2 de Julho de 2010

Como gerir a ansiedade emocional e mental? A expressão no corpo.

Image by: Psicologia 10
“Não consigo dominar, este estado de ansiedade, a pressa de chegar, para não chegar tarde. Não sei do que é que eu fujo, será desta solidão? Mas porque é que eu recuso, quem quer dar-me a mão?”

A música de António Variações poderia servir de banda sonora para o inicio de mais um interessante Workshop aberto em Biossíntese, que teve lugar no passado dia 29 de Junho com a Dra. Maria del Mar, e que pretendeu abordar diferentes técnicas psícocorporais para o diagnóstico, prevenção e tratamento.

Falta de ar, cansaço, irritabilidade, noites mal dormidas, angústia, dores abdominais, dores no peito, pressa… muita pressa. Reconhece estes sintomas? A maioria deles estão presentes em pessoas com doses altas de stress e ansiedade. Todos eles, são sinais de sobrecarga e alerta.

Existe sempre um certo nível de ansiedade saudável, o que é fundamental para que seja possível reagir aos estímulos externos adequadamente. No entanto a ansiedade pode tornar-se num factor de desgaste, sendo o stress uma das queixas mais comuns da nossa sociedade.

A ansiedade é mais do que stress, é uma forma de tensão que se exprime de forma determinada em cada um de nós. Há pessoas que manifestam uma forma de ansiedade interna não a tornando sequer consciente. Consoante a expressão da minha tensão se expresse de forma mais explicita, mais complicado se torna o meu vínculo com os outros.

Há 5 grandes formas de tensão/ansiedade: muscular, mental, emocional, autónoma e espiritual. Qualquer um destes estados, vivido de forma prolongada, torna-se patológico e muitas vezes nem me dou conta da sua existência:
1) A tensão muscular: Identifica-se de forma bastante evidente, observando tiques (sobrolho que treme por exemplo), espasmos ou dores musculares, hérnias, tensão (um dos ombros que fica mais levantado que o outro por exemplo), sensação de desgaste e de corpo dorido ao acordar. Muitas das pessoas tensas a este ponto, ficam numa espécie de couraça, e não se dão conta desse estado, até terem uma experiência de relaxamento acompanhada pelo terapeuta, só aí identificando que o seu corpo não conhecia a sensação de não estar tenso.
Mas de onde veio essa tensão muscular? Quando surge a ideia de que algo me pode agredir ou algo me assusta, o corpo fica rígido e tenso, fico em estado de alerta, por vezes em alerta o tempo todo, mesmo quando o que desencadeou a situação inicial já não está a interferir connosco, podendo uma pessoa andar toda uma vida neste estado por uma situação provocada por um pequeno susto na infância.

O que ajuda? Tudo o que me ajude a entender como o músculo fica em tensão e relaxa (mover e observar cada músculo, chikung, massagem, pilates, etc.)

2) A ansiedade mental: observa-se nas duas grandes polaridades: dispersão ou obsessividade. Num pólo complico, não me consigo concentrar, faço várias coisas ao mesmo tempo sem me focar e terminar a tarefa, no pólo oposto, fixo-me patologicamente em algo, focando-me apenas nisso.

O que ajuda? Meditação, meditação em movimento, dançar, algo que ajude no enfoque interno (as pessoas com muita tensão mental têm dificuldade em meditar)

