31 de julho de 2017

Cada vez mais perto...

“A coisa mais importante de todas é que o corpo é o apoio para a mente. Não seria possível haver uma estrutura mental se não houvesse uma estrutura corporal” António Damásio

 A relação da mente com o corpo tem despertado, em várias civilizações ao longo do tempo, grande curiosidade e motivado grandes discussões de interesse fundamental sobre a natureza humana. As diversas tentativas de responder às questões levantadas neste âmbito provocou, num período mais remoto, o desenvolvimento de um conhecimento com fortes influencias mítico-religiosas. Com o surgimento do pensamento filosófico grego, surge o primeiro momento de mudança do modelo mítico-religioso para um pensamento mais moderno, que promove uma maior sistematização sobre a estrutura e o funcionamento do corpo, da mente, e da relação entre os dois. Nesta altura, surgem tentativas de relacionar a corporalidade (teorias cardiocentristas e cefalocentristas) com as atividades mentais (as emoções, o pensamento, a memória), no domínio da filosofia e da medicina.

Mais tarde, a filosofia de René Descartes (1596-1650) estabelece a distinção entre a res cogitans e a res extensa, traduzindo-se como fundamento para a apreensão do corpo como realidade objetiva, conduzindo à radical separação, consagrada pela medicina dos séculos XVII e XVIII, entre corpo e mente.

Na Alemanha e no Estados Unidos, na década de 1920, surge uma proposta inovadora de ligação da psicanálise à etiologia de algumas doenças, dando origem à Medicina Psicossomática, sendo Helen Dunbar e Franz Alexander os seus fundadores. Esta proposta possibilitou o esclarecimento de possíveis determinantes inconscientes para as doenças, sublinhando que a resposta dada pelo organismo é especifica de cada individuo em função do seu caráter e das suas tendências.

Hoje, embora permaneçam em aberto questões fundamentais sobre a natureza da mente humana, o grande avanço das neurociências tem permitido compreender cada vez melhor o comportamento, assim como os diferentes circuitos neurais associados às diferentes funções mentais. Esta compreensão tem exigido cada vez mais uma postura integradora, em que o estudo da mente, do cérebro e do corpo se encontra em interação plena com o meio ambiente físico e social, ao invés do radicalismo dicotómico entre alma e corpo, mente e cérebro, razão e emoção (Damásio, 1994).

A investigação sistemática desta unidade mente-corpo constitui a base cientifica para a psicofisiologia, enfatizando a existência de uma continuidade entre o processamento neurofisiológico e psicológico (Porges, 2011). O corpo e a mente interpenetram-se, não há uma dinâmica puramente orgânica, nem puramente mental. Embora exista uma especificidade das esferas biológica, físico-química, psíquica, simbólica, social e cultural, além de outras, há uma clara continuidade. Esta perspetiva sincrónica dos eventos psíquicos e corporais valida o trabalho corporal no setting psicoterapêutico, que diversos autores como Reich, Lowen, Navarro, Boyesen, Kelleman, Boadella têm promovido. A meditação, o yoga, o tai chi são práticas que têm constituído um referencial comum importante para o trabalho psicocorporal.

Neste âmbito, torna-se pertinente referir o recente estudo publicado na revista Frontiers in Immunology, em 16 de junho, sobre a eficácia de intervenções mente-corpo (IMC) na reversão de reações moleculares no ADN causadoras de doença.

Este estudo parte das evidências, mostradas em investigações anteriores, sobre a validade das intervenções mente-corpo (meditação, ioga, tai chi, qigong, práticas de respiração) na melhoria da saúde, embora os mecanismos moleculares destes benefícios permaneçam ainda mal compreendidos. A hipótese é que as IMC invertam a expressão de genes envolvidos nas reações inflamatórias que são induzidas pelo stress. Esta investigação - conduzida por investigadores das universidades de Coventry (Inglaterra) e Radboud (Holanda) - constitui uma análise de estudos desenvolvidos ao longo de 11 anos , envolvendo 846 participantes, concluindo que existe um padrão de alterações moleculares no organismo como resultado das intervenções corpo-mente, e que essas alterações beneficiam a nossa saúde.

Quando um indivíduo é exposto a um evento stressante, o seu sistema nervoso simpático, que ajuda o organismo a lidar com situações de stress intenso, é desencadeado fazendo aumentar a produção de uma molécula conhecida como fator nuclear kappa B (NF-kB, sigla em inglês), o qual regula a forma como os nossos genes são expressos.

O NF-kB traduz o stress com a ativação de genes que produzem proteínas conhecidas como citocinas que causam inflamação a nível celular, uma reação útil em situações extremas, mas que se for persistente pode conduzir a um maior risco de cancro, depressão e envelhecimento mais rápido.

