoje é podermos estar juntos e fazer um “check up”, mais do que dar dicas ou regras para o que tenho de fazer para ter mais tempo em casa (regras e logística fica para vocês). Quando estamos motivados em conhecer a dinâmica da vida, a estratégia surge. Eu não vou dar estratégias, vamos trabalhar a nível de atitude e realidade interna, que é única para cada um.

Vamos falar do que é a Biossíntese e vamos integrando com este tema de hoje e como isto me afecta.

Quando trabalhamos com o corpo, trabalhamos com princípios da embriologia, os padrões de respiração, o tónus muscular e a expressão das emoções. Um terapeuta olha para como o corpo chega no primeiro contacto, qual é a zona que protege e que está menos disponível.

Como é a história da minha formação embriológica? O que estava a acontecer com a família quando a minha mãe ficou grávida? Estavam em crise? Fui desejado ou foi um susto pois eu não era esperado? Os meus pais estavam apaixonados?... A vida encontra o seu caminho num momento determinado e isso afecta o bebé. Todos os pensamentos dos pais e familia já afectam esse novo ser, é impossível desligar da nossa experiência psico afectiva e emocional sem observar isso. Há bebés que eram esperados como sendo meninos e são meninas, tudo vai influenciar.

David Boadella começou a interessar-se sobre tudo isto há mais de 30 anos, ele vinha da época da psicanálise, quando se começou a organizar tudo e a regular, nessa altura começaram a haver seguidores que entenderam como era importante olhar para o corpo, a respiração, a forma de adoecer. Primeiro foi Reich, que se colocou ao lado do paciente e aí se começou a treinar a psicoterapia que era na atura só cognitiva. Depois veio Lowen que começou a trabalhar de pé quando necessário, a interagir com o paciente, a trabalhar juntos, e quando necessário o terapeuta coloca o seu corpo como instrumento de trabalho, o corpo fica incluído de diferentes maneiras. E é aí que David integra isso tudo. Biossíntese significa integração de vida.

Peço que se vão lembrando como foi a vossa história. A nossa história não tem que nos dominar, se não ficar no passado e se incluo a minha história como mais um elemento de conhecimento. Porque ela é a minha realidade e diferente dos outros, é só minha.

A PSYCHE

Integramos sentimentos, pensamentos e acções. Há 3 factores importantes que formam e moldam o indivíduo, temos sempre estas 3 áreas: pensar, sentir e agir.

Quantas vezes passam ideias na nossa mente mas não agimos? Às vezes ficamos enganchados na emoção que não nos deixa pensar, algo que é doloroso e vazio. Outras vezes para não pensar ficamos no fazer, na acção acção acção. Ou então fico só no pensamento… Quando estou sempre em movimento estou a evitar pensar, para não entrar em contacto comigo mesmo e ver coisas por vezes que me são muitos difíceis, algo que me magoe, algo que devia ter alterado…

Tenho um paciente que dizia: “quero fazer terapia, mas não quero falar sobre o meu pai, nem mãe, nem avós, nem ex mulher. Eu tenho um problema de stress e quero que me tirem isto, mais nada!” E eu disse-lhe “é lógico que não temos de falar em nada disso” e fomos avançando com formas de derretermos as defesas, porque se há algo que cura é o coração, a compaixão, compreender que o outro ainda não está pronto para fazer algo.

Tinha outro paciente com uma estrutura rígida, queria expulsar de casa o filho de 12 anos, porque ele não estava a ter resultados na escola, ele dizia que trabalhava 20 horas por dia e aos 11 já trabalhava. Fomos cuidando da sua criança interna, e entender que tudo aquilo estava ao contrário. O filho deveria estudar, mas precisava de ser criança e não tinha porque se repetir o padrão… Os workaholics, quando param de repente adoecem, têm crises de asma, gripes, enfartes, porque o sistema simpático está todo ocupado, e de repente a energia baixa e vem a doença, e nesse momento de maior relaxe na consulta, ele adormeceu e foi aí, nesse prazer, do que tinha sido bom na época em que a sua vida não era tão stressante que ele tomou consciência e começou pouco a pouco a mudar.