3) A ansiedade emocional: também bastante visível, porque extravasada (emoção é o que se vê, sentimento ninguém pode ver se eu não verbalizar), caracteriza-se pelo inundar de emoções, a lágrima que aparece facilmente; o medo, a raiva, e as emoções que me inundam, descontrolam-se, expondo-me ao ponto em que já não posso cuidar disso, e muitas vezes agredindo o outro. Quando podemos ver o outro de forma a integrar e não a sentir-me agredido, inseguro, porque quando o outro vem contra mim, sinto que não sou reconhecido, mas na diferença eu posso-me flexibilizar.
As emoções são libertações de energia, temos dentro de nós todas as emoções, pelo que não nos devemos surpreender com elas e sim saber como canalizar aquelas com que tenho mais dificuldade em lidar. A pessoa que tem tendência a vergonha, angustia, tristeza, a sentimentos depreciativos, tem dificuldade em se conectar com alegria e prazer contínuos, porque tudo o que é novo exige tensão grande.
É importante aprender a auto-regular-me (regular/controlar não significa reprimir). Se eu sou visceral, se me emociono com facilidade, e consigo, por exemplo, identificar que o que sinto é raiva, que me mobiliza, vou permitir reconhecer para mim mesmo o que sinto e vai-se permitir um diálogo interno, não precisando de explodir, pois ao fazê-lo entro no espaço do outro, agrido e sinto que não sou compreendido e respeitado.

O que ajuda? Uma vez que a emoção é mais rápida que o pensamento (o “interruptor” interno reage logo), preciso auto-regularmente através do refazer dos diálogos internos. Por exemplo, o que acontece com estímulos de agressão? O diálogo interno diz-me que vou sentir-me atacado, manipulado, ferido ou agredido? O diálogo interno neste caso deverá passar por me mentalizar que a pessoa que vem ter comigo mas não contra mim, não levar pessoalmente (mesmo quem agride, é sempre por algo em espelho, contra si próprio), mas devemos reconhecer o que nos “tira do sério”

4) A ansiedade autónoma: Há uma incapacidade de gerir, de controlar, mas não o coloco para fora como no caso anterior. Pelo contrário: há uma inibição total aparente de ansiedade, mas ela está lá e é o corpo que sofre com isso, através dos órgãos internos, e surgem úlceras, problemas de estômago, diarreia, obstipação, ruídos intestinais constantes e involuntários, etc. Neste caso há pessoas tão contidas que nunca se agitam, nunca discutem, são “bonzinhos”, e é importante ensinar que se deve assertivamente dizer o que se pensa e sente. Estas pessoas ficam no “up and down” (alerta/relaxado) e: ou implodem (o corpo vai “avariando”, roo as unhas, ou surgem quistos, órgãos internos danificados, asma, pedras nos rins, etc.), ou são como panela de pressão e um dia explodem deixando todos à sua volta perplexos pois nada fazia antever. Neste caso tenho uma espécie de centrifugadora interna, sou ansioso mas não estou consciente disso, há uma desconexão entre o consciente e o sistema autónomo.

O que ajuda? Trabalhar os limites, território e principalmente a activação interna, trabalhar com a respiração (ex.: inspirar coisas positivas e expirar coisas negativas para mim, posso associar cores, imagens, movimento, etc.)

5) A ansiedade espiritual: a mais grave pois é aquela em que me sinto desconectado da vida, do valor da vida, do sagrado, em que não faz sentido estar aqui. O espiritual não tem a ver necessariamente com algo esotérico ou místico, nem com algo religioso. Para uns a espiritualidade pode ser uma conversa com Deus, para outros a fé na sua voz interior, para outros é Buda ou uma divindade, para outros ainda a ligação com a natureza ou a alegria de viver. Tem a ver com uma conexão que nos faz sentido, uma capacidade contemplativa da vida, de aceitar a morte, de entendermos o nosso propósito. Quando a vida não nos faz sentido e nos sentimos perdidos, sentimos apatia e perdemos a fé em tudo, pode existir uma depressão existencial, medo da morte, falta de sentido e de missão de vida. Há um limiar do sofrimento que me pode levar à desconexão. Este estado é o mais difícil de recuperar.

O que ajuda? Desenvolver capacidade contemplativa, de conexão, oração, diálogo com eu superior

Todas estas formas se tocam, mas cada um de nós se poderá identificar mais em uma delas. O importante é tomar consciência de qual a forma em que se dá esta tensão para poder dialogar com ela, de forma a torna-la mais saudável.
Toda a formação dada no Centro de Psicoterapia Somática em Biossíntese é enriquecida pela vivência teórico-prática.
A informação aqui apresentada é divulgação resumida e não dispensa a consulta dos terapeutas indicados.