7 de setembro de 2010

Diz-se alguém com “garra”, que vive em equilíbrio consigo e com o mundo. Mas nem sempre foi assim. Durante anos, Marta, de 39, viveu “à deriva” – a expressão é dela. Lá atrás no tempo, a jovem descontraída e optimista transformou-se numa adulta “cinzenta, e mal com a vida”. O que aconteceu? “Cresci e passei por experiências que me obrigaram a proteger do mundo. Quando isto acontece, criamos camadas sobre a nossa essência, o que por vezes nos provoca uma certa apatia, inclusivamente em relação a nós mesmos”, explica, agora em processo de auto desenvolvimento. Sendo algo intrínseco a todos os seres humanos, o melhor de nós existe e está sempre lá. Por que será então tão difícil, por vezes, trazê-lo ao de cima? Porque escolhemos ignorá-lo, permitimos que nos anulem esse legado ou, no limite, convencemo-nos de que não somos suficientemente válidos para o ter e, como tal, não o podemos ir buscar? As respostas são múltiplas.

Pode ter a ver com a forma como fomos educados -  a liberdade a mais ou a menos que nos foi dada, a medida de amor e desamor que recebemos - e a forma como encaramos e gerimos o que vivemos. Mas também com a influência que algumas pessoas têm sobre nós, embora os especialistas esclareçam que, em parte, somos responsáveis pelo que nos acontece.

A fórmula é simples: as pessoas que não nos valorizam não nos merecem. Logo, há que ter a coragem de as manter longe. É válido nas relações de amizade e de amor.

“Viver as experiências que a vida nos oferece é obrigatório, sofrer ou aprender com elas é uma opção”, defende Matthieu Richard, o monge budista com obra escrita sobre a Felicidade, que esteve em Lisboa a 26 de Maio passado, para uma conferência sobre o tema. Richard defende que este estado de satisfação é uma capacidade que se conquista com algum esforço, exercitando as emoções positivas. E que é possível mudar fisicamente o cérebro por meios dos pensamentos que escolhemos ter.

Todas as pessoas têm capacidades que, activadas, são um caminho para a classificação dos dois especialistas em Psicologia Positiva para dar aos pacientes que duvidam ter estas competências. “A percepção que a pessoa tem de si, às vezes, está desfocada. O que acontece é que estamos muito focados no que pode acontecer-nos de mal e nas características negativas”, comenta Ana Caetano. Em termos evolutivos, as coisas más têm um valor de sobrevivência. “Quem arquivou mais experiências de medo ficou mais preparado para o que pode pôr em perigo a vida.”

Ainda temos “uma educação muito focada no erro. Aquilo em que eu foco a minha atenção é aquilo que acaba por se tornar a minha realidade”. Ana Caetano concorda que certas experiências e a influência de algumas pessoas podem ser obstáculos a esta procura do nosso eu mais profundo. Mas é peremptória: “Não podemos impedir-nos de sentir, podemos é gerir aquilo que sentimos”. A especialista fala na possibilidade de olhar as emoções como se fossem uma bússola: tal como este instrumento, dizem-nos onde estamos e podem orientar-nos.

“As emoções e sentimentos dão-nos muito a perspectiva do que está ao nosso alcance – ou seja, eu sinto-me de determinada maneira, pergunto-me porque me sinto assim; concluo que não quero sentir-me dessa forma, por isso quero ir por outro lado.”

Em matéria de capacidades ou competências, a boa noticia é que não só podemos ir buscá-las quando estão “esquecidas”, como também optimizá-las. A psicologia pode ajudar nesse sentido, sobretudo quando o problema se fica a dever a bloqueios muito concretos, que envolvem medos e angústias. “É preciso ser pró-activo e procurar porque é que eu sou de determinada forma. E, em alguns casos, o que é que eu ganho em pensar sempre o pior”, diz Ana Caetano.

O melhor de nós a nível mais profundo, mais psicoterapêutico, até mais espiritual, está na nossa essência”, defende a psicóloga clínica e psicoterapeuta somática Maria del Mar Cervantes, directora do Centro Português de Biossíntese. Lembra que a nossa essência é um lugar isento de culpas e condicionalismos socioculturais, e que, quando temos acesso a ela, “estamos em contacto com a felicidade e a serenidade, mas também com a capacidade de lidar com as adversidades”.


Muitas pessoas vivem muito longe do que são, das suas melhores qualidades, porque acumulam pela vida fora “impedimentos, falsas visões, auto-enganos, frases que lhes foram ditas e uma ou outra imagem deturpada”. E defende que o contacto de cada um com o seu melhor passa por um trabalho profundo de entrega e compromisso. Apresenta a Biossíntese como uma forma de lá chegar – a psicoterapia somática como uma abordagem multidimensional do ser humano, que constitui a “integração da vida”.

Ao contrário da ruptura com o que se foi acumulando ao longo dos tempos, sejam falsas visões, sejam experiências dolorosas – a que Maria del Mar se refere como “as máscaras que vamos acumulando” - , a especialista propõe a integração das mesmas. Esta integração “faz-se de forma serena, homenageando o passado que nos acompanhou – Coisas que já não nos sirvam, como a vergonha excessiva, o stress e a tensão, mas que, em algum momento, nos foi útil”. O objectivo de integrar estas camadas que foram obstruindo a nossa essência não é ficar perfeito, iluminado ou curado, sublinha, “mas o de estar a caminhar sempre e a melhorar sempre, como ser humano, descobrindo o que se é e o que nos faz pulsar”, de forma a atingir cada vez mais um estado de satisfação. “Precisamos de regredir para progredir”, conclui.

Ana Caetano apresenta o brainspoting como via para trazer ao de cima o melhor de nós. Justifica-se tanto mais quanto o bloqueio se fique a dever à vivência de experiências traumáticas. A outra via igualmente eficiente é o EMDR (Eye Movement Desensitization and Reprocessing, em português Dessensibilização e Reprocessamento através do Movimento Ocular).

Independentemente da abordagem que se escolha, é importante rodearmo-nos de pessoas boas que gostam de nós e de quem nós gostamos, e de nos mantermos perto de quem nos valoriza.

Artigo: Julia Serrão | Revista MÁXIMA | Outubro de 2010