18 de dezembro de 2017

O ébrio espírito de Natal

Nesta época Natalícia, é comum o nosso apelo interior, à paz, à amizade, à compreensão, ao amor pelo próximo, etc.

Mas tão comum como isto, é também o confundir prendas, com dádivas ou oferendas.

O Natal é uma data profunda e unicamente cristã, e surge da necessidade da Igreja Católica em uma vez por ano lembrar os seus fieis da importância da fé, relembrando o seu primeiro (e quiçá o mais importante) mistério de fé.

As oferendas (atualmente prendas) formalizavam, a homenagem e o respeito.

De uma forma mais ou menos pagã, o simbolismo deste ato cristão espalhou-se e terá sido mesmo absorvido por outras fés e religiões, tornando-se numa celebração à família, à união, e ao amor.

É uma quadra fundamentalmente BONITA!

É a altura em que procuramos apagar as tristezas, e encontrar aquele momento, que nos faltou durante o resto do ano, por todas as razões e mais alguma, mas fundamentalmente porque formatámos a nossa cabeça, com uma reserva específica de amor para essa quadra.

E tendemos naturalmente a afastar do nosso circulo, tudo e que é menos bonito ou mesmo feio, numa atitude protetora da nossa, pseudo felicidade harmoniosa.

Pois foi exatamente o contrário que nos deixou a mensagem daquele cujo nascimento aqui celebramos; inclusão, tolerância, carinho e amor pelo próximo.

Nesta quadra, aqueles que pela amargura da vida e contrariedades impostas pela sociedade moderna, ou mesmo “selfimposed”, tanta s vezes esquecidos e desencantados, são aqueles que mais precisam deste espírito.

Alguém disse bem a propósito que, “Natal é quando o Homem quiser”, e tão a propósito é a altura de incluir todos os que por qualquer razão acham que não vale a pena a celebração.


Pode ser apenas um dia em que levamos a TODOS esta mensagem, mas apesar de muito pouco vale a pena, porque como dizia o filosofo; Um momento é o princípio da eternidade!

Texto de Ana Rita Carmo
Psicóloga e Psicoterapeuta Somática em Biossíntese

15 de novembro de 2017

O Tetris e os assuntos pendentes

Resumo:
Analogia entre o jogo eletrónico Tetris e as estratégias de vida. Convite a um olhar com mais amplitude sobre os desafios da vida e uma forma criativa que proporcione mais autonomia e liberdade.

Palavras-chave: assuntos pendentes, emoções, traumas, psicoterapia, desenvolvimento pessoal

Abstract:
Analogy between the electronic game Tetris and the strategies of life. Call for a broader look at the challenges of life and a creative way that can provide more autonomy and freedom.
Keywords: outstanding issues, emotions, traumas, psychotherapy, personal development.

Conteúdo:

o    “No jogo clássico Tetris, as peças geométricas caem de forma lenta e aleatória no topo do ecrã, os jogadores devem encaixá-las do melhor modo possível para obter sucesso no quebra-cabeça. O objectivo é simples: permanecer o máximo de tempo no jogo.” (citação em https://pt.wikihow.com/Jogar-Tetris)

As peças distintas caem aleatoriamente, tal como os eventos que sucedem na vida. Uma peça que não é totalmente encaixada corresponde a um aumento de dificuldade para tratar as peças que se seguem. Da mesma maneira, um assunto que não ficou resolvido da melhor forma vai estar presente conscientemente, ou inconscientemente, e, por isso, condicionar o presente (Perls, 2004). Tratar cada peça e encaixá-la correctamente será como tratar de um assunto e seguir para outro. Fechar um assunto será o equivalente no jogo a várias linhas fechadas e ao aumento na pontuação.
Quais são as melhores estratégias?
Alinhar as peças num dos lados do ecrã, rodar as peças conforme vão descendo, ter em conta a forma da próxima peça, entre outros princípios. O jogo ensina a desenvolver a atenção global, flexibilidade (rotação das peças), organização, paciência e fé que a próxima peça seja a que mais convêm.
E na vida como acontece?
Por vezes damo-nos conta que aparamos demasiadas solicitações. Acumulamos situações que nos desgastam, através de negações ou hesitações, ou complicamos, ainda mais, com soluções em cima do joelho ou precipitações. Estes comportamentos equivalem a peças mal encaixadas e a espaços vazios. As situações inacabadas são enredos de vida que não desaparecem até serem fechados e insistem em aparecer de todas as formas: insónias, sonhos agitados, angústia ao acordar, humores alterados. E também, ou sempre, acompanhados por outros incómodos: dor de cabeça, enxaqueca, torcicolo, distúrbios gástricos/intestinais, palpitações, ataques de pânico, etc.
O que pode ajudar?
Tal como no jogo, a peça que está em queda, é o que está acontecer, é a experiência que tem de ser vivida.
Tal como no jogo, o que ajuda é, por um momento, distanciarmo-nos e ter uma visão global do que está a acontecer, entender o momento da vida que estamos a viver, o aqui e o agora. Reconhecer os recursos disponíveis, internos e externos. Aceitar que não é possível alterar, quer o passado, quer a sequência de eventos. Contudo, segundo Boadella (1992) é possível flexibilizar a rigidez instalada e recuperar a graciosidade e harmonia que se foi perdendo desde a concepção, ao longo da vida. Os desenvolvimentos científicos da Epigenética e os estudos neurológicos por diversos cientistas vêm confirmar e apoiar que mudanças de comportamentos e atitudes são testemunhadas e provam que é possível um novo estado. Olhar o presente com esta perspetiva é, já por si, criar uma nova posição face ao que está a acontecer, com mais possibilidades.
Tal como o jogo, a melhor solução surge da análise global do momento presente em vez do impulso automático de luta-fuga ou congelamento (Levine, 2012). É importante valorizar o que se economiza em energia, ao identificar as emoções e ao não cristalizar em estados de negação, resistência, culpa, raiva, etc.
Procurar ajuda na relação terapêutica e olhar para dentro de si, com a compaixão e empreender o viver com a responsabilidade do seu desenvolvimento. Cuidar com o olhar amoroso e permitir-se incluir as defesas e as feridas e integrar para alcançar um novo estado (Boadella, 1992). Proporcionar que o corpo conte a sua história e ao elaborar os movimentos interrompidos seja possível libertar a memória contida nos músculos, ossos, fáscia e tecidos fisiológicos (Levine, 2012). Educar e aprender habilidades que criam mais espaço e permitam afrouxar os laços apertados das reacções e padrões conhecidos. Renegociar os eventos traumáticos fixados no sistema nervoso, na fisionomia e na forma de pensar para que os assuntos pendentes sejam dissolvidos e haja maior espaço para um viver com autonomia e liberdade.
Mais do que alcançar um estado nirvana, o que parece importar é dar valor ao processo de experienciar a vida a partir de um novo lugar com mais conexão e consciência que leva à acção e à sua evolução.