Para relaxar e viver mais conscientes e centrados não quer dizer que temos todos de ir para a montanha, ser vegetarianos e vestir toga. A nossa realidade é cá, mas estamos a perder o contacto com a nossa atitude interna, uma parte muito importante de nós mesmos.

FUNDAMENTOS

Dá-se ênfase às nossas raízes individuais. Os principais temas da aprendizagem são: os padrões de sustentação do corpo, as tendências de polaridade no corpo e as qualidades do impulso.

Relativamente ao nosso tema de hoje, não é que seja errado conquistar muito e trabalhar muito. A medida como o integramos na vida é que é importante, temos de ser consequentes, se queremos sacrificar e não ter outra parte da vida. É um compromisso interno de alma. Quando nos dedicamos a envolver-nos numa vida pessoal com um companheiro, mesmo com um animal de estimação, temos de cumprir. Não é mais nem menos importante, são áreas da vida. Temos a profissional, a familiar, a social e a individual. Se tiro a individual, fico na “máscara”. Se tiro a família por exemplo… quando se chega aos 50 vê-se que não se cuidou dessa área que passou e a pessoa sente arrependimento.

O corpo de pessoa demasiado dedicada ao trabalho (nota: as generalizações servem o que servem e valem o que valem) apresenta essas pessoas com estruturas rígidas nos ossos, dores nas cervicais, raramente têm digestões fáceis, tem tendências a úlceras ou gastrites, suportam grandes períodos sem dormir ou comer muito, a estrutura é compacta, podem não adoecer durante muito tempo mas quando acontece é algo geralmente muito grave.

Vamos olhar para o nosso corpo e para a nossa história: como é? Adormecemos com facilidade? Temos digestões com facilidade? O corpo é rígido? Temos consciência? E como lidamos com o tempo e o dinheiro?

Quando olhamos para a nossa “raiz”, vemos como me relaciono com o espaço, em casa… Em grupos tendo ao isolamento? Como lido com o espaço? Como organizo a casa? A casa fala da dinâmica que tenho lá. Como me organizo? Que cores coloco? É como redistribuir o nosso interior. Quando tiramos tudo para fora do armário, parece que esventro, olho para todo o caos e coloco tudo numa nova ordem, não se sentem bem?

ENRAIZAR

A raiz é um centro energético na base da coluna. Olhamos para as nossas raízes: de onde venho? Para a relação com o próprio corpo. Para os campos motores. Para a relação com a gravidade.

Quando trabalhamos em Biossíntese, olhamos para a quantidade de energia que a pessoa tem, há pessoas que dedicam muito tempo ao trabalho e sentem-se profundamente cansados.

Há distinção de quem se dá conta do cansaço e não pode parar (esgotamento nervoso é a tendência destas pessoas), e quem não se dá conta e um dia adoece, tem algo mais somático, há de repente um crash num órgão, por exemplo um enfarte. É bom que a pessoa entenda…

A energia, e a gestão que faço dela, é importante.

Quem tem paciência de estar no trabalho, com mil coisas, e chegar a casa e está o meu filho a mostrar um desenho que fez na escola, ou tenho a mulher à espera de um jantar romântico. E só conseguimos ficar prostrados no sofá, a ver programas que nos dizem até quando temos de rir, como aquelas séries americanas. Chegamos a casa e deveríamos ter outro “chip”, quem está ali à minha frente precisa de afecto e carinho. Os filhos enfiados na escola todo o dia estão desejosos de verem os pais e de serem vistos. 60% dos casais jovens fazem amor uma vez por mês, não é uma catástrofe? Patológico. Perdemos. Ficamos enrolados nessas outras coisas e tudo é secundário. Não temos tempo porque não temos disponibilidade interna para isso e perdem-se detalhes importantíssimos para a nossa existência. É impossível parar o meu biológico, o meu impulso. A energia não se destrói só se transforma, eu tenho necessidade de afecto, de prazer, e quando fico só no trabalho aquilo tem de ir para algum lado.

