23 de setembro de 2010

Felicidade - Fluir e Ser.

O tema, daria para muito mais do que as quatro horas disponíveis. O convite era dar um breve mergulho no tema, e compreender onde por vezes tropeçamos ou ficamos em colapso.

“A felicidade é um conceito simplesmente difícil ou dificilmente simples” – comentou Maria del Mar.

Precisamos de entender, temos necessidade de dar nomes às coisas. Mas quando entendemos “o sumo”, o sentido verdadeiro do movimento da vida, como estamos nesse movimento e fluímos, chegamos a um sentir profundo, à certeza de que estou “no bom caminho”, e aí não precisamos tanto de dar nomes.

O que é na realidade a felicidade?
A capacidade de fluir com a vida? Um estado de ser? Sentirmo-nos bem connosco e com o mundo? Algo subjectivo porque cada um a vive de forma diferente? Um caminho? – Os participantes foram lançando algumas ideias.

Maria del Mar teceu algumas considerações, após explicar sucintamente como é feita a abordagem em Biossíntese ao tema:

- A felicidade não é nunca absoluta, tem momentos, é impossível estar em transe permanentemente, porque frustramos e ficamos insatisfeitos e conforme vamos evoluindo algo me move. É feita de momentos e se possível visitada com assiduidade.

- É um estado e não uma condição. Algo que se sente e quando sinto, se estou consciente do meu eu, é de facto real, é algo profundo, desde a ponta do dedo do pé até à ponta dos cabelos.

- Dá trabalho e precisa tempo. Não chega parar, ficar ali encasulado e não fazer nada, precisa que a mimemos, a homenageemos, a reguemos, a apreciemos, é algo não permanente e por isso tenho de cuidar. Eu não posso fazer feliz o outro (embora seja o que romanticamente me vendem), ninguém é detentor da felicidade do outro.

- O dinheiro ajuda mas não “dá felicidade”

- As religiões e filosofias não são felicidade, observa-se muita pseudo-espiritualidade em que parece que se não se pertencer a algo não se será feliz. O verdadeiro mestre é quem te ensina a seres tu, há um reencontro não é um deixar-me no colo do outro.

- Estamos em constante mudança. Quando chegamos ao cimo de uma montanha o que fazemos? Continuamos a subir. Já dizia Bucay.

- A coerência do meu eu – se eu sou eu, e tenho gostos, princípios e aptidões, qualidades que descobri, tenho de lhes ser fiel, tenho de cuidar do meu caminho com aquilo que eu sou. Senão vou ficar na angústia e sentir-me perdido. Se eu sou bom a escrever, vou tentar cuidar disso e faço-o nos tempos livres, em part time ou como hobby mas eu não posso abandonar o meu eu. Muitas vezes pergunto aos meus pacientes: se fosses livre, se não tivesses limitações de tempo e de dinheiro o que fazias? Uma paciente disse-me: Dançava. Hoje em dia entra em concursos de dança, continua como professora, mas tem esse seu tempo para se expandir, deixou de ter enxaqueca, passou a dormir melhor… Importa descobrir quem sou eu. Quando a nossa mãe por exemplo nos dizia “não prestas, não vales nada”… já nem sei quem sou. Quando sou castrado a tendência é “brigar”. Perante pai e mãe difícil há quem resista e outros para quem o movimento é a desistência.

- a aceitação da realidade – tal e qual como é, com factos, é difícil. Numa experiência feita numa Universidade, pegou-se num grupo de alunos e deram-lhes ratos para observarem o seu desempenho, dizendo-lhes que os ratos cinzentos tinham pior desempenho geneticamente do que os brancos. No final da experiência, em que se confirmou que o grupo de ratos cinzentos tinha pior desempenho por observação dos alunos, foi revelado que os ratos cinzentos tinham sido pintados. Demonstrando a experiência quanto à prior uma crença pode conduzir a um resultado falso. Não dá que pensar? Por à prior termos algo que “já vestimos”, deturpámos a realidade que temos.