Este estudo sugere que quem pratica ICM apresenta uma redução na produção do NF-kB e das citocinas, produzindo uma reversão no padrão de expressão genética pró-inflamatória e uma redução nas doenças relacionadas com a inflamação.

“Estas atividades [intervenções corpo-mente] deixam o que chamamos uma assinatura molecular nas nossas células, que reverte o efeito que o stress ou ansiedade teria sobre o nosso organismo, através da alteração do modo como os nossos genes são expressos.”, afirma a investigadora principal, Ivana Buric.

Embora este estudo se refira às intervenções corpo-mente, no âmbito das práticas de respiração, meditação, ioga, tai chi, qigong, cabe, sem dúvida, aqui também o trabalho desenvolvido nas psicoterapias corporais. A sua inclusão poderá, no futuro, dar continuidade à validação destes resultados, e ainda lançar mais luz para áreas menos clarificadas.

Referências:

Buric, I., Farias, M., Jong, J., Mee, C., Brazil, A. (2017) “What is the Molecular Signature of Mind–Body interventions? A Systematic Review of Gene expression Changes induced by Meditation and Related Practices”. Frontiers in Immunology, junho 2017.
 Damásio, A. (1994) Descartes' Error: Emotion, reason, and the human brain. New York: Putnam, 1994. Porges, S.  (2011) The Polyvagal Theory. W. W. Norton & Company, New York.                                                                                            
                                                                                               Aurélio José Faia - CPSB
                                                                                              E-mail: ajfaia@gmail.com

21 de julho de 2017

"Se queres ir rápido vai sozinho, se queres ir longe vai acompanhado!"

As relações interpessoais são um dos pilares mais importantes para uma vida feliz. Uma vida feita em conjunto com os outros ganha mais sentido, pois enriquece consideravelmente a experiência vivida. Se queres ir rápido vai sozinho, se queres ir longe vai acompanhado, diz um provérbio africano. De facto, as vivências têm sabores diferentes consoante caminhamos sozinhos ou acompanhados. Não é uma questão de certo ou errado, é uma questão do que sentimos ser fundamental para cada um de nós, em coerência com os nossos sonhos, desejos e necessidades mais profundas. Se queremos uma vida rica e intensa do ponto de vista humano em termos de afetos, de aprendizagens, de partilhas, o importante não é ir rápido, mas sim longe, o mais longe possível. Ir rápido implica focar-se numa meta e querer chegar lá depressa, independentemente do ritmo dos outros; ir longe significa que a meta não é o mais importante, mas sim o caminho. E pelo caminho encontramos tudo o que precisamos para um percurso de crescimento humano, de desenvolvimento pessoal, de exploração de todo o nosso potencial para fazer frente às tempestades e às bonanças que naturalmente existem. Se queremos atravessá-las rápido talvez não consigamos captar o seu propósito no nosso percurso; se queremos chegar longe, tentamos integrá-las e com elas crescermos. Chegar longe requer o cuidado de olhar para os que estão à nossa volta e de deixarmos que olhem para nós. No olhar recíproco está o reconhecimento e a valorização de uma relação.
As relações dão-nos o melhor que a vida nos pode dar. Por vezes basta um sorriso, um olhar, e sentimo-nos embebidos por um shot de energia e boa disposição que nos faz voar pela magia do universo. Mas também nos dão o pior, quando nos sentimos arrasados e tristes por uma desilusão, fruto de uma expectativa que criámos. A ausência de expectativa nas relações é o verdadeiro e tão difícil segredo para que através delas consigamos sentir o poder de voar, sem medos nem exigências. É maravilhoso dar a quem sabemos que não nos vai retribuir senão um sorriso, pois será um dar genuíno, não esperamos nada em troca. E é maravilhoso receber de quem não estávamos nada à espera, por vezes até um desconhecido é quem mais nos surpreende! Se conseguíssemos olhar verdadeiramente para as pessoas que nos estão mais próximas com esse tal olhar inocente de um desconhecido, com um olhar de quem não está à espera de nada e de quem não se sente obrigado a dar nada, cada gesto seria sentido com infinita gratidão e maravilha. Deixaríamos que o encanto das relações, a genuinidade do dar e receber, a autenticidade de se ser quem se é, aflorasse a cada momento de interação. Dar simplesmente porque sim, porque nos faz bem, porque é inevitável quando se é feliz. Permitir-se receber porque se merece, porque nos faz sentir importantes, porque valoriza a nossa existência. E neste dar e receber faz-se uma caminhada juntos, onde ninguém vai mais à frente nem mais atrás, mas sim lado a lado, porque é juntos que chegaremos longe, o mais longe possível. Porém, só é possível ir lado a lado quando ninguém se puxa, se empurra, se pendura, quando ninguém exige, pressiona, chantageia; só é possível ir lado a lado quando cada um caminha por si próprio, na alegria de não estar sozinho.