CENTRAR

A transição é muito importante, quando mudo de algo para algo. De cada vez que mudo de trabalho, de profissão, de companheiro, é uma pequena morte, um novo passo, tomar uma nova atitude na vida. Pode ser que eu decida começar a olhar as coisas de outra forma.

Aqui olhamos para o nascimento, a gravidez, a nossa história. Para a ressonância do nascimento no corpo. Para como vivemos os momentos de transição na vida. Para a forma de reorganizar a nossa história do nascimento. Para a estrutura do trabalho de nascimento.

ORALIDADE/ NECESSIDADE

A nossa forma de nos expressarmos pode ser algo confusa. Não é só a voz. Como nos dirigimos aos outros? Há cortes de pensamento que não coloco para fora e não me faço entender?

Olhamos para o centro de energia da garganta. No primeiro ano de vida há um carácter oral, necessidades saudáveis e aquisição de hábitos, aliados aos elementos de toque. Na criança abandonada há uma etapa de sustentação, fica-se entre o Coração e a Garganta. Há necessidades, uma visão embriológica do alimento.

Na expressão das necessidades, na hora de nos expressarmos, ganhamos mais com clareza e serenidade. Quando é confuso, não somos claros, damos demasiados sinais e cria-se confusão no diálogo.

Observa-se a perturbação a nível da garganta e da expressão. A relação com a comida. A primeira necessidade básica, por isso o bebé leva tudo à boca descobrindo assim o mundo por esse sentido que lhe dá prazer.

Como fazemos a gestão da ansiedade que temos? Muitas vezes depois de todo o dia no trabalho, fico bulimico à noite, como demasiada comida, chocolate, ou bebida, fica-se compulsivo. Pelo vazio tão grande, pela necessidade de preencher o vazio, que tem mais a ver com vazio de vida emocional que não está a ser alimentada.

O bebé precisa de aconchego, de calor, de alimento. Tudo pode ser nutrido. Desde que quem cuida de nós o faça bem feito, é mais fácil para mim compreender as minhas necessidades no futuro. Senão a criança fica com necessidade de contacto, e vai fazer algo com essa carga que não tem espelho: ou bate nos outros e fica violento ou fica birrento, porque as crianças vêm muitas vezes de casa abandonadas. Falta-lhes vínculo, afecto, que as olhem com responsabilidade e reconhecimento. E a criança sabe que algo está errado mas não sabe o quê, não sabe colocar em palavras. E quando lhe dizem que tem tudo, os meninos em África é que não, claro que se gera revolta interna que não conseguem expressar e compreender.

Hoje em dia o trauma nem sempre é pior porque é agudo, alguém a quem morra alguém próximo, ou que tem um desastre e sobrevive. Se o evento é isolado, por muito dramático que seja a pessoa vai conseguir superar. Mas pode ser bem pior, e minar mais o sistema psicoafectivo da pessoa, se o nosso pai nunca olhou para nós. Grande parte das depressões e angústias não tem a ver com uma vida horrível que a pessoa teve, parece que não é aceitável ter quase tudo e sentir essa angustia e depressão pelo pai nunca ter dito: “já te considero um homem” e mostrar que o vê. O “contínuo” pode ser mais arrasador do que um evento singular da vida.

FRONTEIRAS

No centro do diafragma está o chamado botão do pânico, vai sempre dando sinais e sobretudo os que são muito emocionais sentem-no muito. As pessoas muito mentais sentem menos, as mais encouraçadas, que resistem, bloqueiam essa parte. Mas é sinal de alerta intuitivo e ligado à nossa sobrevivência. É bom aprender a tomar decisões “com a barriga”, e nos casos dos mentais é melhor tomar decisões com a barriga, são mais acertadas. E vice-versa, com os mais emocionais temos de ensinar como tomar decisões recorrendo mais ao pensamento.

