21 de maio de 2018

Aqui e agora?

Desde há algum tempo e através de inúmeros autores, como Eckhart Tolle, autor do livro “O Poder do Agora”, que se fala em estar “aqui e agora”. O mundo ocidental recebeu esta dádiva do conhecimento sobre estar no momento presente sem estar agarrado ao passado, que não pode mudar, e sem se perder no futuro, que é desconhecido. Acrescentando o aqui, podemos remeter para a importância da corporificação onde, em vez de nos perdermos nos nossos pensamentos, estamos em contacto com o nosso corpo e tudo o que compõe (pensamentos incluídos!), há um território físico onde nos encontramos e onde nos sentimos presentes. Mas, como em tudo na vida, Tolle informa-nos que também aqui é preciso ter conta, peso e medida, ou seja, obter algum equilíbrio e clareza sobre o que é estar no aqui e no agora.
De facto que estar aqui e agora é promover uma certa liberdade das amarras neuróticas do nosso passado, da nossa história, assim como sentir o desprendimento do controle das coisas futuras, nebulosas e desconhecidas. No entanto, é importante reconhecer que é muito difícil chegar a um estado de quase iluminação no qual estamos no aqui e agora a todo o momento. Ainda assim, na busca por este el dorado, creio ser importante encontrar um equilíbrio saudável, ou seja, neste trio – passado, presente e futuro – não ficar só pelo cantor, pois sem os outros não temos a banda completa.
Entrar num registo de procurar o presente renegando o nosso passado é um erro. O nosso passado existe e acompanha-nos. É a nossa história e é de onde vimos. Por vezes temos traumas escondidos ou existem coisas das quais nos envergonhamos ou arrependemos, mas estão lá. Fazem parte da nossa história e moldaram a nossa forma de ser e de estar. E virar as costas a algo que nos trouxe até aqui é sair de casa sem chapéu-de-chuva quando já está a trovejar.
O mesmo se passa para o futuro e aqui o grande erro é viver numa espontaneidade falsa na qual não importa o amanhã. Sim, de facto não é bom dar corda à neurose da expetativa, mas fazer planos não tem porque ser neurótico. Pensar nos nossos projetos futuros, o que queremos para nós e como organizar a próxima semana na agenda não é ser rígido ou controlador. E fugir das responsabilidades com a capa do “aqui e agora” também é uma armadilha que pode surgir.
Como em tudo o que é objeto de reflexão importa sempre olhar para nós, em determinadas temáticas e questionar: onde está o equilíbrio, para mim?
Texto de Ana Caeiro - Psicoterapeuta Corporal em Biossíntese
Site: http://psicoterapiacorporal.pt/
E-mail: psicorporal.bio@gmail.com

Foto de Noah Silliman em Unsplash

29 de março de 2018

Chorar lava a alma?

