30 de agosto de 2010

Medo do Compromisso

São muitas as formas em que aparece o tema do medo do compromisso entre o casal.

Uma queixa bastante difundida é a queixa das mulheres solteiras ou separadas acusando os homens da sua falta de compromisso. Daria a impressão de que os homens não são tão apressados como as mulheres em comprometer-se. Esta constatação geral não significa que as coisas não possam ser exactamente ao contrário. Mas o outro, percebendo de certa forma a armadilha ou a dificuldade, distancia-se.

O medo do compromisso tem como base o temor à entrega, o medo do amor e suas implicações. É muito difícil entregar-se verdadeiramente. Pode haver um casal, pode haver um casamento de anos e mesmo assim pode não haver entrega.

Quando nos entregamos estamos em carne viva, sentimos intensamente e aproximamo-nos do mais apreciado tesouro: ser queridos incondicionalmente.

Quando o amor se dá na sua plenitude e sentimos que todos os nossos aspectos são incondicionalmente aceites, entramos num estado de paz que nos ajuda a aceitar todas as nossas partes e podemos experimentar a sensação de finalmente no sentirmos completos. Mas não existem mapas para a aventura do amor, não sabemos por onde irá, não podemos prendê-lo ou controlá-lo, não podemos garantir que o outro estará lá para sempre. O outro é o outro e corremos o risco de ser feridos.

Chegar ao bem-estar da intensa conexão que vem da verdadeira entrega, abre a possibilidade de perda desse bem-estar, aparecendo assim o medo. Esse temor é representado em dois medos básicos que aparecem nas relações íntimas: o medo do abandono e o medo da invasão. Há temores que trazemos desde as nossas primeiras relações significativas e que a vida em casal aviva.

Quando éramos crianças, apareceram as nossas primeiras frustrações, é assim que sofremos as primeiras sensações de não ser amados da forma que nós precisamos, ou não nos sentirmos suficientemente valorizados. Da mesma forma, de acordo com o comportamento dos nossos pais, podemos ter sofrido o temor de ser invadidos emocionalmente. Em qualquer caso, procuramos recursos para nos defendermos. Assim criamos uma "personalidade".

A personalidade pode ser vista como uma tentativa de nos defendermos da dor do abandono ou do medo da invasão. É uma construção que cria estratégias para ser amados ou para não ser invadidos, conforme seja o caso. Mas essa personalidade é uma couraça, um escudo defensivo que nos afasta do que sentimos, das nossas necessidades, enfim, do nosso ser.

A personalidade é frágil, tem medo da entrega e, se nos ajuda a funcionar em certas circunstâncias, nos relacionamentos íntimos, pode tornar-se num travão que nos impede de contacto verdadeiro com o outro, quando, sem percebermos, cria comportamentos que nos impedem a entrega já que "se eu não me der não estarei sujeito a qualquer perda ou invasão." A personalidade "defende-nos" dessa possibilidade com uma estrutura estável e previsível. De certa forma, parece ser uma vantagem ter uma “personalidade estável”, mas essa força e segurança vai-se transformado em rigidez e medo de ser desestabilizado.

E o amor destabiliza-nos, o amor dá medo, porque não ouve os nossos argumentos racionais, segue o seu próprio caminho, não podemos controlar, "perdemos a cabeça." Podemos escutar o amor, podemos segui-lo, mas não podemos controlá-lo. Quando nos abrimos a ele fazemo-lo à possibilidade de perdê-lo. É assim que o compromisso, a entrega ao amor, nos confronta com a nossa vulnerabilidade.

Há muito medo da vulnerabilidade, lutamos constantemente com ela, e vivemos reverenciando a invulnerabilidade. Há uma cultura que reforça a ideia de invulnerabilidade, mas não há caminho de saída se não a aceitarmos. Se temos a força de nos reconhecermos vulneráveis, deixamos de estar assustados e preocupados com o que poderia acontecer, e rendemo-nos suavemente ao que a vida nos traz, porque, definitivamente, a vida vai por onde quer e onde não queríamos que fosse. Na nossa sociedade confunde-se vulnerabilidade com fraqueza, quando, na realidade, é necessária muita força para reconhecer que somos vulneráveis.