Esta zona é a zona dos vulcões emocionais, o problema disso é que é unidireccional, a pessoa deita para fora, mas não integra nem quer ouvir do outro lado, então é visto como tempestivo.

Aqui se encontram as emoções de raiva e ansiedade do simpático. Os aspectos poderosos do carácter (masoquismo/ psicopatia), a criança vencida: masoquismo social e padrões de auto-depreciação. Observam-se as etapas da exploração, as polaridades: masoquista / psicopático, obsessão / compulsão, e os limites: vítima/ carrasco, raiva/ medo.

Uma pessoa sempre afecta um mínimo de pessoas só com a sua presença, com a sua atitude na vida. A pessoa clara clarifica.

Ás vezes o outro adoece e é a relação que está doente. Há muitos tumores e cancros que têm a ver com o sistema familiar (fígado relacionado com angústia, intestino com engolir sapos, mama outra coisa, útero outra coisa, etc.)

Até as empresas têm doenças, crises alérgicas, tumores, etc. dependendo dos líderes. Cada empresa é como uma família, é uma pirâmide, e se o líder não se der conta que tem de cuidar da dinâmica, adoece. É um ciclo vicioso.

Tinha uma paciente que fez um movimento radical, ela tinha dedicado toda a sua vida profissional à economia e à vida financeira, não tinha construído uma família, e um dia entrou em profunda depressão e pediu ajuda, teve um tumor raro, uma coisa difícil no sangue. E a então a questão que se colocou foi: o que faria de mais louco e empolgante na sua fantasia? Ela fantasiou ir para Índia e ficar lá a ensinar idiomas nos ashrams, vestida com roupas simples e meditar. Seria assim tão impensável? Ela dizia que sim… mas a semente ficou lá. Ficou a pensar naquilo, e tudo começou a tomar forma. Ela despediu-se, vendeu tudo, fez um pedido de licença sem vencimento, apercebeu-se que cada vez precisava de menos, e a família achou que tinha enlouquecido. Levou o cão com ela e começou a viver 2 meses na índia e 2 na Inglaterra, virou vegetariana, e mudou tudo. Como é interessante que se precisa de viver com tão pouco, com trabalho pagava a comida, tinha só duas mudas de roupa, iniciou uma relação lá com um hindu. E agora quando vem de visita, vem com bom ar, vem iluminada, com rosto feliz, com paciência para todos. Uma pessoa em harmonia é isso, ocupa o seu espaço e contagia-nos com o seu bem-estar, sem precisar de dizer muito.

Não é preciso ir para a Índia para se encontrar, é preferível fazer esse primeiro contacto com o interior, e depois então ir viajar e aproveitar mais. Conectar-me com o que verdadeiramente sou eu e quero fazer comigo, aí as coisas graves já não são tão graves.

Tenho paciente que diz “curiosamente, a vida aparentemente não mudou nada, mas mudaram outras coisas no meu interior. Já não saio de casa zangada, aos gritos. E no trânsito dou conta que tenho de me habituar que é o tempo que demoro, então aproveito esse tempo para mim, não vou stressada. E chego a casa e vejo como posso estar neste momento melhor.” Ela aparentemente não mudou nada mas mudou tudo.

Para enquadrar as diferentes áreas e isso nos poder ajudar a, pouco a pouco, olhar mais profundamente, queria mostrar-vos um esquema muito simples que é uma ferramenta muito útil no trabalho, nas empresas, no casal…

E o esquema explica tudo o que temos falado de forma simplificada:


Neste hexagrama temos conceitos como a parte da couraça muscular e os 7 centros energéticos (chakras) ou glândulas que são centros de entrada e saída de energia, são aqueles que em harmonia vão construir self mais organizado.

O self tem 3 capas: estrutura de fora é máscara em que me tento mostrar ao mundo da forma mais funcional, mesmo que esteja deprimido não chego ao trabalho e digo isso, levo a máscara. Ela será mais ou menos adequada na minha vida, se não é adequada vai-me criar rigidez em algum lugar no corpo ou distúrbio crónico, para manter máscara que é uma forma de achar que me defendo mais.