Dizem que chorar lava a alma, mas também dizem que os homens não choram. Diz-se muito daquilo que se sente. Assim que nascemos temos de chorar, para depois aprender a não o fazer. Aprendemos que essa é uma fragilidade que devemos esconder numa gaveta, junto com as lamechices, os corações cor-de-rosa, as festinhas e o “amo-te”.
Tal como tudo aquilo que podemos fazer como seres humanos otimizados que somos, o choro tem uma função, é importante. Da mesma forma que o medo tem uma base funcional importante na nossa vida, o choro é também essencial e não deve ser contido ou controlado. O problema surge quando aprendemos a lidar incorretamente com esta função que o nosso corpo sabiamente desenvolveu.
Saímos do túnel escuro ontem estivemos mais de 9 meses e todos os seres estranhos e de batas brancas que estão neste espaço tão iluminado ficam aliviados quando choramos. Depois deste momento, o choro é um aviso, uma arma e um problema. Servirá de termómetro enquanto os bebés vão crescendo. É uma arma quando o usamos como um meio para chegar a um determinado fim. É um problema porque se limitam as crianças desde bebés a não largarem as suas lágrimas, a não partilharem as suas águas com o mundo. Faz barulho. Não nos deixa dormir. Mostra fragilidade. Entre outras e outras e outras.
Passamos uma vida a não chorar. Contemos. Engolimos as emoções porque não é bonito mostrar. Então elas ficam, com armas e bagagens na nossa barriga que às vezes incha voluptuosamente, deixando antever um mar de sentimentos engasgados.
Quando decidimos olhar para nós, seja em terapia ou em trabalho de desenvolvimento pessoal, temos de olhar para esta nossa barriga. É preciso fazer abdominais emocionais para deixar sair aquilo que já não nos serve e que não conseguimos guardar mais. Mas estes abdominais são mais difíceis que os normais. Mais do que ao corpo, fazem doer a alma. Ou assim parece. É por isso que os primeiros choros da vida adulta são insuficientes. Não são conectados, não lavam a alma e deixam-nos zonzos com a respiração que se (re)estabelece e com o chute de energia que sobe à cabeça e aos olhos em particular. Não choramos com a barriga e a descarga é falsa: há apenas a movimentação de alguma tensão de um lado para o outro no corpo. Mas nesta fase podemos continuar desconectados mas há o ressurgimento de uma vontade de olhar de uma forma diferente.
É quando mergulhamos intensamente em nós que navegamos na possibilidade de nadar nas nossas lágrimas: o choro é conectado e vem dessa barriga tão cheia que precisa de extravasar, mas delicadamente, pulsando lágrima a lágrima em cada inspiração e expiração.
Texto de Ana Caeiro - Psicoterapeuta Corporal em Biossíntese
Site: http://psicoterapiacorporal.pt/
E-mail: psicorporal.bio@gmail.com

Foto de Volkan Olmez em Unsplash

26 de fevereiro de 2018

Estilos de Vinculação e Relações Íntimas



A forma como nós adultos entramos em relação íntima reflete a forma como em crianças estabelecemos o vínculo com os nossos cuidadores. A Teoria da Vinculação, desenvolvida por John Bowlby, demonstra-nos que a interação entre pais e filhos define o terreno a partir do qual posteriormente estes desenvolvem as suas relações. Bowlby concluiu que a necessidade humana de partilhar a vida com alguém faz parte da nossa constituição genética e não tem nada a ver com o quanto nos amamos ou o quanto estamos bem connosco próprios. Estar bem consigo próprio não implica não querer um parceiro amoroso, apenas interfere na qualidade das relações interpessoais.


Em adulto, existem 3 estilos principais de vinculação: o Seguro, o Ansioso e o Evitante. Há inúmeros fatores que influenciam esta classificação, mas, generalizando, podemos dizer que se as figuras parentais foram disponíveis e presentes, o vínculo desenvolvido corresponde ao Seguro; se foram inconstantes e instáveis, o vínculo é o Ansioso; se foram distantes e rígidas, o vínculo é o Evitante. Em termos práticos, esta dinâmica reflete-se na visão subjetiva que hoje temos da intimidade, na forma como lidamos com os conflitos, no comportamento sexual, na capacidade de expressar desejos e necessidades e nas expectativas perante o parceiro e a relação.

As pessoas com um estilo de vinculação Seguro sentem-se confortáveis com a intimidade e tendem a ser calorosas e afetivas; as pessoas com um estilo Ansioso anseiam pela intimidade, preocupam-se bastante com as relações e tendem a ficar inquietas com a capacidade do seu parceiro as amar; as pessoas com um estilo Evitante veem a intimidade como uma perda de independência e tentam constantemente minimizar a aproximação. Cada estilo, ao ter sido adquirido em criança, torna-se a modalidade conhecida e familiar de estar em relação, o que não significa que seja a que nos faz sentir bem. Enquanto a mesma for inconsciente, os nossos mecanismos de interação são automatizados e cristalizados nos padrões de comportamento aprendidos. O primeiro passo para a libertação é ganhar consciência do que nos condiciona e nos protege de viver situações que enquanto adultos já não representam um perigo, mas a nossa perceção a partir do Self Infantil ainda o são.