Referências
o    Boadella, D. (1992). Correntes da Vida. Editorial Summus.
o    Levine, P. (2012). Uma voz sem palavras. Editorial Summus.
o    Perls, P. (2004). Gestalt Terapia. Editorial Summus.
o    https://pt.wikihow.com/Jogar-Tetris

Escrito por: 
Teresa Paula Madeira 
Psicóloga Social e das Organizações pelo ISPA
Psicoterapeuta Somática em Biossíntese 
SEP Somatic Experience - tratamento do trauma
Professora Assistente CPSB
Formadora Técnicas Terapêuticas -Toque e Massagem

Contato: 938457500 teresapmadeira@sapo.pt

11 de novembro de 2017

Momentos escolhidos

Há momentos cujo impacto é de uma intensidade tal que muda o rumo da nossa existência. Podem ser eventos dramáticos, como por exemplo um acidente ou uma doença, mas também uma simples frase ouvida, um olhar trocado, um gesto sentido. Há momentos que mudam a nossa vida para sempre, desviam-nos da direção prevista. Momentos destes estão sempre a acontecer, mas há alturas em que decidimos prestar-lhes atenção e colocarmos em questão o caminho que estávamos a percorrer.  

Qualquer que seja o momento, bom ou mau, alegre ou triste, é uma porta que, quando conscientemente aberta, nos permite aprofundar quem somos. São momentos que nos levam a elaborar perguntas sobre as nossas opções e se essas têm sido um reflexo do que desejamos, livres de condicionamentos e medos. Tudo o que nos acontece são oportunidades para pormos em causa os nossos pensamentos, sentimentos e atitudes. Será que são serenos, coerentes com a nossa essência mais íntima, ou será que são fruto de padrões de comportamento e defesas que carregamos às costas? E será que estaremos conscientemente presentes para reconhecer essa porta a abrir-se ou estará a nossa mente tão cheia de distrações que nem os vemos?

Para vermos essa abertura precisamos de escutar. E para escutar precisamos de parar, de entrar em silêncio, de contactar o nosso sentir e distinguir o que é nosso e o que nos foi colado de fora. Uma vida autêntica implica sentirmos a nossa essência para a conseguirmos exprimir no mundo, num movimento de exploração interior, de descoberta do que andamos aqui a fazer, para onde queremos ir, do que queremos aprender, conquistar e expressar. Pessoas para quem a vida é apenas uma sucessão de momentos do nascimento até à morte, cujo propósito não lhes toca, são pessoas que passam pela superfície das águas sem mergulhar. Não ficam molhadas, mas também não conhecem a beleza que se esconde nas profundezas do mar, não conhecem a sensação de sentirem o corpo em contacto com a água…

Pessoas atentas deparam-se constantemente com momentos de abertura à mudança. A atenção é o contrário de distração. É o contacto consigo próprias. É reconhecer o que sentimos perante os estímulos exteriores. E quando andamos distraídos não sentimos. Distraímo-nos para nos abstrairmos, porque é cansativo estar atento à vida. É cansativo olharmos para nós, ficarmos no sentir, questionarmos as escolhas que fazemos, assumirmos a liberdade de alterar tudo a qualquer momento. Preferimos não pensar, não sentir, não sofrer, não nos molhar… e vamos vivendo, ou melhor, sobrevivendo, sempre sequinhos! Aceitar entrar no desconhecido assusta, mete medo, cria-nos insegurança. É melhor não... É melhor optarmos pelo seguro, pelo que nos é familiar e já conhecemos, pois assim sabemos com o que contamos. Como se a vida fosse uma escolha entre certezas e incertezas… como se a vida pudesse ficar imutável se escolhermos o conhecido. Resistimos. Resistimos. Resistimos. Quem não resiste entrega-se à batalha. Só os grandes guerreiros se disponibilizam às grandes batalhas. Batalhas que transformam a vida. Batalhas onde nada se perde, a não ser o que já não nos serve e não é útil ao nosso propósito de vida.