- a aceitação dos desencontros – quando há algo que não controlamos e planeámos de determinada maneira (os controladores quebram, têm febre, derretem, porque aquilo não se esperava que fosse assim), o vínculo fica problemático e acontecem muitas coisas. Desencontros acontecem. Tenho direito à indignação, mas chega um momento em que tenho que aceitar, como o pai alcoólico que vou ter que aceitar como sendo a minha realidade, ou o pai ausente, em vez de chegar aos 50 anos à espera que ele me olhe e me receba e me diga algo que nunca vai dizer.

- aceitar, aceitar-se e aceitar os outros mas com entendimento. – A aceitação só existe quando há entendimento profundo, senão é só cognitiva, e se eu fico a conter e a conter mais tarde ou mais cedo vou explodir. Aceitação não é o mesmo que aceitar porque não tenho outro remédio. Temos que aceitar, com entendimento profundo, com serenidade verdadeira, para poder ver essa realidade, como seja o homem ou mulher que me deixou porque deixou de me amar (deixar ir). A aceitação com entendimento é também poder aceitar o que está à minha volta.

- a felicidade é diferente de desejo mas confunde-se. - Quando nos sentimos completos, não quero perder esse meu estado. No desejo, eu estou constantemente a sair do meu estado para procurar o que me falta, para ter felicidade, quando na verdade quando estou bem comigo mesmo as coisas surgem. Quando me encontro no meu eu, centrado, fico disponível onde quer que esteja para o que a vida me tenta dar. É como ir para a Índia para se encontrar quando na realidade é melhor encontrar-se primeiro e depois ir lá. Não quer dizer que não seja bom desejar.

- distinguir necessidade do imprescindível. – É diferente. Aprendi isso de forma muito simples fazendo malas de viagem que depois se perdiam… para evitar tudo isso o melhor é viajar com o imprescindível, o indispensável mesmo. Para mim foi importante perceber que não precisamos de bagagem nenhuma e ás vezes é bom perguntar se sem a nossa vida de consumismo não viveríamos muito melhor.

- apego/ falso apego – é apego quando sem essa coisa eu sinto que me fragmento. Se não saio de casa sem aquele anel por exemplo pois sem ele não me sinto vestida, ou sem o carro… parece que me sinto sem chão, preciso de coisas exteriores. Apego às pessoas é outra coisa: a dependência, a simbiose… o outro não pode ser detentor da minha felicidade, o que acontece muitas vezes é o falso apego ou o falso desapego. Encontro pessoas que dizem: “eu não posso perder mais nada porque não tenho nada” a pessoa sente que perdeu muito e sente que não tem nada. Em vez de ser e depois ter, precisa de ter para ser.

Mas o tema de hoje é felicidade, fluir e ser. Sem entrar em contacto com o nosso ser não vai ser possível fluir e sermos felizes. Sabem a história da cebola: camadas e camadas, retiramos uma ao retirar certa frase do meu pai que não tem a ver comigo, porque por exemplo eu sou uma menina e o meu pai queria que nascesse um menino. Despirmos isso tudo e ficar nus desprovidos de todas essas camadas que nos cobrem e não nos deixam chegar a esse centro de nós.

A seguir, passou-se a uma parte prática. Caminhou-se, respirou-se, sentiu-se o corpo, e lançou-se a pergunta:

Se eu só fosse eu, e fosse possível ser mesmo só eu, qual era a coisa que eu faria?

Inspirava-se a pergunta e expirava-se a resposta para si mesmo, partilhando-a depois com uma a duas pessoas. A seguir ancorava-se isso no próprio corpo de cada um, sendo diferente para cada um e trabalhando em pares.

Falou-se na forma de trabalho na psicoterapia corporal. O nosso corpo guarda a memória emocional. A alma precisa de movimentos lentos.

No final levamos connosco as 3 máximas do caminho da felicidade (originário de S.Francisco):
- força para mudar aquilo que posso mudar na minha vida
- serenidade para aceitar o que não posso mudar na minha vida
- sabedoria para distinguir entre uma e a outra.

Como já dizia Raúl Solnado:" Façam o favor de Ser Felizes."