Quando me aproximo do lugar mais essencial, o centro, fico mais solto. Quando passo por algo em que dou conta de que estou mal é a camada menos encouraçada que fala, é a que vem ao consultório, isso é um pouco mais além da máscara, é a essa que precisamos de dar atenção, é a que está disponível para caminhar para a essência.

Há camada mais profunda em que cada um é único, senão fico perdido no “mostro/não mostro”. A máscara não se destrói e não devo achar que é má ou auto criticar-me. Ela serviu para sobreviver. O auto insulto é bem mais arrasador que o dos outros.

Quando estou solto sou uma pessoa fluida. A pessoa serena que lida bem com a máscara e lida bem com corpo, tem corpo mais solto e movimento mais harmónico.

Demasiada energia ou cansaço permanente, faz com que não saiba como cuidar de mim, como me alimentar, descansar, gerir os estados internos de energia, viver a sexualidade (sexualidade é uma coisa tabu na nossa sociedade mas é algo natural, e neurose é a falta de eros, de prazer, antes de sermos sexuais somos eróticos, erotizamos com carícia, prazer, sabores, que abre os sentidos e outras sensações. 60% das mulheres não tem orgasmo, 60% não sabem que têm alguma impotência ou ejaculação precoce. É necessária a carícia e o toque, a libido, a frequência, mil coisas. A pessoa workaholic leva toda essa energia, essa carga, para o trabalho).

O plexo solar está relacionado com colocar limites: dizer não e sim, quando posso conter-me. Quando distingo que emoções tenho é mais fácil. Às vezes expresso raiva e digo ao outro “sai da minha vida” e na realidade estou triste por não ser vista, porque estou a usar a minha máscara, e o outro responde da mesma forma com raiva, quando na verdade os dois estão tristes.

Por vezes tenho papeis na minha família, mulheres que “maternam” homens e vice versa, e filhos que fazem de pais, etc. às vezes as trocas acontecem e mais cedo ou mais tarde vai haver insatisfação, eu cuido dos outros para não me dar conta de que preciso ser cuidado, abandono para não ser abandonado, e por aí fora. Os relacionamentos devem ser claros, em que sei qual é o meu papel, há diálogo a vários níveis.

Na garganta encontramos a expressão, há pessoas muito difíceis de entender de que estão a falar, falam de pormenores e não do essencial. Fica confuso, parece difícil ir para a questão.

Na pineal: exploramos os sonhos, as imagens velhas. Os sonhos… acham que se morre se não se sonhar?

Na segunda guerra mundial, avançou-se muito na ciência graças às cobaias que usavam... E uma das muitas experiências que se fizeram foi um estudo, em que se pegou num grupo e não se deixava que sonhassem, quando se passava de sonho REM para não REM, acordavam a pessoa, fizeram isso um mês e pouco, então verificou-se que as pessoas começaram a descoordenar os movimentos, na segunda semana havia terríveis desarranjos intestinais e a partir do 28º dia todos morriam, de forma imediata e fulminante. Todos acabaram entre a loucura e o colapso. Outros estudos foram feitos depois. A conclusão que se tirou é que se não se sonha morre-se. Porque o nosso cérebro precisa de encontrar formas de organizar e encontrar melhores finais para coisas difíceis que vivemos durante o dia.

O alerta é de que há que cuidar de muita coisa em nós e dar a cada “lugar” uma importância e uma dinâmica e questionarmos o que temos feito até agora. A proposta é um check up. E vamos trabalhar a nível da essência.

A Biossíntese trabalha o cognitivo, o corpo, a neurologia, a ciência e a meditação (e nesta parte não é necessário acreditar em Tao, Buda ou Jesus Cristo, é feita uma conexão interna com algo).”