Entrar numa batalha para ganhar traduz-se em perder logo à partida. O objetivo deste tipo de batalhas, ou desafios, não são a vitória sobre um inimigo, mas sim um enriquecimento, uma transformação, no contacto com os outros, que não são nossos inimigos, mas sim ferramentas para conseguirmos concretizar as nossas aprendizagens, sendo que aprender e crescer implica superar obstáculos que tendemos a ver como externos, mas que, na verdade, são apenas internos. Já só reconhecê-los é difícil, implica atenção e perseverança num trabalho de olhar para si próprio, o que nem todos estão dispostos a fazer.

 A condição sine qua non para que os desafios nos enriqueçam – sejam eles arriscar investir no que se gosta de fazer, ir numa viagem, entrar numa nova relação, o que for! –, é estarmos disponíveis a sermos afetados. Ser afetado no sentido de estar interiormente aberto para que determinado momento nos possa provocar uma mudança. Ser afetado na sequência de um fluxo de movimentos pautados pelo afeto, pelo sentimento. Entregar-se ao momento, deixar que ele nos afete, acolher sem resistências a entrada das águas em cada poro da nossa pele para que sintamos a intensidade da vida, no que ela tem de transformador, é só para quem tem a grande vontade de valorizar e honrar a própria existência. Quando nos abrimos aos momentos e nos deixamos afetar – com afeto – é sempre uma oportunidade para que o desconhecido passe a conhecido. Mas até que ponto nos queremos conhecer? Na mesma exata medida em que nos permitimos ser afetados pelos momentos que passam por nós. Ou os apanhamos e corremos o risco de uma caminhada cada vez mais feliz, ou os deixamos ir, na ilusória certeza de que a nossa vida continuará a mesma de sempre.

Ter a disponibilidade para nos entregarmos a momentos que nos fazem pôr em causa a nossa visão do mundo abre-nos para uma vida mais estimulante e significativa. Momentos que questionam o nosso sentir. Momentos que alteram a nossa caminhada no trilho da vida. Momentos que se tornam marcos no nosso percurso. Momentos escolhidos.

Rossana Appolloni
www.rossana-appolloni.pt

Foto: Bernardo Conde

www.bernardoconde.com

17 de outubro de 2017

A melhor fase da nossa vida!

A melhor fase da nossa vida tem de ser aquela onde nos encontramos. O desafio é precisamente esse. Pensei neste tema enquanto olhava para o meu filho e pensava: é a melhor fase da vida dele. Ponderei vários motivos, entre eles a despreocupação de um menino de 3 anos, com a vida pela frente. Mas depois pensei: ainda assim, tem tantos desafios… Sim, se calhar a melhor fase é depois da adolescência, quando entramos na vida adulta, começamos a trabalhar e sentimos que vamos na direção de algo, que somos capazes! Depois pensei em mim: a imaturidade emocional era grande. Havia um grande sentido de responsabilidade, de ética e de funcionamento, mas a nível emocional ainda existia um mar para navegar.

Fiquei então na bruma. E ao refletir um pouco concluí algo que pode ser um cliché, mas que é algo que podemos desejar e procurar encontrar: a melhor fase da nossa vida tem de ser aquela onde nos encontramos. O desprendimento temporal a tempos antigos da nossa vida, leva-nos a acreditar, de uma forma algo ingénua, que lá para trás fomos muito felizes, apesar dos percalços. O negativo fica esbaforido na contagem do tempo ou, deturpadamente, fica numa forma ilusória como algo “que não foi tão mau assim”. A par disto, as coisas boas crescem, valorizam-se e, quais portugueses saudosos, olhamos para os eventos do nosso passado como os “melhores”, os mais “preenchidos”, os mais “felizes”.
Mas podem ser apenas ilusões. O desafio maior que temos nas nossas vidas não é sermos felizes, é estarmos na melhor fase das nossas vidas, precisamente no momento em que nos encontramos, com tudo o que isso traz. Sejam encontros ou desencontros. Pode parecer ilógico de algum ponto de vista, pois o ser humano não quer sofrer, mas na realidade, o passado não existe e o futuro ainda não se fez. Residem dentro de nós e podem ter um poder abissal e descontrolado. A grande aprendizagem é estar presente no momento em que nos situamos, conectados, aceitando o que surge. Essa aprendizagem é a vida!
Texto de Ana Caeiro, Psicoterapeuta Corporal em Biossíntese
psicorporal.bio@gmail.com
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Foto de Ruslan Zh em Unsplash