Autora: Rossana Appolloni

www.rossana-appolloni.pt


30 de junho de 2017

Separações

“Na história das ciências do homem, um dos factores mais limitativos do conhecimento foi a divisão conceptualmente fixada entre corpo e espírito. Muito antes da divisão do corpo em fatias ou órgãos desafectados, separados uns dos outros, que a Medicina deste século pôs em prática [século XX], já essa dicotomia corpo/espírito funcionava radicalmente, com as restrições e prejuízos que nesta fase se tornaram evidentes, e que vai ser imperioso reparar.”
Escrito por Jorge Milheiro no prefácio da edição portuguesa do livro “Sonho e Psicossomática”, editado em Portugal pela Dinalivro em 2001.
O Homem é como um “vários-em-um e a Biossíntese olha para o ser humano como um todo, com tudo o que o compõe (e é muito), mas há uma base tripartida: mente (pensamentos), corpo (acção) e emoções. É a dança e o equilíbrio energético entre os três, que promovem um fluir que nos permite sentir, pensar e agir de uma forma balanceada e isenta, sem dar importância especial a apenas um deles. A questão é que nem sempre isto é possível porque todos teremos uma tendência. Um primeiro passo fundamental é tomar consciência das nossas tendências e perceber se agimos sem pensar, se nos deixamos levar pelas emoções, se ficamos presos nos nossos pensamentos… Se agimos sem pensar nas relações mas não no trabalho; se a família nos deixa trazer mais o nosso lado emocional ao de cima e não nos permitimos pensar. São 3 áreas de base que contactam também com diferentes áreas da nossa vida. E apesar de poder existir uma tendência genérica, poderão existir diferenças consoante as diferentes áreas da nossa vida.
Conhecermo-nos e perceber onde está o nosso foco, é um passo para melhor compreender o que se passa dentro de nós e como podemos melhorar os nossos movimentos, pensamentos e sentimentos, por forma a conseguir encontrar um equilíbrio. A viagem não é fácil mas pode ser a chave para muitas situações complicadas que vivemos connosco e, subsequentemente, com o outro.

Texto de Ana Caeiro, Psicoterapeuta Corporal em Biossíntese.
E-mail: psicorporal.bio@gmail.com
Site: psicoterapiacorporal.pt
Foto:
Scott Webb

16 de junho de 2017

Sobre este Blog...


O que é a Biossíntese?

Biossíntese significa Integração de Vida. Considerada internacionalmente como forma de desenvolvimento profundo, a Biossíntese chega como resposta a uma necessidade de formação clínica, com uma aprendizagem teórico-prática única, levando-nos a uma real consciência da nossa capacidade de auto-regulação e de interacção com tudo o que nos rodeia.

A Biossíntese, como terapia do futuro, trabalha com o princípio do desdobramento do potencial latente; quando os recursos internos são reforçados, os problemas tornam-se menores.
Há mais de 35 anos que a Biossíntese tem desenvolvido um modelo de integração entre corpo, mente e espírito. Investigações científicas em neurobiologia, psico-neuro-imunologia e medicina energética dão agora sustentação a esta integração de diferentes formas. A cura em Biossíntese é a ponte vital entre essência e existência, alma e corpo, território interior e exterior.

CPSB - Onde a vocação, a formação e uma nova profissão se encontram!


Vamos dialogar, sentir, pensar e pulsar juntos para alcançar uma consciência e evolução cada vez melhor e maior. 

Sejam Bem-Vindos! Com carinho, Maria del Mar (Directora do CPSB)
Maria del Mar Cegarra Cervantes - Actual Directora do CPSB. Licenciada em Psicologia Clínica. Psicoterapeuta. Trainer. Terapeuta Familiar. Naturopata. Formanda em Auriculo medicina. Vice Presidente da Associação Somatoterapia Espanhola. Colaboradora da revista de saúde mental Energy.




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Blog da Biossíntese


Este blog pretende divulgar a Biossíntese e o trabalho psicoterapêutico com carácter Holístico, Integrador, Transpessoal e ligado à Neurociência. Um espaço de divulgação, destinado não só a terapeutas e profissionais da Saúde, como a todos os que procuram maior auto-conhecimento.

Sobre a autora e organizadora

Ana Caeiro é Psicoterapeuta Corporal em Biossíntese no CPSB, local onde se formou e onde é Professora Assistente. Um dos seus maiores prazeres é a escrita e por isso, para além de administrar este blog, tem também um site pessoal onde publica os seus artigos. Contacto: psicorporal.bio@gmail.com | site

Certificação DGERT e formação na área da psicoterapia reconhecida pela European Association for Psychotherapy (EAP). E pela European Acredited Psychotherapy Training Institute (EAPTI)
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