A parte da tarde foi vivencial, com dinâmicas e exercícios. Depois de vários exercícios que ajudaram essa conexão com a essência e o entendimento de onde estamos e como estamos a todos os níveis, um dos exercícios práticos foi o mapeamento individual em gráfico das diferentes áreas da vida como a profissional, o dinheiro, a individual, a social e a familiar, o objectivo e a proposta era olhar de dentro para fora. Dar-nos conta da nossa tendência sem julgamentos ou interpretações.

Cada um levou o seu gráfico e quem sabe, olhará para ele daqui a um tempo, porque os gráficos desse tipo devem mudar, ter uma dinâmica.

No final criou-se um “antídoto” para cada um. Um antídoto é uma espécie de compromisso que se leva.

“É um risco muito grande quando nos perdemos em áreas únicas e o ser humano faz-se de varias dimensões: da compaixão, do trabalho, do amor, do reconhecimento, muitas coisas, e quanto mais cuidadas tenho essas áreas mais fácil é lidar com a que está mais em crise como a profissão em determinado momento, ou a família.

É interessante ver que cada vez mais as doenças estão muito relacionadas com a forma de viver que eu tenho, durante a formação tentamos olhar para todas as dimensões. O mergulho que fazemos na nossa formação não é fácil, nem o curso livre nem a pós graduação, porque a principal cobaia é o aluno, é a única forma de se tornar um bom terapeuta, conhecer todos mas experimentando nele próprio."

As candidaturas para a pós-graduação estão abertas, para entrar é necessário marcar entrevista pessoal.

Há um conto dos índios da montanha, da América do Norte, passado quando ainda havia índios à seria com rituais. O chefe da tribo estava velho e precisava que alguém desse continuidade à sua chefia, ele tinha 3 filhos, todos com muitas qualidades, eram inteligentes, e talentosos e nas tribos índias o filho que fica como substituto do chefe é o que tem mais qualidades, não necessariamente o filho mais velho. Então, para os desafiar, ele propôs aos três que subissem a montanha sagrada onde ninguém tinha conseguido chegar ao cimo. Os três fizeram-se ao caminho e iniciaram a escala da montanha de coração.
O primeiro voltou e disse: “Não deu, lamento”.
O segundo voltou e disse: “Pai não foi possível… lamento”.
E quando chegou o terceiro filho o velho chefe disse-lhe: “Tu também não conseguiste subir!”
- Não pai, ainda não consegui.
- Então quer dizer que chegaste mais longe?
- Não. Acho que cheguei até menos longe do que os meus irmãos, mas dei-me conta de que a montanha não cresce mais e eu ainda estou a crescer.

Jorge Bucay diz que nós sabemos ser humanos há muito tempo, só que esquecemos. Não é nenhum achado. As prioridades de base são sempre as mesmas. Deixamos-vos com um pequeno texto deste interessante autor e psicoterapeuta:

Construímos casas cada vez maiores…
E famílias mais pequenas.
Gastamos mais… mas temos menos.
Compramos mais… mas desfrutamos menos.
Habitamos em edifícios mais altos …
Com vidas pouco profundas.
Vamos por auto estradas mais amplas…
Com mentes cada vez mais estreitas.
Temos mais conforto…
Mas vivemos mais incómodos.
Temos mais conhecimento…
E menos sensatez.
Mais espertos… e com menos soluções.
Mais medicinas… e menos saúde.
São tempos de comida rápida…
E de digestão lenta.
De casas fantásticas com lares desfeitos.
De zangarmo-nos muito rapidamente
Mas de perdoar lentamente.
De sair muito cedo
E chegar sempre tarde.
Levantamos as bandeiras da igualdade,
Mas sustemos os prejuízos.
Temos a agenda cheia
De telefones de amigos
A quem nunca telefonamos…
E as estantes das nossas bibliotecas repletas de livros,
Que jamais leremos…
Ganhamos a vida
Mas não sabemos como vivê-la.
Possuímos cada vez mais coisas
E desperdiçamos as importantes quase todas.

Por Jorge Bucay em "O caminho da espiritualidade, chegar ao cimo e seguir subindo"

Trabalho dia 5 de Outubro 2010