Perceber os estilos de vinculação é uma chave para a compreensão do comportamento de cada um em contexto de intimidade e, consequentemente, para a identificação das dificuldades inerentes ao (des)encaixe entre as pessoas durante uma relação. A maioria encontra-se no Estilo Ansioso ou no Estilo Evitante e nenhum deles nos proporciona um terreno que permita o florescimento de uma relação saudável e nutridora. Pode ser assustador saber que estamos ‘programados’ para agir de determinada maneira, mas a boa notícia é que também temos a capacidade de alterar, ou pelo menos melhorar, o nosso estilo de vinculação rumo a relações que nos complementem e nos ajudem a viver a melhor versão de nós próprios, sem dependências.

Todos nós temos a necessidade básica de criar vínculos, a forma como os criamos é que varia. Ainda que nos insiramos numa das classificações mencionadas, nada é estanque ou fixo. Não se trata de as definir como boas ou más, mas sim de compreendê-las e sentir o que verdadeiramente queremos e precisamos de viver através de uma relação. Ao contrário do que alguns poderão pensar, vínculo não é sinónimo de dependência e ter relações íntimas não implica inevitavelmente perder a liberdade. Tudo depende da forma como cada um vive, na sua realidade interior e exterior, esse mesmo vínculo.

Cada estilo encara a vinculação segundo determinadas crenças, as quais se refletem nos níveis de (des)conforto com a intimidade, na necessidade de atenção por parte do parceiro e na preocupação pela relação. Essas mesmas crenças são as responsáveis por detetar e monitorizar a sensação de segurança e disponibilidade das nossas figuras de referência. Precisamos de nos sentir seguros – já Maslow o indicava como segunda necessidade básica do ser humano, após a fisiológica! Independentemente do estilo desenvolvido, cada vez que sentimos algo ‘errado’ na sequência de uma atitude do parceiro, o nosso sistema ativa o alerta e sentimo-nos impotentes de o acalmar até o parceiro nos dar sinais claros de que está presente na relação, novamente pronto para nos ajudar a sentir que ainda nos mantemos em terreno seguro.

Mas como é que cada estilo sente essa insegurança e o que faz para a colmatar? O estilo Seguro procura a aproximação, mas sem a interferência do medo da rejeição, do abandono ou da asfixia. Identifica bem as suas próprias necessidades e expressa-as de forma tranquila. As relações não são negociações nem campos de batalha, antes pelo contrário. Em geral, são bons ouvintes e esforçam-se para que os desentendimentos se transformem em situações funcionais para ambas as partes.

O estilo Ansioso procura intensamente a intimidade, mas é extremamente sensível à forma como a aproximação é feita. Tem uma necessidade extrema de carinho e segurança e é muito perspicaz em detetar as necessidades do parceiro, dedicando-se ao outro com bastante espontaneidade. Sendo o foco principal o reforço do sentimento correspondido, mais facilmente se preocupa com o outro do que consigo próprio, podendo ser difícil identificar e exprimir as próprias necessidades com receio que choque com as do parceiro. Tende a anular-se em prol do bem-estar da relação, ou em satisfazer o outro em troca das chamadas migalhas de atenção. Vive na ânsia constante de se sentir amado e no receio de perder o outro, procurando assim a sensação de correspondência do sentimento em todo e qualquer gesto do parceiro.

O estilo Evitante procura fugir do compromisso porque o identifica como perda de autonomia, pelo que a proximidade e a intimidade são vistas com alguma hostilidade. Ainda que mantenha a necessidade básica de vínculo e de amor – comum a todos os seres humanos – tem tendência para se sentir sufocado quando há demasiada aproximação. No entanto, precisamente porque tem as mesmas necessidades que todos, movimenta-se numa dança de aproximação-distanciamento dependendo dos passos do outro. Quando sentem o parceiro ‘desistir’ vão atrás, mas quando se aproxima ‘dão com os pés’. Há uma tendência geral para mensagens ambíguas como reflexo do conflito entre a ideia de compromisso e o forte desejo de vínculo.

Parece paradoxal, mas o encaixe mais comum é precisamente o de um estilo Ansioso com um estilo Evitante, pois ambos reforçam no outro o sistema de crenças desenvolvido em criança: o Evitante sente que o ansioso o pressiona para uma proximidade maior do que aquela que toleram, o que ativa a sua autoperceção de defesa de que são fortes e independentes; o Ansioso vive a confirmação de que será abandonado ou rejeitado pela autoperceção de que quer mais intimidade do que a que o parceiro consegue dar. Neste sentido, as lacunas vividas na infância perpetuam-se na tentativa ilusória e infindável de as colmatar.