Entre o abandono e a invasão

É interessante observar a dinâmica do casal, quando um deles sofre de medo da invasão e o outro do medo do abandono. A situação mais conhecida (embora possa dar-se ao contrário) é aquela onde a mulher tem medo do abandono e o homem da invasão. Neste caso, a mulher, que abriga o medo de ser abandonada, cobre essa possibilidade com a acção, e desenvolve estratégias de aproximação e "cerco" para, supostamente, prevenir o abandono.
Esse movimento de "cerco" faz o homem sentir-se invadido, golpeado justamente no seu medo básico, consequentemente gera-se um afastamento de precaução, que realimenta o sentimento de abandono dela, fechando o círculo vicioso. É importante observar que por detrás de todos esses movimentos há o medo da dor.

O medo do abandono é tão profundo, gera tanta ansiedade, que às vezes pode ser escolhida a solidão em vez de submeter-se a ele. Quando sofremos desse medo não queremos separar-nos do outro e, normalmente, reclamamos do afastamento e da falta de entrega, verificando no entanto muitas vezes que não há entrega real por daqueles que temem ser abandonados. Os movimentos de aproximação em direcção ao outro nem sempre são sinónimos de entrega. Quando se tenta possuir, prevenir ou directamente invadir não há entrega verdadeira ao outro, há entrega quando se aceita o que há, o que o outro disponibiliza.

Naturalmente, podemos optar por sair da relação, se não gostamos ou se não nos é suficiente "o que há", mas só existe uma verdadeira aceitação quando o coração diz sim ao outro tal e qual como ele é. Quando isso acontece, aparece essa confiança básica que permite desenvolver a capacidade de espera, confiando que o outro se aproximará, e esta abertura e confiança é sempre contagiosa. De qualquer forma, se temos que enfrentar os sinais que nos dizem que isso não vai acontecer, precisamos confiar que podemos ultrapassar a inevitável dor.

O medo da invasão, por seu lado, é o medo de deixar de ser uno consigo mesmo. Há uma necessidade tão grande de satisfazer o outro que se adia o seu próprio desejo. Esta é uma situação típica nos homens que precisam prover, satisfazer e estar a cargo do bem-estar dos outros. A figura do homem provedor, capaz de fornecer desde os bens materiais até à felicidade, está profundamente enraizada. E a preocupação de satisfazer o desejo do outro pode invadir de tal forma que deixamos de ser nós mesmos.

Saindo do círculo

No caso do medo da invasão, a forma é tolerar o incómodo do outro, colocar limites e perder o medo de dizer não. Às vezes, isso implica lidar com a omnipotência já que se pensa (os homens em particular) que podem resolver todos os problemas dos outros. Acontece que ninguém tem o poder de resolver a vida do outro, não somos donos da sua felicidade, principalmente quando se trata de velhas feridas internas. Quanto ao medo do abandono, é necessário desenvolver a confiança e a capacidade de espera, confiando que o outro estará ali. Nas profundezas do medo do abandono está a sensação de não ser querido como necessitamos, de não ser valorizado.

É necessário que não fiquemos revoltados com o que nos acontece. Os temores que se instalam são muito profundos. Quando há amor, porque estamos a falar desse caso, quando o amor está lá, não se trata de: "os homens são fóbicos" ou que "as mulheres são insuportavelmente ansiosas", para citar alguns ditos muito comuns. Estes juízos colocam todos no lugar da pessoa "ruim", quando o que está por trás é um medo da dor geralmente muito mais intenso do que suspeitamos. São dores que tocam no mais profundo do ser humano e cada qual protege-se da forma como aprendeu um dia, com a distância, sem entrega, com a desconexão ou com a pressão ou exigência por determinados padrões no relacionamento.

Quando entramos no jogo do amor, o nosso coração tende a entregar-se, mas a nossa personalidade, que teme perder a sua segurança, tende a impedir a entrega, para não se ver face a face com toda a nossa vulnerabilidade humana. Dói descobrir que o amor não tem uma rota definitiva e que nesse caminho podemos ser feridos, por isso procuramos ansiosamente que essa dor nunca chegue, e por isso aparece o medo do compromisso que é, em suma, o medo de assumir a sua própria vulnerabilidade.

Traduzido e adaptado de um texto de Silvia Salinas (Lic. em Psicología, Co-autora do livro «Amar com os olhos abertos»)

Estes temas são também trabalhados em Biossíntese, nomeadamente, através do Bonding (em que trabalhamos os vínculos e o nosso coração) e o Bounding (em que trabalhamos o nosso território, os limites e as nossas fronteiras).