Como sair desta pescadinha de rabo na boca? Ganhar coragem para reconhecer o seu próprio estilo e ter a vontade de abandonar o padrão familiar, o qual nos leva a um desgaste sem frutos. Quanto mais procuramos suprir carências através do outro, mais nos encontramos num poço sem fundo. Quanto mais procuramos a sensação de autonomia afastando o outro, mais nos sentimos desconectados. O outro nunca será suficiente para colmatar as nossas necessidades de infância, até pelo simples facto de que o outro não encarna – ou não deverá encarnar – o papel de cuidador. Numa relação saudável, o parceiro é um companheiro de viagem, inclusivamente na nossa viagem de cuidarmos de nós próprios.

A relação ideal é aquela entre duas pessoas autossuficientes que se encontram num espaço maduro e responsável, pautado pela confiança, respeito e aceitação das diferenças, mantendo as necessidades e os limites do Self Adulto bem claros. Com trabalho interior de introspeção, de tomada de consciência e vontade para a mudança, qualquer pessoa consegue encaminhar- se para um estilo mais Seguro, sendo que tal só é possível vivendo e experienciando a relação. É na relação que a mudança acontece, não em isolamento. Quando dois seres se amam e decidem crescer juntos, largando velhos padrões para dar espaço a um encontro nutridor, a dedicação à mudança é a abertura para um novo modo de viver a dois. Do murchar em relação passamos a florescer, encontrando terreno para explorar o nosso potencial com uma companhia através da qual sentimos que cuidar um do outro vem na sequência da liberdade de sermos nós próprios.

Rossana Appolloni
www.rossana-appolloni.pt

Bibliografia:
Amir Levine & Rachel Heller (2011). Attached. London: Peguin.

30 de janeiro de 2018

Curso Avançado em Atendimento Psicoterapêutico Crianças e Jovens “Biossíntese Crianças e Jovens”

No próximo dia 2 de fevereiro, terá lugar no CPSB, o 2º Módulo do Curso Avançado em Atendimento Psicoterapêutico Crianças e Jovens, com Patrícia Querido! 

Ainda está a tempo de se inscrever, o curso é contínuo e pode começar em qualquer módulo! 

Este curso está focado nas necessidades e especificidades do Desenvolvimento Humano e do mundo complexo das Crianças e Jovens. Abordaremos os autores e teorias do Desenvolvimento Humano, desde a Biologia, a Educação, a Neurociência à Psicologia, aprendendo também técnicas de trabalho prático com Crianças e Jovens.

Nesta caminhada pioneira que estamos a iniciar, desejamos que esta especialização tenha uma estrutura real, ajustada às necessidades daqueles que gostariam de trabalhar na área do atendimento psicoterapêutico de crianças e jovens, que possua a cientificidade inerente às áreas que intervêm no cuidar de crianças e jovens e queremos contribuir para a formação de profissionais responsáveis com “ferramentas” e qualidades indispensáveis à intervenção nesta área que é específica e exige conhecimento e preparação.

Destinatários

Para estudantes finalistas e profissionais da Psicologia, Psicoterapia, Ensino e Saúde (Professores, Enfermeiros…) interessados em conhecer o Desenvolvimento Humano relacionado com o Acompanhamento Psicoterapêutico de Crianças e Jovens.

Excelente oportunidade de aumentar o autoconhecimento, uma vez que este curso é Teórico-Vivencial.


Competências a adquirir:

  • Análise dos princípios básicos do Desenvolvimento Humano.
  • Utilização de técnicas, procedimentos e métodos do Acompanhamento
  • Psicoterapêutico de Crianças e Jovens.
  • Adequação dos conhecimentos adquiridos, dentro da ética profissional e em ressonância com o cliente.
  • Aptidão e conhecimentos teórico-práticos para a aplicação, pesquisa e aprofundamento das noções do Acompanhamento Psicoterapêutico de Crianças e Jovens.
Informe-se: geral@cfpsb.com | 217935326